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Número atual: Dezembro 2009 - Volume 16  - Número 4


TENDENCIAS E REFLEXÕES

Controle postural no envelhecimento: um estudo comparativo entre Brasil e Espanha

Postural control in aging: a comparative study among Brazil and Spain


Fábio Marcon Alfieri1; Marcelo Riberto2; Carla Paschoal Corsi Ribeiro3; Maria Angels Abril Carreres4; Linamara Rizzo Battistella6; Roser Garreta Figuera5

1. Fisioterapeuta, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Adventista de São Paulo - UNASP.
2. Médico Fisiatra, Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
3. Fisioterapeuta, Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
4. Médica Fisiatra, Hospital Universitário Mútua de Terrassa da Universidade de Barcelona.
5. Livre-docente, Professora Associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
6. Chefe do Serviço de Reabilitação do Hospital Universitário Mútua de Terrassa da Universidade de Barcelona.


Endereço para correspondência:
Fábio Marcon Alfieri
UNASP - Centro Universitário Adventista de São Paulo
Estrada de Itapecerica, 5859
São Paulo - SP Cep 05828-001
E-mail: fabio.alfieri@unasp.edu.br

Recebido em 30 de Outubro de 2009, aceito em 13 de Novembro de 2009.


Resumo

O envelhecimento traz consigo alterações nos sistemas sensoriais e músculo-esquelético, que juntos alteram o controle postural dos idosos. O objetivo deste estudo foi o de verificar e comparar o controle postural de idosos da cidade de São Paulo - Brasil, com idosos que vivem em Terrassa (Barcelona)- Espanha. Participaram da pesquisa, 36 idosos brasileiros (69,61±5,3 anos) e 33 idosos espanhóis (69,72±4,6 anos) considerados saudáveis, recrutados a partir de dois serviços de reabilitação. Os voluntários realizaram avaliações pertinentes ao controle postural por meio do teste Timed up and go e bateria de testes de Guralnik. Os dados foram analisados por meio do teste t e os resultados mostram que os grupos são semelhantes quanto a idade e a composição corporal, porém o grupo do Brasil apresentou melhores resultados nas duas avaliações realizadas quando comparado com o grupo da Espanha. Concluise que os indivíduos brasileiros deste estudo apresentaram melhor desempenho na realização dos testes sobre controle postural.

Palavras-chave: Equilíbrio Postural, Envelhecimento da População, Grupos Étnicos




INTRODUÇÃO

O processo de envelhecimento populacional está acontecendo tanto mundial 1 quanto nacionalmente.2 Com a senescência, as alterações músculo-esqueléticas e dos sistemas sensoriais (vestibular, visual e sômato-sensorial) podem levar à diminuição do controle postural que está associado a limitações funcionais e quedas.3,4

Verificar o quanto de controle postural os idosos apresentam é importante a fim de detectar os prováveis riscos quanto às quedas que estes indivíduos apresentam. Como não encontramos na literatura5 valores sobre o controle postural entre casuísticas brasileira e espanhola, o objetivo deste estudo foi o de verificar e comparar o controle postural de idosos brasileiros com idosos espanhóis com idade de 60-69 e 70-79 anos.


MÉTODO

Este estudo transversal foi aprovado pelos comitês de ética e pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Brasil) e do Hospital Universitário Mútua de Terrassa (Espanha). Os voluntários que concordaram em participar neste estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

Participaram da pesquisa, 36 idosos hígidos com idade entre 60-79 anos vinculados a Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Brasil) e 33 idosos vinculados ao serviço de reabilitação do Hospital Universitário Mútua de Terrassa (Espanha). Foram excluídos do estudo aqueles: que haviam participado em algum programa de exercício físico regular nos três meses anteriores da pesquisa; portadores de insuficiências graves: cardíaca, respiratória, artropatia sintomática de membros inferiores (ou de outra qualquer parte do corpo que pudesse prejudicar o desempenho do voluntário nas avaliações), diabetes instável e hipertensão não controlada; com próteses articulares e osteossínteses (membro inferior); com história de fratura prévia (nos membros inferiores e coluna vertebral); com doenças neurológicas; sem correção visual e aqueles com queixas de tonturas.

Os voluntários realizaram o teste Timed Up and Go (TUG) 6 e a bateria de testes de Guralnik 7 que consiste na avaliação de três itens: equilíbrio estático, habilidade de caminhar, habilidade de levantar-se de uma cadeira, sendo que cada item tem uma pontuação de 0 a 4. Foram utilizados para a pesquisa uma cadeira sem braços e um cronômetro. As comparações foram feitas usando o teste t de Student. O nível de significância estabelecido foi de p <0,05.


RESULTADOS

Participaram da pesquisa 69 idosos distribuídos nas faixas etárias de 60-69 e 70-79 anos entre os países: Brasil e Espanha. A Tabela 1 mostra as características das populações quanto à distribuição do sexo, idade, índice de massa corporal, mostrando que os dois grupos de voluntários são semelhantes nestes aspectos e estatisticamente diferentes em relação aos resultados do teste TUG e da bateria de testes de Guralnik.




DISCUSSÃO

Aos resultados das avaliações realizadas mostraram que o grupo dos idosos do Brasil apresentou melhores resultados que o grupo de idosos da Espanha.

Realizando uma meta-análise dos valores de referência do teste TUG, Bohannon 5 verificou que indivíduos com idade entre 60-69 anos gastam em média 8,1 segundos para a realização do teste, valor semelhante ao apresentado pelo grupo de idosos do Brasil, que foi de 8,77 segundos. Quanto ao tempo de realização do TUG em indivíduos entre 70-79 anos, o valor médio é de 9,2 segundos, apenas 0,14 segundos a menos que os idosos do Brasil. Os idosos da Espanha realizaram o teste com valores estatisticamente superiores aos idosos dos Brasil e em valores superiores a 11 segundos, o que segundos tal estudo 5 corresponde a valores de tempo de execução do TUG de indivíduos com idade entre 80-99 anos (11,3 segundos).

Os resultados da bateria de testes de Guralnik mostraram que nenhum grupo de idosos apresentou o escore máximo que é de 12 pontos, porém os idosos do Brasil mostraram desempenho melhor do que os da Espanha, o que confirma os melhores resultados obtidos pelos idosos do Brasil na realização do teste TUG.

Embora tais resultados permitam afirmar que o grupo de idosos do Brasil apresentou melhores resultados que os idosos da Espanha, não podemos nos esquecer que a avaliação do controle postural é uma tarefa complexa, pois além de envolver fatores fisiológicos como: força muscular, propiocepção, integridade do sistema neuromuscular e condição visual,8 também envolve fatores não fisiológicos como motivação e medo de cair 9 que podem interferir no desempenho destes indivíduos ao realizarem tais avaliações.

Questoes como condições ambientais (cidades diferentes quanto a organização de serviços e à própria estrutura como número de habitantes e fatores sócio-culturais) e a presença de dois avaliadores distintos (que embora tenham utilizado as mesmas instruções de aplicação das avaliações)6,7 podem interferir nos resultados deste estudo. Sugere-se que sejam realizados estudos comparativos com um único avaliador, com amostras maiores e também com medidas diretas de avaliação do controle postural entre indivíduos pertencentes a locais distintos a fim de verificar se tais diferenças permanecem.

Agradecimentos

Anna Costa Arias, Carmen Kalahorrano e Rosa Montesó por ajudarem a identificar os voluntários para a pesquisa. Ao Programa de Mobilidade Internacional do Banco Santander/USP e ao UNASP pelo apoio financeiro.


REFERENCIAS

1. Martin JE, Sheaff MT. The pathology of ageing: concepts and mechanisms. J Pathol. 2007;211(2):111-3.

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil [texto na Internet]. Rio de Janeiro: IBGE; 2000 [citado em 2008 Out 2]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/perfilidoso/perfidosos2000.pdf

3. Amiridis IG, Hatzitaki V, Arabatzi F. Age-induced modifications of static postural control in humans. Neurosci Lett. 2003;350(3):137-40.

4. Chang JT, Morton SC, Rubenstein LZ, Mojica WA, Maglione M, Suttorp MJ, et al. Interventions for the prevention of falls in older adults: systematic review and meta-analysis of randomised clinical trials. BMJ. 2004;328(7441):680.

5. Bohannon RW. Reference values for the timed up and go test: a descriptive meta-analysis. J Geriatr Phys Ther. 2006;29(2):64-8.

6. Podsiadlo D, Richardson S. The timed "Up & Go": a test of basic functional mobility for frail elderly persons. J Am Geriatr Soc. 1991;39(2):142-8.

7. Guralnik JM, Simonsick EM, Ferrucci L, Glynn RJ, Berkman LF, Blazer DG, et al. A short physical performance battery assessing lower extremity function: association with self-reported disability and prediction of mortality and nursing home admission. J Gerontol. 1994;49(2):M85-94.

8. Rogers ME, Rogers NL, Takeshima N, Islam MM. Methods to assess and improve the physical parameters associated with fall risk in older adults. Prev Med. 2003;36(3):255-64.

9. Thrane G, Joakimsen RM, Thornquist E. The association between timed up and go test and history of falls: the Tromso study. BMC Geriatr. 2007;7:1

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