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Número atual: Dezembro 2016 - Volume 23  - Número 4


ARTIGO ORIGINAL

Desenvolvimento e validação de um questionário de qualidade de vida em indivíduos com lesão da medula espinal

Development and validation of a quality of life questionnaire for individuals with spinal cord injury


Sibele Pelloso Feniman1; Jefferson Rosa Cardoso2; Isabela Lucia Pelloso Villegas3; Lais Faganello Dela Bela4; Suhaila Mahmoud Smaili Santos5; Edson Lopes Lavado6

DOI: 10.5935/0104-7795.20160033

1. Fisioterapeuta, Mestre em Ciências da Reabilitação
2. Professor Associado, Universidade Estadual de Londrina - UEL
3. Fisioterapeuta, Mestre em Educação Física
4. Professora, Faculdade de Ensino Superior Dom Bosco
5. Professora Associada, Universidade Estadual de Londrina - UEL
6. Professor Adjunto, Universidade Estadual de Londrina - UEL


Endereço para correspondência:
Suhaila Smaili Santos
Universidade Estadual de Londrina, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Fisioterapia
Av. Robert Kock, 60
Londrina - PR CEP 86038-440
Email: suhailaneuro@gmail.com

Recebido em 04 de Maio de 2016.
Aceito em 27 Fevereiro de 2017.


RESUMO

Objetivo: Criar e testar as propriedades psicométricas de um instrumento específico para quantificação da qualidade de vida de indivíduos com lesão da medula espinal. Método: A partir dos métodos de consenso existentes, foi escolhida a técnica Delphi para criação do questionário e o SF-36 como método critério. Resultados: A consistência interna foi α=0,827. A confiabilidade intra e interavaliadores se mostram alta pelo coeficiente de correlação intraclasse e teste de bland e altman pela diferença da média. Pode-se observar correlações fortes entre o QVLM e SF-36 nos domínios capacidade funcional e aspectos físicos e correlação moderada nos domínios estado de saúde e aspectos emocionais. Houve diferença significante entre as quatro aplicações do QVLM demonstrando que o questionário é sensível à mudança. Conclusão: O QVLM foi criado com metodologia adequada e a avaliação das propriedades psicométricas traduzem em um instrumento válido, confiável, consistente e sensível a mudanças.

Palavras-chave: Qualidade de vida, Traumatismos da Medula Espinal, Inquéritos e Questionários




INTRODUÇÃO

O World Health Organization Quality of Life (WHOQOL GROUP) da OMS definiu que Qualidade de Vida (QV) é "a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações".1 O interesse e aplicabilidade da expressão QV na área da saúde decorre, sobretudo, da definição de Saúde assumida pela Constituição da Organização Mundial de Saúde - OMS (1948) como um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente como a ausência de doença. Esta definição implica que as iniciativas de promoção de saúde não sejam apenas dirigidas ao controle de sintomas, diminuição da mortalidade ou aumento da expectativa de vida, mas valorizando igualmente aspectos como o bem-estar e a qualidade de vida.

A inatividade após a lesão da medula espinal causa uma diminuição da massa muscular e da capacidade aeróbica, uma condição osteoporótica e disfunção renal e, além disso, coloca o indivíduo em risco de doenças cardíacas e consequentemente reduz sua expectativa de vida.2 Os comprometimentos funcionais decorrentes da lesão medular variam de um indivíduo para o outro, e os desempenhos nas habilidades das atividades da vida diária são fortemente prejudicados, o que predispõe a pessoa a um quadro de incapacidade funcional e provoca, assim, vários graus de dependência, principalmente no tocante à mobilização, aos cuidados de higiene, ao apoio na alimentação, à realização das atividades domésticas, dentre outros,3 reduzindo de forma significativa a qualidade de vida dessas pessoas.

A utilização de questionários como parâmetros de avaliação é útil, pois padroniza e uniformiza a reprodutibilidade das medidas a que se propõe4 e permite uma avaliação objetiva de sintomas subjetivos como dor, ansiedade, depressão entre outros.5 É uma medida de baixo custo e seu uso na prática clínica identifica as necessidades dos pacientes e avalia a efetividade da intervenção. Em ensaios clínicos servem como instrumento de medida dos desfechos e também são importantes como componente da análise custo-benefício do tratamento.6

A escolha do instrumento mais adequado para um estudo particular nem sempre é algo simples e direto, pois há um grande número destes disponíveis e os resultados do estudo podem ser influenciados por essa escolha. No que toca a lesão da medula espinhal tem-se utilizado instrumentos genéricos para avaliação da qualidade de vida os quais desenvolvidos para avaliação da saúde da população em geral ou para grupos específicos como o caso do WhoQol7,8 e o SF36.9,10 Considerando as particularidades do indivíduo com lesão da medula espinhal em sua nova condição de vida, torna-se iminente a necessidade de instrumentos de avaliação desenvolvidos especificamente para este grupo. O conhecimento dos conceitos de confiabilidade e validade e dos métodos para avaliar os instrumentos de investigação quanto a esses aspectos podem ajudar na escolha do melhor instrumento para cada investigação.11


OBJETIVO

O objetivo deste estudo foi criar e testar as propriedades psicométricas de um instrumento específico de quantificação da qualidade de vida de indivíduos com lesão da medula espinal utilizando metodologia adequada de criação e validação.


MÉTODO

A partir dos métodos de consenso existentes, foi escolhida a técnica Delphi12,13 para a criação do questionário devido ao número de participantes que foram envolvidos, o procedimento para ser escrito, o anonimato dos comentários, e o tempo disponível (cerca de dois anos) para realizar o estudo.

Participantes

Participaram deste estudo indivíduos com lesão da medula espinal entre os segmentos C5 e L2 de acordo com a classificação da American Spinal Injury Association (ASIA).14 Foram excluídos do estudo indivíduos com dificuldade de leitura e portadores de outras doenças neurológicas associadas. Todos os participantes assinaram um termo de consentimento e este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética local (no 012/2010). Este estudo foi desenvolvido em um hospital escola no período de 2010 a 2012. A amostra estimada foi de 72 participantes considerando a prevalência de 0,18% de lesão da medula espinhal (censo 2010)15 e erro padrão amostral de 1%.16

Desenvolvimento do questionário

Formou-se uma equipe de trabalho composta por epidemiologistas (com formação em enfermagem, medicina, psicologia, educação física e terapia ocupacional) e fisioterapeutas clínicos tendo um deles formação em estatística, que foi responsabilizada pelos procedimentos de seleção dos itens do questionário e dos participantes como também, pela construção do questionário, análise das respostas e formulação de feedback. Todos profissionais envolvidos tinham mais de oito anos de experiência na abordagem ao paciente com lesão da medula espinal.

Para o desenvolvimento dos questionamentos iniciais, foram coletadas informações da literatura e entrevista estruturada com 30 indivíduos portadores de lesão medular. Assim construiu-se o questionário Qualidade de vida na lesão medular 1 (QVLM1). As opções de resposta utilizadas foram da escala Likert de 5 pontos (concordo totalmente-discordo totalmente).

Após foi constituída uma lista de especialistas na área de neurologia, fisioterapia neurológica, serviço social, educação física, terapia ocupacional, enfermagem e psicologia, os quais receberam questionamentos sobre qualidade de vida na lesão medular. Dentre os questionamentos realizados aos profissionais das diferentes áreas destacam-se algumas perguntas que foram essenciais para a elaboração do questionários como: - quais aspectos devem ser abordados na avaliação de um indivíduo com lesão medular [recente (considerar o momento do diagnóstico e internação hospitalar), durante a reabilitação (após a alta hospitalar), tardia (mais de 1 ano de lesão)]?

- quais os critérios você considera importante para avaliar a qualidade de vida de um indivíduo com lesão medular?

- para um questionário especifico para indivíduos com LM, qual domínio você considera imprescindível?

- há alguma questão/assunto que, na sua opinião profissional, não pode faltar em um questionário especifico para indivíduos com lesão medular?

Com o retorno dos questionamentos a equipe de trabalho acrescentou as considerações pertinentes dos especialistas ao QVLM1. Aos especialistas foi dado um feedback e a oportunidade de discutir os resultados das decisões tomadas pela equipe de trabalho.

O QVLM1 foi enviado a um grupo de especialistas em fisioterapia neurofuncional para sugestões. Houve sigilo absoluto das identificações desses profissionais, afim de que assegurasse a não comunicação entre eles. Foram solicitadas sugestões acerca do questionário enviado e considerações para cada questão.

Com base no QVLM1 e as alterações acatadas pela equipe, foi criado assim o questionário de qualidade de vida na lesão medular 2 (QVLM2) com base no QVLM1 mais as informações dos especialistas. Este novo questionário retornou aos especialistas com um feedback e oportunidade para discutir os resultados das decisões tomadas pela equipe de trabalho.

Após o retorno do QVLM2 e seu ajuste, a equipe de trabalho considerou suficiente três das quatro etapas Delphi para consenso definido como "concordância geral da maioria" e o resultado final foi o questionário de qualidade de vida na lesão medular (QVLM). Este questionário foi testado na população alvo para avaliação da equivalência cultural (pré-teste). Os participantes deste processo relataram as dúvidas e sugestões em relação ao instrumento. Todos os relatos foram analisados pela equipe e, quando necessário, adequações foram feitas. Somente então foi obtida a versão definitiva do instrumento. Sendo assim, a versão definitiva totalizou 74 itens, divididos em cinco domínios: Estado Geral de Saúde (28 itens), Relações Sociais (11 itens) Independência Funcional (14 itens), Acessibilidade (4 itens) e Aspectos Emocionais (17 itens). As opções de respostas são: (1) discordo totalmente, (2) discordo parcialmente, (3) nem concordo nem discordo, (4) concordo parcialmente e (5) concordo totalmente. A pontuação total varia de 74 a 370 pontos e quanto maior a pontuação, pior a qualidade de vida do indivíduo.

Avaliação das propriedades psicométricas

Confiabilidade


O QVLM foi aplicado aos participantes elegíveis para esta fase do estudo. Para a análise da confiabilidade três aplicações do QVLM foram necessárias: No primeiro dia dois avaliadores (A e B) aplicaram o questionário com intervalo máximo de uma hora (avaliação interavaliador). Entre 24 e 72 horas após a aplicação inicial o avaliador A aplicou o questionário novamente (avaliação intra-avaliador).

Validade

O questionário genérico de qualidade de vida (SF-36) foi utilizado como método critério. A validade de construto foi aceita se:

- A pontuação do QVLM e do SF-36 domínios: componente físico e funcionalidade apresentassem uma correlação forte (r ≥ 0,7);

- A pontuação do QVLM e do SF-36 domínios saúde mental e aspectos sociais do SF-36 apresentassem correlação entre fraca e moderada (0 > r < 0,7).

Responsividade

O QVLM foi aplicado a indivíduos portadores de lesão da medula espinal em quatro tempos: inicial, após três meses, após seis meses e após nove meses do início das entrevistas.

Análise estatística

O teste de Shapiro-Wilk foi usado para testar a distribuição de normalidade. As variáveis que assumiram os pressupostos foram apresentadas em média e desvio padrão, enquanto as variáveis que não apresentaram, em mediana e seus respectivos quartis (1° e 3°). A consistência interna foi estimada pelo Coeficiente alfa de Cronbach. Para o teste de confiabilidade intra e inter-avaliadores foram utilizados: Coeficiente de Correlação Intraclasse - CCI (efeito aleatório - um fator) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% para cada valor do CCI e o teste de concordância de Bland e Altman. Incluem-se no teste de concordância de Bland e Altman: a diferença média entre as medidas (ƌ) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95% para ƌ), o desvio padrão da diferença da média (DP da ƌ) e os limites de concordância.

Para avaliação da validade de construto, foi utilizado o Coeficiente de Correlação de Spearman e seus respectivos intervalos de confiança de 95% correlacionando a pontuação do QVLM e domínios: componente físico, funcionalidade, saúde mental e aspectos sociais do SF-36. Para se obter a sensibilidade à mudança quando comparados os diferentes escores do QVLM a Análise de variância (ANOVA) para medidas repetidas foi utilizada. O teste de esfericidade de Mauchly foi aplicado e, como este foi violado, correções técnicas foram realizadas utilizando o teste de Greenhouse-Geisser. Como o teste F foi significante, a análise pelo teste de comparações múltiplas de Bonferroni foi usada. Os efeitos Floor e Ceiling foram apresentados descritivamente por meio dos percentis 5 e 95 nas quatro semanas de aplicação do instrumento. A significância estatística foi estipulada em 5% (P ≤ 0,05). As análises foram realizadas nos programas SPSS® (Statistical Package for Social Sciences versão 20.0) e MedCalc® (versão 11.3.3.0).


RESULTADOS

O questionário QVLM foi aplicado a 72 indivíduos com lesão da medula espinal compreendida entre os segmentos C5 e T12 sendo 15 (20,8%) tetraplégicos e 57 (79,2) paraplégicos que tiveram uma média de tempo de preenchimento de 3 (DP=1) minutos. Na Tabela 1 estão registrados os dados de caracterização da amostra estudada.




A consistência interna foi α = 0,827. Os valores de confiabilidade intra e interavaliadores se mostraram alta pelo coeficiente de correlação intraclasse (Tabela 2) e teste de Bland e Altman pela diferença da média (Figuras 1 e 2).




Figura 1. Bland Altman inter-avaliador


Figura 2. Bland Altman intra-avaliador



Pode-se observar correlações fortes do QVLM com o SF36 nos domínios capacidade funcional e aspectos físicos e correlações moderadas nos domínios estado de saúde e aspectos emocionais. As correlações encontradas entre QVLM e SF-36 nos domínios capacidade funcional, aspectos físicos, estado de saúde e aspectos emocionais estão descritas na Tabela 3.




Houve diferença significante entre as quatro aplicações do QVLM demonstrando que o questionário é sensível à mudança. Os valores da variância nas quatro avaliações (inicial, três, seis e nove meses) estão descritos na Tabela 4. Os efeitos Floor e Ceiling foram apresentados descritivamente (Tabela 5) e não foi observada presença substancial desses efeitos.






DISCUSSÃO

O estudo teve por objetivo criar e testar as propriedades psicométricas de um instrumento específico de quantificação da qualidade de vida de indivíduos com lesão da medula espinal. Na etapa de criação, adaptações quanto ao vocabulário foram feitas com base nos relatos de indivíduos portadores de lesão medular e na experiência clínica dos profissionais envolvidos, minimizando possíveis dualidades de interpretação, permitindo que o questionário possa ser aplicado na forma de entrevista pelo avaliador ou ser preenchido pelo próprio entrevistado, sem apresentar alterações nos resultados. Como observado em Jelsness-JØrgensen et al.17 na validação do questionário de avaliação da qualidade de vida de pacientes com doença inflamatória intestinal (Norwegian version o the short health scale) e que também utilizaram do SF-36 como método critério.

Na validação do questionário QVLM, os resultados encontrados indicam alta confiabilidade intra e interavaliadores, e a consistência interna apresentou valor α = 0,827. Isto assegura que o QVLM revela-se um instrumento válido e responsivo tornando-o confiável para prática clínica e pesquisa. Paiva et al.18 na validação do questionário BSIqol, obteve consistência interna α = 0,79.

Para validação necessita-se de dois testes estatísticos o CCI e o Bland e Altman,19 pois o CCI isoladamente não promove informação suficiente sobre a confiabilidade das medidas devido à influência da magnitude da variação entre-sujeitos e por não demonstrar a indicação do valor medido ou suas variações e do erro da medida e impossibilidade de ser interpretado clinicamente. Por outro lado, o teste de Bland e Altman20 fornece uma figura na qual o tamanho e a amplitude das diferenças nas medidas podem ser interpretadas facilmente, erros ou outliers. Além disso, este método apresenta os valores do intervalo de confiança para a diferença da média e os limites de concordância. Estes dados, respectivamente, indicarão os erros nas medidas e podem indicar uma interpretação clínica.21

Elbers22 utilizaram para validação do Multidimensional Fatigue Inventory (MFI), os dois testes estatísticos (CCI e Bland e Altman).

Foram encontradas correlações fortes (r>0,7) entre o QVLM e SF-3623 nos domínios componente físico e funcionalidade, e moderadas (r<0,7) com os domínios aspectos de saúde e emocional. Pereira,24 na validação do instrumento LEFS em língua portuguesa, foram encontradas correlações fortes entre o LEFS e SF-36 no domínio componente físico e moderada com o domínio capacidade funcional. Quanto aos domínios saúde mental e aspectos sociais, encontraram correlações fracas.

Foram encontradas diferenças entre as pontuações da primeira aplicação do QVLM quando comparadas às outras três seguintes e entre a segunda e a quarta aplicação. Neste estudo a responsividade foi avaliada por meio da análise de variância de medidas repetidas visto que as mesmas pessoas responderam ao questionário em quatro momentos diferentes. Cacchio25 na validação da versão italiana do LEFS, avaliaram a responsividade pelo tamanho do efeito a resposta média padronizada e encontrou valores de 1,26 (P < 0,001) e 1,38 (P < 0,001) respectivamente.

Terwee et al.26 encontraram 24 definições para responsividade e as dividiram em três grupos: O primeiro grupo a define como a capacidade em detectar mudanças em geral. O segundo como a capacidade em detectar mudanças clínicas importantes. Enquanto que o terceiro a define como a capacidade em detectar mudanças reais no contexto medido. Os autores também revisaram os diferentes testes estatísticos utilizados para se determiná-la e encontraram 31 cálculos estatísticos diferentes (incluso os testes utilizados neste estudo). Os autores concluíram que todos os testes encontrados revelaram uma validade longitudinal ou uma medida do efeito do tratamento. E ainda, que não existe um método padrão para esta medida.

A utilização do SF-36 como método critério para validação do questionário é uma limitação deste estudo. Sabe-se que este instrumento foi elaborado para avaliar qualidade de vida em pacientes com artrite reumatoide e posteriormente traduzido e adaptado para o Brasil.23 E por não haver um instrumento específico para avaliação da qualidade de vida de indivíduos com lesão da medula espinal, este instrumento tem sido utilizado. Diversas limitações são encontradas na adoção de escalas genéricas para condições específicas, pois a administração da escala torna-se difícil pela falta de compreensão dos participantes em relação ao objetivo de responder tais questões.27

Especificamente, para avaliação de pacientes com lesão medular, questões com expressões genéricas como "subir lances de escada", "correr", "andar" geram dúvidas quanto a alternativa a ser assinalada. E a não abordagem de eventos específicos à rotina de pacientes com lesão da medula espinal trazem resultados que não condizem com a realidade.

Tendo em vista futuras pesquisas, nota-se que o desenvolvimento e validação de instrumentos para avaliar a qualidade de vida ou seus componentes específicos tornou-se uma importante área de pesquisa. Todavia, para demonstrar suas propriedades de medida, esses instrumentos devem ser avaliados e reavaliados em diferentes situações, ou seja, em diferentes centros de reabilitação e pesquisa, e por diversos pesquisadores.

Para a prática clínica, com a aplicação deste questionário tornará mais clara a avaliação da evolução dos pacientes submetidos a procedimentos clínicos, cirúrgicos e de reabilitação ou de outras formas de intervenção devido a demonstração clara da qualidade de vida destes indivíduos, pelo uso de um instrumento específico à nova condição desses sujeitos. As aplicações repetidas desse instrumento no decorrer de um período podem definir a melhora ou piora do indivíduo com lesão medular em diferentes aspectos, facilitando ao profissional o redirecionamento do tratamento segundo a evolução do paciente, tornando o atendimento individualizado e específico às necessidades reais do indivíduo.

Com a avaliação específica da qualidade de vida de portadores de lesão medular, projetos de reabilitação bem como de outras áreas das Ciências da Saúde, poderão voltar esforços para contemplar a plena qualidade de vida desses indivíduos tornando mais fácil a sua inclusão social, favorecendo a busca pelo emprego e melhoria das condições econômicas familiares bem como, reduzindo gastos dos sistemas de saúde com doenças advindas da inatividade tanto física como de transtornos psicológicos.


CONCLUSÃO

O QVLM foi criado com metodologia adequada e a avaliação das propriedades psicométricas traduzem em um instrumento válido, confiável, consistente e sensível às mudanças.


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