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Número atual: Junho 2016 - Volume 23  - Número 2


ARTIGO ORIGINAL

Quedas e fatores associados em idosos trabalhadores de uma instituição de ensino superior

Falls and associated factors among older workers in a university


Soraya Geha Gonçalves1; Edson Lopes Lavado2; Celita Salmaso Trelha2

DOI: 10.5935/0104-7795.20160016

1. Fisioterapeuta
2. Professor Doutor, Departamento de Fisioterapia, Universidade Estadual de Londrina - UEL


Endereço para correspondência:
Soraya Geha Gonçalves
Av. André Sert, 121
CEP 86200-000 Ibiporã - PR, Brasil
E-mail: sorayageha@hotmail.com

Recebido em 20 de Maio de 2016.
Aceito em 27 de Julho de 2016.


Resumo

Objetivo: Analisar fatores associados a quedas em idosos servidores de uma instituição de ensino superior pública. Métodos: Estudo transversal, com idosos trabalhadores de idade igual ou superior a 60 anos. Foi utilizado um questionário estruturado abordando aspectos sociodemográficos, ocupacionais e ocorrência de quedas nos últimos 12 meses. Instrumentos utilizados: Escala de Depressão Geriátrica, Pittsburgh Sleep Quality Index, International Physical Activity Questionnaire, Timed Up and Go Test, Teste de "Sentar e Levantar" da cadeira 5 vezes, Velocidade da Marcha, Equilíbrio Estático e Força de Preensão Manual. Resultados: Participaram do estudo 254 idosos trabalhadores, 76% pertenciam à faixa etária entre 60 a 64 anos e 58,7% eram do sexo masculino. A amostra foi dividida em dois grupos, caidores e não caidores e a prevalência de quedas nos últimos doze meses foi de 21,3% ± 2,72 (IC 95% = 15,92-26,58). Verificou-se associação significativa entre queda e sexo (p = 0,043), hospitalização nos últimos 12 meses (p = 0,000) e velocidade da marcha (p = 0,007). No modelo de regressão Poisson permaneceram as três variáveis associadas à queda: sexo masculino (RPaj = 0,62 IC 95% 0,40-0,98); velocidade da marcha adequada (RPaj = 0,46 IC 95% 0,26-0,81) e hospitalização nos últimos 12 meses (RPaj = 2,79 IC 95% 1,80-4,32). Conclusão: Estudo identificou uma menor prevalência de quedas nesta população e verificou a relação positiva entre trabalho e envelhecimento, no qual os idosos que continuam trabalhando tendem a apresentar melhores condições de saúde que a população de idosos em geral.

Palavras-chave: Acidentes por Quedas, Trabalhadores, Idoso, Nível de Saúde




INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional hoje faz parte da realidade da maioria das sociedades,1 de acordo com as projeções em 2025 o Brasil será o sexto país com mais idosos do mundo, alcançando cerca de 34 milhões ou 15,1% da população.2 Com o aumento de pessoas idosas e em idade produtiva, verifica-se no Brasil, que a participação do idoso no mercado de trabalho é alta comparada com os padrões internacionais, dentre os motivos, destaca-se a inserção do aposentado.3

De acordo com Furtado,4 a participação dos idosos masculinos na força de trabalho no Brasil é de 46%, só fica aquém de países como México e Islândia, que registraram patamares superiores a 50% e 60%, respectivamente, superando aqueles observados em vários países desenvolvidos como Estados Unidos, França, Alemanha, Canadá e Japão. À exceção do Japão, os referidos países apresentaram taxas inferiores a 30%.4

Portanto, não apenas cresce o contingente de idosos no Brasil, mas também sua importância na economia. Segundo o IBGE, em 1977, os idosos correspondiam a 4,5% da População Economicamente Ativa (PEA); em 1998 a 9% e pode vir a representar 13% da PEA brasileira no ano 2020.5 Segundo Giatti6 existe forte associação do trabalho com melhores indicadores de autonomia e mobilidade física, mesmo após o ajuste pela idade e demais fatores sociodemográficos.

Vários estudos4,6-9 têm demonstrado que as pessoas que trabalham apresentam melhores condições de saúde do que a população geral e que a permanência na vida ativa parece estar determinada fortemente pela capacidadefísica6. Nesse sentido, frente à importância da força de trabalho do idoso para a superação dos problemas do sistema previdenciário e ao mesmo tempo os benefícios que o mesmo pode ocasionar a saúde do idoso, este estudo é relevante porque traz à discussão a relação entre envelhecimento, trabalho e quedas.

Não foi encontrado na literatura estudos referentes a quedas em idosos trabalhadores, sendo de grande importância o estudo de quedas nesta população específica, no qual a queda pode ser considerada como um fator limitante para a permanência ou reinserção do idoso ao mercado de trabalho.


OBJETIVO

Diante deste contexto, o objetivo do presente estudo foi de analisar fatores associados a quedas em idosos servidores de uma instituição de ensino superior pública.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, observacional e exploratório, com idosos servidores públicos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), PR, Brasil. Após autorização da Pró-Reitoria de Recursos Humanos da instituição, foram considerados elegíveis para inclusão no estudo todos os trabalhadores com idade igual ou superior a 60 anos, locados nos diferentes centros e setores da instituição, independente do tipo de atividade ocupacional e sem distinção de sexo, raça ou classe social.

A amostra estimada foi de 240 participantes considerando uma prevalência de 11,3% de indivíduos acima de 60 anos na população brasileira com erro estimado de 4%.10 A fórmula utilizada foi Ε=α.√(p.q)/n. Participaram do estudo 254 idosos, conforme fluxograma (Figura 1), que ilustra o recrutamento e perda amostral dos idosos participantes deste estudo.


Figura 1. Fluxograma da amostra



Foram considerados como critérios de exclusão os idosos com alterações cognitivas detectáveis pelo Mini Exame do Estado Mental (MEEM), pontuação menor que o escore previsto para seu nível de escolaridade,11 recusa, trabalhadores afastados do trabalho por mais de 15 dias no período da coleta (licença saúde, licença especial, licença para capacitação e licença aposentadoria), óbito, incapacidade física para realizar os testes físicos funcionais, tais como amputação de membros inferiores, uso de cadeira de rodas, deformidade limitante, sequela grave de acidente vascular encefálico e doença de Parkinson grave ou instável, trabalhadores com deficiência vocal e auditiva que impedissem a realização da entrevista e aqueles que no momento do contato encontravam-se aposentados.

Os participantes foram contatados por telefone ou pessoalmente no local de trabalho, e previamente informados sobre os objetivos do estudo. A pesquisa obteve o parecer favorável do Comitê de Ética e Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UEL sob o nº. 107/2013 e protocolo CAAE 17813713.5.0000.5231. Os participantes foram informados sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Instrumentos de avaliação

Previamente foi realizado um estudo piloto com 30 idosos trabalhadores sem vínculos com a UEL, a fim de ajustar os instrumentos de coleta de dados. Participaram da coleta seis pesquisadores, sendo quatro alunos da graduação em saúde e dois pós-graduandos, e todos foram treinados previamente. A coleta de dados ocorreu no período de agosto de 2013 a agosto de 2014 no próprio local de trabalho ou em uma sala de uso comum, de acordo com a conveniência do trabalhador.

Foi utilizado um questionário estruturado aplicado em entrevista abordando aspectos sociodemográficos (sexo, idade, profissão, situação conjugal, escolaridade, renda familiar) ocupacionais (tempo de trabalho, exigência do trabalho e carga horária de trabalho) e ocorrência de quedas nos últimos 12 meses.

Em relação ao estado de saúde, foram utilizados a Escala de Depressão Geriátrica, versão curta (GDS - 15), Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI), uso de medicamentos, Índice de Massa Corporal (IMC), hospitalização nos últimos 12 meses, reside só, percepção saúde e International Physical Activity Questionnaire (IPAQ). Para avaliar o desempenho funcional (força de membros inferiores e superiores, mobilidade e equilíbrio) foram utilizados o Timed Up and Go Test (TUG), Teste de "Sentar e Levantar" (SL) da cadeira 5 vezes, Velocidade da Marcha (VM) 4,6 metros, Equilíbrio Estático e Força de Preensão Manual (FPM).

O MEEM, adaptado para a população brasileira por Bertolucci11 é um instrumento constituído por seis itens que avaliam funções cognitivas específicas, como orientação temporal, orientação espacial, registro, atenção e cálculo, memória de evocação e linguagem. O escore do MEEM pode variar de um mínimo de zero até, no máximo, 30 pontos. Foram considerados para a ausência de transtorno cognitivo os seguintes pontos de corte: 13 ou mais, para analfabetos; 18 ou mais, 1 a 7 anos de escolaridade; e no mínimo 26 pontos, para 8 anos ou mais de escolaridade.11

A validação brasileira da versão curta do GDS-15 foi realizada por Almeida e Almeida,12 é um instrumento que oferece medidas válidas e confiáveis para a avaliação de transtornos depressivos, no qual contém 15 questões com ponto de corte 5/6 (não/sim), com índices de sensibilidade de 85,4% e especificidade de 73,9% para o diagnóstico de episódio depressivo. A questão referente às exigências do trabalho (mentais, físicas ou ambas) foi adaptada do segundo item composto no Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT),13 sendo um instrumento que permite avaliar a capacidade para o trabalho a partir da percepção do próprio trabalhador.

O PSQI elaborado por Buysseet al.14 avalia a qualidade do sono em relação ao último mês, fornecendo um índice de gravidade e natureza do transtorno, ou seja, uma combinação de informações quantitativas e qualitativas sobre o sono. Sendo composto por sete componentes: C1 qualidade subjetiva do sono; C2 latência do sono; C3 duração do sono; C4 eficiência habitual do sono; C5 distúrbios do sono; C6 uso de medicação para dormir e C7 inerente à sonolência. A soma da pontuação máxima desse instrumento é de 21 pontos, sendo os escores superiores a cinco pontos indicativos de qualidade ruim no padrão de sono.14

Em relação à avaliação antropométrica, o IMC foi classificado como peso adequado (≤ 27,0 kg/m2) e sobrepeso (> 27,0 kg/m2)de acordo com os pontos de corte específicos para idosos propostos por Lipschitz.15 O IPAQ em sua versão curta foi utilizado para medida do nível de atividade física, seguindo as orientações padronizadas do instrumento e para fins da análise categorizados em ativo (muito ativo/ativo) e sedentários (irregularmente ativo/sedentários).16

A avaliação da mobilidade funcional foi estimada por meio da média de duas medidas do teste TUG. Conforme padronização, sentados em uma cadeira padrão de 45 cm de altura, foram orientados a levantar da cadeira sem o apoio dos braços, a deambular por três metros, fazer um giro de 180º, e em seguida retornar à posição sentada na velocidade habitual. Os resultados permitem classificar os idosos em: independentes e com baixo risco de quedas (tempo de teste menor que 10 segundos), semi-independentes e com médio risco de quedas (entre 10,1 e 20 segundos), e pouco independentes e com alto risco de quedas (maior que 20 segundos) e com mobilidade alterada.17

O equilíbrio estático foi avaliado em três posições (tandem stand, semi-tandem stand e side-by-side), adaptado do Short Physical Performance Battery - SPPB.18 O participante foi orientado a permanecer em cada posição durante dez segundos, com os olhos fechados na posição de pés juntos e prosseguia com um pé parcialmente à frente (olhos abertos) e com um pé à frente (olhos abertos).

O teste de SL da cadeira cinco vezes é considerado um indicador válido e confiável, para verificar a força de membros inferiores.19 Solicitado levantar e sentar da cadeira por cinco vezes, na maior velocidade possível (cronometrado o tempo gasto em segundos). Para o cálculo foi adotado o ponto de corte proposto por Guralnik e Winograd.18 A FPM foi avaliada por meio do dinamômetro do tipo JAMAR, com a mão dominante, foram obtidas três medidas em quilograma/força (Kgf), e considerado o valor médio com intervalo de 60 segundos de descanso entre uma medida e outra, com valores de referência de Barbosa et al.21

A VM foi calculada por meio do tempo gasto para percorrer 4,6 metros em velocidade confortável. Apenas uma medida foi coletada e foram adotados os pontos de corte ajustados pelo sexo e altura, conforme proposto por Fried et al.20

Análise de dados

Os dados coletados foram transcritos em formulário próprio, posteriormente tabulados por dois pesquisadores independentes e na sequência foi realizado espelhamento das informações, com intuito de reduzir inconsistências. Os arquivos criados foram comparados pelo programa Epi Info®, versão 3.5.1 e os dados discrepantes foram corrigidos, após consulta aos formulários. Todas as variáveis foram submetidas ao teste Kolmogorov-Smirnov para verificar a normalidade de distribuição dos dados.

Os dados foram resumidos pelas frequências absolutas e relativas e expostas em tabelas. A análise univariada para associação entre variáveis e grupos de caidores e não caidores foi realizada pelo teste do Qui Quadrado (χ2). A análise multivariada utilizou o modelo de Regressão de Poisson com ajuste robusto. Associações significantes foram definidas por p ≤ 0,05 e os softwares utilizados foram o Epi Info® versão 3.3.2 e Medcalc versão 9.3.2.0.


RESULTADOS

A população em estudo constituiu-se de 254 idosos trabalhadores, com predomínio do sexo masculino 149 (58,7%) e idade média de 62 anos, variando de 60 a 69 anos, com companheiros 155 (61%) e escolaridade de nível superior e pós-graduação 148 (58,3%). Ao total 244 (96,1%) trabalhavam mais de 30 horas semanais, como pode ser observado na Tabela 1.




Quase a totalidade dos trabalhadores idosos analisados considerava a sua saúde de boa a excelente qualidade e também não apresentaram sintomas depressivos. Mais da metade da população foi considerada ativa e a frequência de hospitalizados nos últimos 12 meses foi baixa (Tabela 2). Em relação às condições físico-funcionais, mais da metade da amostra apresentou valores adequados para todos os testes (Tabela 3).






A amostra foi dividida em dois grupos, caidores e não caidores e a prevalência de quedas em relação aos últimos 12 meses foi de 21,3% ± 2,72 (IC 95% = 15,92-26,58). Verificou-se associação significativa entre a variável dependente (queda) e as variáveis independentes: sexo (p = 0,043), hospitalização nos últimos 12 meses (p = 0,000) e velocidade da marcha (p = 0,007).

Permaneceram as três variáveis associadas à queda no modelo de regressão Poisson (Tabela 4). Ser do sexo masculino (RPaj = 0,62 IC 95% 0,40-0,98); velocidade da marcha adequada (RPaj = 0,46 IC 95% 0,26-0,81) e hospitalização nos últimos 12 meses (RPaj = 2,79 IC 95% 1,80-4,32).




DISCUSSÃO

A alta prevalência de quedas entre os idosos há algum tempo vem despertando o interesse no meio científico. Constata-se vasta literatura referente à prevalência de quedas e seus fatores relacionados em idosos que vivem na comunidade,22-25 institucionalizados,26 hospitalizados,27 fragilizados,20 praticantes de atividade física,28-29 dentre outros. Mas há escassez de estudos com a população de idosos trabalhadores.

A prevalência de quedas na população estudada foi de 21,3% e esse valor é inferior aos achados em estudos nacionais1,22-23 e internacionais24 com idosos não trabalhadores. Porém resultado semelhante foi verificado em um trabalho realizado com dados das pesquisas SABE (n = 9.765) e H-EPESE - Hispanic Established Populations for Epidemiologic Studies of the Elderly - (n = 1.483), a prevalência de quedas, entre as cidades participantes do estudo, variou de 21,6% em Bridgetown, Barbados, a 34,0%, em Santiago, Chile.24

Estudo de coorte realizado em São Paulo (SP) 31% dos idosos acima 65 anos sofreram queda no ano anterior.22 Siqueira et al.23 verificaram em seu estudo a prevalência de 27,6%, em uma amostra composta por 6.616 idosos moradores das áreas urbanas de 100 municípios de 23 estados brasileiros. O resultado encontrado no presente estudo possui amostra semelhante aos outros estudos22-25 no que tange a faixa etária, porém difere-se em relação à particularidade destes idosos serem trabalhadores.

Permitindo uma inferência em relação ao trabalho, até que ponto o trabalho pode ser visto como fator de proteção para quedas? Novos estudos são necessários, devido à escassez de estudos abordando esta temática. O que pode-se argumentar que se baseando em estudos relacionados à prevalência de quedas e o estimado pelo Ministério da Saúde, no valor de 30%, os idosos que estão inseridos no mercado de trabalho analisados apresentaram valor abaixo do esperado para sua faixa etária.

Verificou-se predomínio do sexo masculino (58,7%) e esta distribuição não está em concordância com estudos populacionais da comunidade, em que a maior longevidade feminina foi identificada, fenômeno este conhecido como a feminização da velhice.30 Este fato pode ser explicado que mais da metade dos idosos brasileiros do sexo masculino e quase um terço das mulheres idosas que estão no mercado de trabalho são aposentados, existindo uma maior inserção dos homens no mercado de trabalho.3,5

As quedas foram mais frequentes no sexo feminino e os resultados coadunam com a literatura.22-25,29 No presente estudo houve associação significativa entre sexo e queda, no qual os homens apresentam 52% menos chance de queda que as mulheres, portanto ser do sexo masculino é um fator de proteção. Resultado também apresentado por Reyes-Ortiz, Al Snih e Markides,24 no estudo realizado a partir de dados dos projetos SABE e H-EPESE, apontou que, dentre os fatores de risco independentes para uma ou mais quedas, o sexo feminino foi a única variável que apresentou associação em todas as cidades do estudo.

Contudo, os mecanismos para elucidar esse fenômeno são pouco claros e controversos. Admite-se como causa alguns fatores como quantidade de massa magra e de força muscular menor do que homens da mesma idade; maior perda de massa óssea devido à redução de estrógeno, aumentando a probabilidade de osteoporose; maior prevalência de doenças crônicas e maior exposição a atividades domésticas, devido às múltiplas tarefas que as mulheres realizam.24

Em relação à hospitalização, ela é reconhecida como um fator de risco para o declínio funcional das pessoas idosas31 e no presente estudo houve associação significativa entre queda e hospitalização nos últimos 12 meses. De acordo com a literatura30 o período de hospitalização leva a uma alteração do desempenho funcional de idosos. Esta perda funcional pode permanecer agravada no momento da alta, podendo manter-se durante meses, levando a uma redução da independência com efeitos negativos na qualidade de vida do idoso.31

O presente estudo revelou não haver diferenças em relação aos aspectos ocupacionais e queda. Em relação à exigência do trabalho, 63,4% desenvolvem atividades de predomínio mental, de acordo com o encontrado na literatura. Embora sejam as pessoas idosas com menor nível de escolaridade e com piores condições socioeconômica que mais participam do mercado de trabalho, à medida que eles envelhecem as melhores chances de permanecer ativos pertencem aos mais bem qualificados, aos de melhor escolaridade e, sobretudo, aos que não estão envolvidos em atividades manuais.3,5

No presente estudo, o GDS não teve associação significativa com quedas e de acordo com Silva Sá et al.32 o trabalho acarreta benefícios para a vida dos idosos, sendo o trabalho uma forma de manter o idoso em atividade física ou intelectual, ele pode ser também um bom meio de alcance da qualidade de vida na idade mais avançada.33 Para a Organização Mundial da Saúde a prática de atividade física pode retardar os declínios funcionais, favorecendo uma vida ativa com melhora da saúde mental e, portanto, contribui na gerência de desordens como a depressão e a demência. Existe evidência de que idosos fisicamente ativos apresentam menor prevalência de doenças mentais do que os não-ativos.34

Segundo Guimarães et al.28 a atividade física é uma modalidade terapêutica que melhora a mobilidade física e a estabilidade postural, que estão diretamente relacionadas com a diminuição de quedas. As medidas de força muscular, equilíbrio e mobilidade verificada no presente estudo, demonstraram boas condições de funcionamento corporal, corroborando, assim, com os achados.29 O trabalho pode ser considerado como um fator favorável para estes resultados, já que existe uma relação positiva entre trabalho e envelhecimento e mostra que os idosos trabalhadores tendem a apresentar melhores condições de saúde que a população de idosos em geral.33

A VM apresentou associação significativa com queda, com 80% de chance de não sofrer quedas os que apresentaram uma marcha adequada (velozes). Achados semelhante foi encontrado em um estudo de coorte,35 onde os autores avaliaram a VM de um grupo de idosos, distinguindo-os em três níveis de velocidade (alta, média e baixa). Os autores constataram que o grupo de menor VM teve mais quedas, entre outros eventos adversos.

A VM é o parâmetro isolado que melhor representa o desempenho da marcha, algumas modificações no padrão da marcha em idosos não estão totalmente esclarecidos.36 Alguns autores interpretam o fenômeno da diminuição da VM como uma estratégia compensatória para assegurar a estabilidade, uma vez que não existe um consenso acerca do tema. Segundo Graf et al.37 o comprometimento da marcha nos idosos está relacionado a diminuição da função física e ao aumento do risco de quedas. A VM pode ser utilizado como indicador simples e acessível de saúde da pessoa idosa, podendo também ajudar a redefinir estimativas de sobrevivências na prática clínica ou em pesquisas.38

Algumas limitações do estudo podem ser apontadas no intuito de conferir maior clareza e segurança na interpretação dos resultados. A resposta a variável dependente quedas foi obtida por meio de auto-relato, baseado em estratégias recordatórias, o que pode levar ao viés de memória. Compete acrescentar que a complexidade do processo de determinação da ocorrência de quedas e a limitação dos estudos transversais impossibilitam a identificação da precedência temporal dos fatores estudados, comprometendo as evidências de relação causal.

Sugere-se que outros estudos sejam realizados focalizando essa temática, com o intuito de estimar fatores associados ao risco ou proteção nessa população de idosos trabalhadores. No momento, eles são escassos e acredita-se que as pesquisas poderão evidenciar a influência que o trabalho exerce na qualidade de vida de idosos e assim, contribuir para elaboração de novas estratégias voltada a esta nova classe de trabalhadores, subsidiando assim o planejamento de ações de cuidado especificas para esta população.


CONCLUSÃO

O estudo mostra que a prevalência de quedas entre os idosos trabalhadores é inferior a população idosa geral, apresentado uma relação positiva entre trabalho e envelhecimento. Verificou-se que ser do sexo masculino é um fator de proteção para quedas e apresentar história de hospitalização nos últimos 12 meses e alteração na velocidade da marcha como fatores de risco.

Os resultados encontrados podem contribuir para a elaboração de novas estratégias de prevenção e auxiliar no direcionamento de políticas públicas de saúde voltadas à saúde do trabalhador idoso e nas intervenções dos profissionais de saúde.


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