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Número atual: Setembro 2015 - Volume 22  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Investigação dos saberes quanto à capacidade funcional e qualidade de vida em idosas institucionalizadas, sob a ótica da CIF

Investigating information regarding functional capacity and quality of life in institutionalized elderly according to the ICF


Luize Bueno de Araujo1; Natália Boneti Moreira1; Isabela Lúcia Pelloso Villegas1; Ana Paula Cunha Loureiro2; Vera Lúcia Israel1; Simone Alves Gato3; Gisele Kliemann1

DOI: 10.5935/0104-7795.20150022

1. Universidade Federal do Paraná - UFPR
2. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Escola de Saúde e Biociências, Departamento de Fisioterapia
3. Fisioterapeuta


Endereço para correspondência:
Vera Lúcia Israel
Rua Dr. Correa Coelho, 744, Apto 503
CEP 80201-350 Curitiba - PR
E-mail: veral.israel@gmail.com

Recebido em 11 de Março de 2015.
Aceito em 26 Agosto de 2015.


RESUMO

Objetivo: Avaliar a funcionalidade por meio da capacidade funcional e qualidade de vida (QV), sob a ótica da CIF, de idosas institucionalizadas. Método: Foi realizado um estudo observacional transversal com 22 idosas (77,9 ± 9,41 anos) de uma instituição de longa permanência da cidade de Curitiba/Paraná. Foram aplicados os seguintes instrumentos de avaliação: Índice de Barthel, Questionário Perfil de Saúde de Nottingham e a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). A descrição dos dados foi feita por meio de medidas de tendência central (média) e dispersão (desvio-padrão). A CIF foi analisada de acordo com a distribuição de frequência relativa e absoluta. Resultados: A maioria das idosas apresentaram um médio estado cognitivo e dependência funcional leve. O domínio que mais interferiu a QV das idosas foi a habilidade física, nível energético, sono, dor, emocional e social, respectivamente. A distribuição de frequência da CIF evidenciou aspectos não observados na avaliação convencional das idosas, sobretudo, apresentou grande especificidade nas funções mentais, sensoriais e dor, sistema digestivo, metabólico e endócrino, psicomotora, movimento, cuidado pessoal, apoio e relacionamentos e atividades individuais. Conclusão: Espera-se que a CIF seja incorporada e utilizada em diversos setores da saúde, inclusive em instituições de longa permanência e equipes multidisciplinares, para que profissionais tenham ações de saúde que contemplem o indivíduo como um todo.

Palavras-chave: Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, Qualidade de Vida, Idoso




INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. No Brasil, o número de idosos passou de 3 milhões em 1960, para 7 milhões em 1975 e 14 milhões em 2002, um aumento de 500% em 40 anos, e estima-se que alcançará 32 milhões em 2020.1,2 O processo de envelhecimento traz perdas e ganhos, tanto físicos quanto cognitivos, porém mudanças ocorrem em todas as etapas da vida.3 Para Cruz e Ferreira,4 o envelhecimento é individual como um processo natural da vida do ser humano. As alterações que ocorrem são próprias do envelhecimento normal e influenciadas por fatores genéticos e ambientais. É necessária uma visão holística sobre o "envelhecer" considerando os aspectos positivos desse processo e as potencialidades dos idosos, como por exemplo, habilidades nos relacionamentos sociais, sabedoria e experiência adquiridas com as experiências vivenciadas nas diferentes histórias de vida.

Apesar disto podem ocorrer no envelhecimento aspectos negativos como a perda progressiva das capacidades fisiológicas5 e das capacidades funcionais (CF). Estas CF indicam um novo componente no modelo de saúde dos idosos6 e podem ser definidas como o grau de preservação de habilidades em executar, de forma autônoma e independente, as atividades básicas de vida diária (auto-cuidado) e instrumentais de vida diária (mais complexas), dependentes de habilidades físicas e mentais.7 Considerando-se o modelo contextual que envolve as condições pessoais do indivíduo, o ambiente em que vive e as tarefas que executa, a avaliação da CF analisa o desempenho de atividades e funções em diferentes áreas, dentre as quais as tarefas da vida cotidiana, as interações sociais, as atividades de lazer e outras requisições do dia-a-dia8 que em seu conjunto proporciona um envelhecimento com qualidade. A Qualidade de Vida (QV)9,10 é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a percepção do indivíduo acerca de sua posição na vida, de acordo com o contexto cultural e o sistema de valores com os quais convive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.11

Outro aspecto a se considerar é que a população idosa, geralmente é constituída por idosos de classes econômicas inferiores e com algum tipo de doença, sem condições de viverem sozinhos ou com seus familiares,12 o que pode resultar na institucionalização do idoso. A Instituição de Longa Permanência (ILP), antigamente denominada de asilo, é uma residência coletiva, que atende tanto idosos independentes em situação de carência socioeconômica e/ou de família quanto aqueles com dificuldades para o desempenho das atividades diárias, que necessitam de cuidados prolongados.13 Para Freitas e Noronha,14 a ILP é um lugar para se viver e não um "depósito" para idosos. Portanto, as ILP's deveriam ser locais privilegiados para observar o modo de viver a velhice. Freire e Tavares15 apontam que o idoso institucionalizado constitui, quase sempre, um grupo privado de seus projetos, pois se encontra afastado da família, da casa, dos amigos, das relações nas quais sua história de vida foi construída. Além disso, estes idosos apresentam características significantes como o aumento do sedentarismo, perda da autonomia, ausência de familiares, que entre outros, contribuem para o aumento de prevalências das morbidades e co-morbidades relacionadas à autonomia.16

Neste contexto, surge a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), que por meio de um modelo biopsicossocial, pode tornar mais clara a informação em saúde do idoso com a percepção de que o mesmo diagnóstico pode apresentar limitações funcionais diferentes.17,18 A CIF tem um olhar descentralizado da doença e considera o ser humano de forma integral nas diversas circunstâncias de saúde e funcionalidade humana.19 Sendo assim, o idoso institucionalizado, em especial, deve ser observado com esse olhar ampliado de saúde, por meio de avaliações da capacidade funcional e qualidade de vida, na busca da promoção e prevenção na condição de saúde.20

Assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar a funcionalidade por meio da capacidade funcional e qualidade de vida, sob a ótica da CIF, de idosas institucionalizadas de Curitiba/PR.


MÉTODO

Amostra do estudo


Este foi um estudo analítico observacional transversal,21 que utilizou uma amostra por conveniência, realizado em uma Instituição de Longa Permanência na cidade de Curitiba/PR. Foi respeitada toda a legislação sobre ética em pesquisa.

A ala da ILP selecionada para o presente estudo foi o "lar das flores" que é constituída por 35 idosas. Os critérios de inclusão foram: mulheres com idade igual ou superior a 60 anos, residentes na ILP e com disponibilidade de participação voluntária. E os critérios de exclusão e amostra final foram idosas que apresentaram limitações que impossibilitassem a comunicação e a expressão durante as entrevistas ou que apresentaram uma pontuação abaixo de 17 no Mini-Exame do Estado Mental (MEEM).22,23

Dessa forma, inicialmente a amostra foi composta por 35 idosas, dessas, 13 foram excluídas: 7 se recusaram a participar, 5 não atingiram a pontuação de corte do MEEM, e 1 estava ausente para cuidados médicos. A amostra final do estudo foi composta por 22 idosas.

Instrumentos e Procedimentos de coleta de dados

Pesquisadores treinados realizaram a coleta de dados por meio de entrevista individual com cada participante, em que as idosas foram questionadas sobre suas características e seus dados de identificação. Em seguida, foi aplicado o Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), com o intuito de avaliar o estado cognitivo das participantes.24 Este teste é composto por questões agrupadas em 7 categorias: orientações para tempo, local, memória imediata, atenção e cálculo, evocação, linguagem e capacidade construtiva visual. A pontuação varia de zero (0) a trinta (30),22,25 sendo que baixos valores podem indicar quadros de perda cognitiva.26


AVALIAÇÃO DA CAPACIDADE FUNCIONAL

A Capacidade Funcional (CF) foi avaliada por meio do Índice de Barthel,27 um questionário composto por 10 itens, entre eles alimentação, banho, vestuário, higiene pessoal, eliminações intestinais, eliminações vesicais, uso do vaso sanitário, passagem cadeira-cama, deambulação e escadas.28 Cada item foi pontuado de acordo com o desempenho do paciente em realizar as tarefas de forma independente, com alguma ajuda ou de forma dependente. Uma pontuação geral foi atribuída de acordo com os pontos obtidos em cada categoria, a depender do tempo e da assistência necessária a cada paciente. A pontuação varia de 0 a 100, em intervalos de cinco pontos, e as pontuações mais elevadas indicam maior independência.29,27

Avaliação da Qualidade de Vida

Para avaliação da Qualidade de Vida (QV) foi utilizado o Questionário Perfil de Saúde de Nottingham (PSN),30 composto por 38 itens baseados na CIF,31 tendo como possibilidade de "sim" ou "não". Os itens são divididos em 6 domínios: Habilidade Física, Nível Energético, Dor, Reação Emocional, Qualidade de Sono e Interação Social. Cada resposta positiva corresponde ao escore de um (1) e cada resposta negativa corresponde ao escore zero (0), perfazendo uma pontuação máxima de 38 pontos. Quanto menor o escore, melhor a QV do indivíduo.30

Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)

Considerando as avaliações acima descritas, procurou-se analisar como os resultados desses métodos poderiam ser expressos pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF),32 cujo objetivo geral é proporcionar uma linguagem unificada e padronizada, definir os componentes da saúde e alguns componentes do bem-estar relacionados com a saúde, para que a informação em saúde seja precisa e adequada. A CIF é um instrumento de classificação e padronização de dados obtidos nas avaliações realizadas com os participantes. Como critério para seleção dos domínios da CIF foi considerado o componente de funcionalidade e incapacidade relacionado à saúde, ou seja: (1) Funções e Estruturas do Corpo, e (2) Atividades e Participação.32

No primeiro item (Funções e Estruturas do Corpo) foram consideradas as funções mentais, sensoriais e dor, digestivo, metabólico e endócrino, psicomotoras e relacionados ao movimento. Já para o segundo item (Atividades e Participação) foram considerados o cuidado pessoal, apoio e relacionamentos, bem como atividades individuais. Os resultados da pesquisa foram avaliados e qualificados de acordo com o modelo contextual de análise da condição de saúde por meio da Classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde (CIF). Deste modo, para classificação os componentes da CIF foram quantificados por meio de percentagem de acordo com a deficiência evidenciada (ND: Nenhuma Deficiência; DL: Deficiência Leve; DM: Deficiência Moderada; DG: Deficiência Grave; DC: Deficiência Completa; NE: Não Especificado; NA: Não Aplicável) em cada função ou atividade. As interações entre a CIF e os instrumentos aplicados estão dispostas (Figura 1).


Figura 1. Interações entre a CIF e os instrumentos utilizados na pesquisa



Procedimentos de Análise dos dados

A descrição estatística dos dados foi feita por meio de medidas de tendência central (média) e dispersão (desvio-padrão). Distribuições de freqüência foram realizadas para análise de prevalências das variáveis: análise cognitiva, capacidade funcional e sociodemográficas. Para a descrição dos resultados obtidos por meio da CIF em relação as funções e atividades foi utilizada a distribuição de frequência absoluta e relativa. Para o tratamento estatístico foi utilizado o SPSS 21.0.

Aspectos Éticos

O Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná aprovou o presente estudo (parecer CAAE 0075.091-11). Todas as idosas que participaram do estudo assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.


RESULTADOS

Foram avaliadas 22 idosas, com idade média de 77,9 ± 9,41 anos, sendo a idade mínima 64 anos e a máxima 93 anos, a maioria das idosas eram solteiras (54,54%), analfabetas (36,36%), sem histórico de tabagismo (72,73%) ou alcoolismo (90,91%), porém, todas (100%) apresentaram hipertensão e não praticavam atividade física (Tabela 1).




Para análise dos dados relacionados ao MEEM as idosas foram divididas em grupos de acordo com a escolaridade, do seguinte modo: Grupo 1: Analfabetas (36,36%); e Grupo 2: idosas com 1 a 11 anos de escolaridade (63,64%). Dessa forma, pode-se observar a média do MEEM, em todas as idosas avaliadas (20,5 ± 3) e de acordo com a sua escolaridade, em que o grupo 1 evidenciou uma média de 19,5 ± 1,6 e o grupo 2 uma média de 21,07 ± 3,52.

As idosas foram classificadas de acordo com o Índice de Barthel (Tabela 2), sendo divididas em dependência total (< 20), dependência grave (20-35), dependência moderada (40-55), dependência leve (< 60) e independência (100). A maioria das idosas, 40,90%, foi classificada com dependência leve.




A avaliação dos dados referentes ao Questionário Perfil de Saúde de Nottingham (PSN), evidenciada na Tabela 3, ordena os itens de acordo com o domínio que mais atrapalha a QV das idosas para o que menos atrapalha, respectivamente, habilidade física, nível energético, qualidade de sono, dor, reação emocional, interação social. Sendo que quanto maior a porcentagem, pior o respectivo domínio, ou seja, é o domínio que mais prejudica na QV como um todo, nesse caso, a habilidade física.




Os valores da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) e suas distribuições de frequência estão apresentados na Tabela 4.




A classificação das funções mentais referente à consciência, funções intelectuais e de percepção. Também são apresentados os domínios: orientações; funções de energia e de impulsos; sono; atenção; memória; funções emocionais. Nas funções sensoriais e de dor, observou-se domínios da visão, vestibular e dor e audição.

Na classificação das Funções dos Sistemas Digestivos, Metabólicos e Endócrinos, obteve-se dados sobre digestão e defecação. Além de Manutenção do peso e Glândulas endócrinas.

Nas Funções Psicomotoras e qualidade das funções psicomotoras, observou-se: Funções de Movimentos, tronco, região do ombro e da extremidade superior, pelve e extremidade inferior. Com relação ao Cuidado Pessoal se considerou: comer e beber, uso fino das mãos, lavar-se, cuidado das partes do corpo e vestir-se, deslocar-se utilizando algum tipo de equipamento, cuidar da própria saúde.

Para as funções de Apoio e Relacionamento, observou-se: pessoas em posição de autoridade, família, amigos, conhecidos, cuidadores e assistentes pessoais, profissionais da saúde e outros profissionais que fornecem serviços relacionados à saúde.

Com relação às funções de atitudes individuais nos domínios profissionais da saúde e outros profissionais que fornecem serviços relacionados à saúde, considerou-se cuidadores e assistentes pessoais, individuais dos amigos, membro da família.


DISCUSSÃO

A capacidade funcional e a qualidade de vida são atributos básicos do ser humano que perpassam todas as fases de sua vida e à medida que se envelhece, ocorrem alterações estruturais e funcionais no organismo, as quais, somadas a baixos níveis de atividade física, podem levar ao declínio da capacidade funcional, comprometendo a realização de atividades da vida diária33 e facilitar o desenvolvimento de doenças crônicas, o que contribui para deteriorar o processo de envelhecimento. Da mesma maneira, as doenças crônicas levam ao desuso das funções fisiológicas, o que pode criar mais problemas.34

No presente estudo, verificou-se que a maioria das idosas residentes na ILP em questão, eram solteiras, analfabetas, sendo que todas apresentavam hipertensão e não praticavam atividade física. Esses resultados são corroborados por outros estudos,35,36,37 e evidenciam a necessidade de programas de intervenção para estimular a diminuição do sedentarismo em idosos institucionalizados. Quanto aos valores encontrados no MEEM foi evidenciado, que idosas com maior nível de escolaridade apresentaram melhores médias (21,07 ± 3,52), o que também foi encontrado em pesquisas semelhantes.38,39 Esse resultado demonstra que não é só a falta de independência motora que determina a institucionalização do idoso, mas os aspectos cognitivos também são levados em consideração pelos familiares e/ou responsáveis.37

Davim et al.35 verificaram em seu estudo que as ILP apresentam baixas condições financeiras, contato familiar conflituoso, atividades de lazer limitadas ou ausentes, entre outros fatores, essas características são semelhantes ao presente estudo, o que influencia na capacidade funcional e qualidade de vida das idosas institucionalizadas.

Quanto à CF, os resultados do presente estudo indicaram um maior percentual de idosas com uma dependência leve, indicando que estas idosas vivem de maneira independente, implicando uma boa capacidade para realizar suas atividades de vida diária. Confirmando essas informações, o estudo de Converso e Iartelli37 realizado com idosos institucionalizados, apontaram a maioria dos avaliados como independentes (75,65%).

Apesar da maior parte das idosas desse estudo apresentar dependência leve, ao avaliar a QV, evidenciou-se que o domínio que mais atrapalha é a habilidade física. Nesse aspecto vale destacar que todas as idosas do estudo não participavam de nenhuma atividade física, o que pode estar relacionado ao baixo domínio físico citado pelas entrevistadas. Pois, como destacam Paskulin, Vianna e Molzahn,40 com a participação do idoso em atividades físicas, maior será sua satisfação e capacidade para a realização das atividades diárias, o que pode contribuir para aumentar a percepção de uma boa QV, principalmente relacionado ao domínio físico, o que também pode influenciar sua CF. Diante destas evidências, percebe-se que a prática de atividade física tem papel fundamental para a promoção da QV dos idosos, e que a realização de atividades físicas habitualmente pode contribuir para melhoria da percepção de saúde, bem-estar e funcionalidade desta população.40,41,42

Analisando os achados da CIF, observa-se que assim como o estudo em questão, o estudo de Depolito, Leocadio e Cordeiro18 utilizou a aplicação da CIF para discutir a provável relação entre os eventos de declínio funcional de uma idosa institucionalizada. Esse método mostrou-se sensível para a compreensão dos saberes quanto à capacidade funcional e qualidade de vida em idosas institucionalizadas, como norteadora da relação multidimensional da velhice e institucionalização. Além disso, permite a unificação da linguagem e facilita a interpretação de relações de determinação mais complexas, por meio de uma visão detalhada, crítica, objetiva e contextual, de fácil compreensão por todos os membros de uma equipe multiprofissional de assistência à saúde do idoso. Sampaio et al.43 e Costa44 apresentam a CIF como um modelo da Organização Mundial de Saúde (OMS) que traz uma nova abordagem que prioriza a funcionalidade como um componente da saúde e considera o ambiente como facilitador ou como barreira para o desempenho de ações e tarefas, então, no caso das participantes deste estudo que são institucionalizadas, os dados demonstram que há uma interação entre o ambiente e a função motora as mesmas.

Freire e Tavares15 apontam que o idoso institucionalizado constitui, quase sempre, um grupo privado de seus projetos, pois se encontra afastado da família, da casa, dos amigos, das relações nas quais sua história de vida foi construída. Dessa forma, as ILP's ainda constituem um desafio, principalmente se contrastadas com a proposta da promoção da saúde.

Neste contexto, a qualidade de vida e atividade física são estratégias de promoção da saúde para os idosos, tornando-se evidente a necessidade de orientar os idosos institucionalizados a praticar atividades funcionais na busca de qualidade e motivação nas suas vidas.45,46 Enfim, a condição de saúde de idosos institucionalizados seja na função, na estrutura, nas atividades ou na participação, está diretamente relacionada a fatores pessoais e ambientais, direcionados com as políticas de saúde e o modelo contextual da CIF na saúde do idoso,47 além de ter uma interação com o que cada um faz para ter saúde funcional com qualidade e no sentido ampliado de saúde física, mental, funcional, espiritual, social.

Esta iniciativa vem ao encontro do relato de Pereira et al.48 que destaca que avaliar as condições de vida e saúde do idoso permite a implementação de propostas de intervenção, tanto em programas geriátricos quanto em políticas sociais gerais, no intuito de promover o bem-estar dos que envelhecem.

Esse trabalho apresentou algumas limitações, pois foi realizada uma única avaliação das idosas participantes, e a equipe de pesquisadores foi constituída por profissionais fisioterapeutas e não incluiu profissionais da saúde de outras áreas na produção de códigos envolvendo diversos construtos. Porém, o estudo alcançou seu objetivo de mapear o perfil das idosas de uma ILP, classificando por meio da CIF, com um olhar para a funcionalidade das participantes. E avaliando o estado cognitivo, capacidade funcional e qualidade de vida com instrumentos específicos e direcionados para essa população.


CONCLUSÃO

A interpretação e discussão dos resultados por meio do modelo teórico da CIF possibilitaram uma visão mais ampliada sobre o processo de saúde e de envelhecimento de uma população de idosas institucionalizadas. Estes dados poderão ser utilizados como indicadores ou norteadores para o desenvolvimento de estratégias e propostas de intervenções que venham a favorecer a demanda clínica e pessoal destas pessoas. Apesar da necessidade de uma visão holística sobre processo de envelhecimento, as ILP's ainda se constituem de acordo com o contexto biomédico. Deixando de lado a proposta de promoção da saúde e os aspectos positivos do processo de institucionalização, bem como as potencialidades dos idosos.

Sugerem-se estudos futuros, com o desenvolvimento da metodologia de acompanhamento longitudinal dessa população para verificar quais as interferências da institucionalização em longo prazo na funcionalidade dessas idosas. Espera-se que a CIF seja incorporada e utilizada em diversos setores da saúde, inclusive em ILP e utilizada por equipes multidisciplinares, para que os profissionais, por meio de uma linguagem unificada e padronizada, tenham ações de saúde que contemplem o indivíduo como um todo.


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