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Número atual: Setembro 2013 - Volume 20  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Reequilíbrio tóraco-abdominal em recém-nascidos prematuros: efeitos em parâmetros cardiorrespiratórios, no comportamento, na dor e no desconforto respiratório

Rebalancing thoracoabdominal movements in preterms infants: effects on cardiorespiratory parameters, in behavior, in pain and in the respiratory effort


Kethlen Roberta Roussenq1; Janaina Cristina Scalco2; George Jung da Rosa3; Gesilane Júlia da Silva Honório4; Camila Isabel Santos Schivinski5

DOI: 10.5935/0104-7795.20130019

1. Graduanda em fisioterapia pela Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC)
2. Graduada em fisioterapia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
3. Mestrando, Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC)
4. Professora, Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC)
5. Professora Doutora, Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC)


Endereço para correspondência:
Camila Isabel Santos Schivinski
Rua Bento Águido Vieira, 55, apto 304
CEP 880036-410 Florianópolis - SC
E-mail: cacaiss@yahoo.com.br

Recebido em 05 de Setembro de 2012.
Aceito em 11 de Julho de 2013.


Resumo

OBJETIVO: Avaliar o efeito de manuseios do método fisioterapêutico de Reequilíbrio Tóraco-Abdominal (RTA) em parâmetros cardiorrespiratórios, em sinais clínicos de esforço respiratório, no comportamento e na dor de recém-nascidos (RN) prematuros com baixo peso internados em unidade de terapia intensiva.
MÉTODO: Ensaio clínico controlado, randomizado com avaliador cego. Os RN foram caracterizados segundo: sexo, idade gestacional (IG), idade gestacional corrigida (IgC), peso, altura, índice de massa corpórea (IMC), tipo de parto, ventilação mecânica (VM), oxigenoterapia (O2) e Apgar. Através de sorteio foram divididos em dois grupos: G1 - grupo controle e G2 - grupo que recebeu RTA. Os RN foram avaliados antes e imediatamente após um dos procedimentos. Foram verificados os parâmetros cardiorrespiratórios de frequência respiratória (FR), frequência cardíaca (FC) e saturação periférica de oxigênio (SpO2), analisado o desconforto respiratório através do Boletim de silvermann-anderson (BSA), a dor através da Neonatal Infant Pain Scale (NIPS) e o comportamento pela escala de Prechtl e Beinteman (EPB). O G1 permaneceu em repouso por 20 minutos e o G2 foi submetido a 20 minutos de intervenção, composta por 4 manuseios da técnica (apoio íleo-costal, apoio tóraco-abdominal, apoio abdominal inferior e apoio toraco-abdominal e abdominal inferior simultaneamente), cada um com 5 minutos de duração. Foram aplicados os testes qui-quadrado, teste de Wilcoxon e de Mann Whitney, para comparação intra e intergrupos, respectivamente. Adotou-se um nível de significância de 5% (p = 0,05).
RESULTADOS: Houve diminuição significativa da FR (54,08 ± 8,34rpm x 49,77 ± 2,82 rpm, p = 0,0277) e do BSA (0,62 ± 0,96 x 0,00 ± 0,60; p = 0,0431) nos RN submetidos ao RTA. Também verificou-se menor pontuação na escala EPB do G2 em comparação ao G1 (1,00 ± 0,00 x 1,54 ± 1,13, com p = 0,0492). As outras variáveis não diferiram entre os grupos.
CONCLUSÃO: Os RN prematuros de baixo peso submetidos aos manuseios do método RTA apresentaram redução da FR e do desconforto respiratório. Não houve prejuízo alteração no comportamento dos neonatos com a aplicação da técnica.

Palavras-chave: Recém-Nascido, Transtornos Respiratórios/reabilitação, Modalidades de Fisioterapia, Terapia Intensiva Neonatal




INTRODUÇÃO

Ao nascimento o desenvolvimento do pulmão humano não se encontra totalmente estabelecido, sendo esta imaturidade pulmonar é mais acentuada nos RNPT (recém-nascidos pré-termo). Decorrente disso, encontramos diversos fatores que prejudicam a mecânica respiratória e sua eficiência nos neonatos.1

Estes apresentam costelas horizontalizadas que dificultam o aumento dos diâmetros da caixa torácica durante a inspiração e diminuem a área de aposição do diafragma. Outra característica é a pequena quantidade de fibras oxidativas no diafragma, principalmente os nascidos pré-termo (10%), o que confere a estas menor resistência à fadiga muscular respiratória.1,2 O bom funcionamento do diafragma depende também da atuação dos músculos abdominais, um desequilíbrio de forças entre os músculos inspiratórios e expiratórios (torácicos e abdominais) promove encurtamento e fraqueza desses músculos.3 Assim, a ineficiência da musculatura abdominal e intercostal nos RNPT impõe ainda mais instabilidade à caixa torácica, levando a maior sobrecarga da musculatura diafragmática.2

A ventilação colateral pouco desenvolvida, a imaturidade ciliar e o diâmetro reduzido das vias aéreas que leva a alta resistência ao fluxo aéreo são fatores adicionais que interferem na função respiratória dos RN (recém-nascidos) principalmente pré-termos.1

Nas unidades de terapia neonatais o tratamento fisioterapêutico visa melhorar as condições pulmonares, diminuindo a resistência das vias aéreas e aumentando a complacência pulmonar, a fim de reduzir o trabalho respiratório imposto aos RN.4

Algumas técnicas de fisioterapia respiratória como: drenagem postural, expansão torácica, percussão, vibração, compressão e tosse assistida usam o tórax do paciente como uma interface que transmite intervenções mecânicas do terapeuta para os pulmões. A extensão desta transmissão parece diferir substancialmente entre recém-nascidos e lactentes. A experiência clínica sugere que estas intervenções no tórax mais complacente do recémnascido prevê uma elevada eficácia. Porém, a desvantagem desta população é que o tórax pequeno, também pode ser danificado com mais facilidade. Assim, compressões excessivas da parede torácica com aplicação de altas pressões transtorácicas devem ser evitadas, pois, além de desconforto podem causar interrupção do fluxo de ar. Portanto, o terapeuta enfrenta o desafio de utilizar intervenções que melhoram o fluxo de ar suficiente para o deslocamento de secreções, mas, ao mesmo tempo, evitar o fechamento completo das vias aéreas.5

O RTA é uma técnica que tem por objetivo incentivar a ventilação pulmonar e promover a remoção de secreções pulmonares e de vias aéreas superiores, através da reorganização do sinergismo muscular respiratório, que se perde nas doenças pulmonares. É baseado em posicionamentos, mobilizações das articulações costovertebrais e costocondrais, alongamentos musculares, apoios manuais para aumentar a pressão intra-abdominal e manobras miofasciais, conduzidos para minimizar o uso da musculatura acessória da inspiração e da expiração, reeducando o trabalho respiratório que se encontra sobrecarregado nas patologias neonatais.6

Para análise de seus efeitos, variáveis como: frequência cardíaca (FC), frequência respiratória (FR), saturação periférica de oxigênio (SpO2), desconforto respiratório, dor e comportamento são de grande relevância.


OBJETIVO

Avaliar o efeito de manuseios do método fisioterapêutico de Reequilíbrio Tóraco-Abdominal em parâmetros cardiorrespiratórios, em sinais clínicos de esforço respiratório, no comportamento e na dor de RN prematuros com baixo peso.


MÉTODO

Trata-se de um estudo experimental (ensaio clínico controlado e randomizado com avaliador cego), realizado na unidade neonatal da Maternidade do Hospital Carmela Dutra (HCD), na cidade de Florianópolis/Santa Catarina.

Fizeram parte do estudo RN prematuros internados na unidade mencionada, com prescrição médica para receberem fisioterapia respiratória e que respeitassem os seguintes critérios de inclusão: peso ao nascer até 2.500 gramas e idade gestacional de até 37 semanas, critérios estes estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para classificação de RN pré-termo. Foram excluídos os RN que não se encaixassem nesses critérios. Os pais e/ou responsáveis assinaram o termo de consentimento.

Primeiramente foi realizada análise do prontuário para verificação de possibilidade de inclusão do RN no estudo e discriminação quanto às características clínicas para grupamento de acordo com diagnóstico, a saber: 1) RN pré-termo (RNPT) muito baixo peso (MBP), podendo ser pequena para idade gestacional (PIG) ou adequada para idade gestacional (AIG), apresentando ou não síndrome do desconforto Respiratório (SDR); 2) RNPT baixo peso (BP), podendo ser PIG ou AIG, com ou sem SDR.

Os RN foram então randomizados em dois grupos: controle (G1) e intervenção (G2). O procedimento de randomização dos pacientes aconteceu através de amostragem aleatória simples, na qual todos os RN tiveram a mesma possibilidade de pertencerem a um dos dois grupos. Para isso, foi realizado um sorteio simples, no qual um dos pais ou responsável selecionaram um cartão, entre 2 cartões, contendo o nome de um dos dois grupos (G1 e G2).

Na sequência, os RN foram posicionados em decúbito dorsal e imediatamente após submetidos à coleta dos parâmetros iniciais, realizada por um avaliador cego em relação aos procedimentos que seriam realizados na intervenção, incluindo: verificação dos sinais de desconforto respiratório iniciais através da aplicação do Boletim de Silvemann-Aderson (BSA).7 Este boletim considera a presença de cinco aspectos do desconforto respiratório: gemido expiratório, batimento de asa de nariz, retração intercostal, retração esternal e respiração paradoxal. A pontuação varia de 0 (ausência de desconforto respiratório), 1 a 5 (desconforto moderado) e 6 a 10 (desconforto grave).

Quantificação da presença de dor pela escala de dor para RN da Neonatal Infant Pain Scale (NIPS).8 Essa escala avalia a dor do RN através da verificação de: expressão facial, choro, movimentação dos membros, estado de vigília e padrão respiratório; podendo ser utilizada em todos os RN, independente da idade gestacional. Esses parâmetros são classificados de acordo com as seguintes pontuações: expressão facial (0 ou 1 ponto), choro (0, 1 ou 2 pontos), respiração (0 ou 1 ponto), posição das pernas (0 ou 1 ponto), posição dos braços (0 ou 1 ponto), estado de sono/vigília (0 ou 1 ponto). A presença de dor é considerada quando a pontuação é superior a três.

Análise do comportamento do RN pela escala de Prechtl e Beinteman (EPB).9 Essa escala avalia 5 estados comportamentais: sono quieto, sono ativo, despertar quieto, despertar ativo e choro. É qualificado como em estado 1 o RN que apresenta o sono quieto, ou seja, olhos fechados, respiração regular, sem movimentos corpóreos. Estado 2, é o sono ativo, e observa-se olhos fechados, respiração irregular, podendo ocorrer movimentos corporais. No estado 3 (despertar quieto) observa-se o RN com os olhos abertos, respiração regular, sem movimentos. Já no estado 4, despertar ativo, os olhos estão abertos, respiração irregular e movimentos corpóreos presentes. No estado 5 (choro) a criança apresenta-se chorando.

A coleta dos parâmetros cardiorrespiratório de freqüências respiratória e cardíaca (FC e FR) e saturação periférica de oxigênio (SpO2). Considerou-se a FR, que foi contada durante um minuto observando-se os movimentos abdominais e torácicos durante cada ciclo respiratório. A FC foi mensurada através do oxímetro modelo Dixtal DX 2405/OXYPLETH Super bright, assim como a SpO2.

As crianças que fizeram parte do G2 foram submetidas à aplicação do método de RTA por 20 minutos (G2), sempre 2 horas após a última refeição do RN, devido ao risco de regurgitação do alimento. A pesquisadora aplicou 4 manuseios da técnica de RTA, em uma sessão de 20 minutos. Cada manuseio foi aplicado durante 5 minutos, com a criança em decúbito dorsal. Na seguinte ordem:

1. Apoio íleo-costal: a pesquisadora aplicou uma leve pressão no espaço íleo-costal, durante a inspiração, no sentido da lateral do abdômen para a região umbilical;

2. Apoio tóraco-abdominal: a pesquisadora colocou uma das mãos sobre a região inferior do tórax e superior do abdome e parte dos seus dedos alcançando as costelas do RN. Na expiração, as costelas foram tracionadas suavemente para baixo e mantidas nessa posição durante a inspiração. A manobra foi realizada no sentido antero-posterior;

3. Apoio abdominal inferior: a pesquisadora aplicou pressão na região inferior do abdomen, durante a inspiração. A pressão foi aplicada no sentido antero-posterior e suficiente para ser vencida pelo diafragma do neonato, não aumentando o uso dos músculos acessórios da inspiração;

4. Apoio tóraco-abdominal associado ao apoio abdominal inferior: aplicação concomitante dos manuseios 2 e 3 descritos acima.


No G1, grupo controle, os RN permaneceram em repouso durante 20 minutos e não receberam o RTA. Foram atendidos posteriormente por profissionais da equipe de fisioterapia da MCD, de acordo com a rotina assistencial do serviço. Imediatamente após a realização de um dos procedimentos (aplicação do RTA no G2 ou da permanência do RN em repouso no G1), o RN foi reavaliado quanto aos parâmetros iniciais. Sendo o a mesma realizada pelo mesmo avaliador, cego quanto aos procedimentos realizados na intervenção.

Os dados da avaliação foram registrados em uma ficha padronizada e transferidos para uma planilha do Excel (Windows XP). Após a realização dos procedimentos de categorização das variáveis, as informações foram registradas em um banco de dados para a efetivação das análises estatísticas, utilizando o software SPSS for Windows versão 13.0.

A análise dos dados foi feita através de estatística descritiva simples, do teste não-paramétrico qui-quadrado e, como os dados não apresentaram distribuição normal (Shapiro-Wilks), foram aplicados os testes de Wilcoxon e teste de Mann Whitney, para comparação intra e intergrupos, respectivamente. Para todos os testes adotou-se um nível de significância de 5% (p = 0,05).

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Maternidade Carmela Dutra Nº 0031.0.233.00010 (03/12/2010) e pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC Nº 94/2010. Durante o desenvolvimento deste estudo foram cumpridos todos os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinki (2000), além do atendimento a legislações específicas para o desenvolvimento de pesquisas com seres humanos no Brasil.


RESULTADOS

Participaram do estudo 24 RN, sendo 11 RN no G1 e 13 RN no G2. As características dos RN quanto a sexo, tipo de parto, diagnóstico, uso de ventilação mecânica (VM) e de oxigenoterapia (O2) são apresentadas na Tabela 1.




A média de idade gestacional (IG) foi de 31,90 ± 2,60 semanas, sendo que o G1 apresentou média de 32,31 ± 3,25s e o G2 de 31,55 ± 1,97semanas. O G1 teve a maior média de peso (1662,73 ± 626,37g, e G2 1625,00 ± 219,31) e de estatura (39,95 ± 4,64 cm). Os dados do IMC, bem como do PC, total e de cada um dos grupos, são apresentados na Tabela 2.




Na Tabela 3 são apresentados os dados cardiorrespiratório e das 3 escalas de avaliação, antes e imediatamente após a realização de um dos procedimentos (G1 = repouso e G2 = RTA). No G2, houve diminuição significativa da FR (54,08 ± 8,34rpm x 49,77 ± 2,82 rpm, p = 0,0277) e da escala BSA (0,62 ± 0,96 x 0,00 ± 0,60; p = 0,0431).




Na comparação entre os grupos 1 e 2, verificou-se apenas diferença entre a EPB após os procedimentos, sendo que no G2 essa escala apresentou valor significativamente inferior ao G1 (1,00 ± 0,00 x 1,54 ± 1,13, com p = 0,0492).


DISCUSSÃO

Aumento ou retenção de secreção pulmonar são as principais indicações de fisioterapia respiratória pediátrica e neonatal.10 Isso evidencia que, em muitos casos, a atuação da fisioterapia se restringe à retirada de secreções pulmonares. No entanto, outras manifestações clínicas são muito comuns aos RN, como taquipnéia, distorções torácicas, fraqueza dos músculos abdominais e uso excessivo da musculatura acessória.2 Considerando esse perfil muito freqüente no neonato, o método RTA é direcionado a minimizar o esforço respiratório através de manuseios para melhora da área de justaposição entre o diafragma e costelas, facilitação do sinergismo entre tórax e abdômen, aumento do tônus e da força dos músculos respiratórios, merecendo trabalhos que investiguem sua repercussão.11,12

Nesse sentido, a corrente pesquisa demonstrou resultados positivos com a aplicação do método em RN prematuros de baixo peso internados em UTI neonatal. Foi encontrada uma diminuição significativa da FR e do índice BSA nos RN submetidos ao RTA, indicando melhora no desconforto respiratório desses pacientes. Porém, esse mesmo resultado não foi verificado em alguns estudos que aplicaram outras técnicas de fisioterapia nos RN.

Diferentes do achado no presente estudo, dois trabalhos de 2010, não encontraram alteração significativa nos parâmetros cardiorrespiratórios avaliados.13,14 Um deles avaliou a influência da fisioterapia respiratória sobre a função cardiopulmonar de RN de baixo peso, utilizando posicionamento em decúbito lateral direito e esquerdo, associado à vibração manual, apoio diafragmático e das últimas costelas, seguido de aspiração com 10% de O2, via endotraqueal. Foram avaliados os parâmetros cardiorrespiratórios (FC, FR, SPO2 e pressão arterial (PA) antes, imediatamente após o atendimento e depois de um intervalo de 5 minutos.13 O outro estudo realizou a aplicação da técnica de vibração torácica em RN moderadamente prematuros, sem suporte ventilatório, não encontrando diferenças significativas antes e após aplicação da mesma.14

A diferença significativa em parâmetros cardiorrespiratórios constatados na corrente pesquisa também foi identificada em outras 2 investigações. Uma delas, ao analisar os efeitos da prática de fisioterapia neonatal sobre os mesmos parâmetros fisiológicos, e mais temperatura axilar, de RN pré-termo submetidos à ventilação mecânica, observou diminuição significativa da FC e da FR após o atendimento fisioterapêutico, além de aumento da SpO2. No entanto, este estudo não especifica as técnicas fisioterapêuticas que foram aplicadas, apenas menciona que o procedimento incluiu: fisioterapias motora e respiratória, e aspiração da cânula orotraqueal.15 A outra pesquisa comparou técnicas de fisioterapia em lactentes hospitalizados por bronquiolite, randomizados em três grupos: 1) vibrocompressão + drenagem postural; 2) tapotagem + drenagem postural e 3) aspiração traqueal. Foram analisados os parâmetros de FC, FR, SpO2 e o BSA. Como resultado houve redução significante no BSA e na FC, nos 15 minutos após a intervenção, nos 3 grupos estudados, evidenciando benefícios com as técnicas aplicadas. Porém, diferente do corrente estudo, a amostra desta pesquisa não era constituída de RN prematuros.16

Porém, diferente dos estudos com aplicação do RTA esses resultados divergem quanto a aplicabilidade de diferentes técnicas como em 2006, quando um estudo teve objetivo de comparar os efeitos de técnicas de fisioterapia respiratória convencionais (FRC) com a técnica de aumento do fluxo expiratório (AFE) na FC, FR e SpO2, aplicadas em prematuros no período pós-extubação. No grupo de FRC, os RN receberam a drenagem postural e a tapotagem, posicionados em decúbito lateral direito e esquerdo, durante 10minutos. Em seguida, foram submetidos à vibrocompressão por mais cinco minutos, seguida aspiração de boca e narinas para a eliminação de secreções. O grupo submetido a AFE lenta permaneceu em supino para aplicação da técnica por 15 minutos. Ao final do atendimento os RN foram aspirados. Em ambos os grupos houve aumento significativo da SpO2, analisada após 10 e 30 minuto do término da sessão. O grupo submetido à FRC apresentou aumento da FC após a intervenção.17

Resultado controverso foi verificado em uma pesquisa que analisou as técnicas de drenagem postural, vibratoterapia mecânica e manual na caixa torácica; percussão torácica; estimulação diafragmática; padrão ventilatório passivo, passivo-assistido, ativo-assistido e terapia expiratória manual passiva (Temp) sobre a FC em RNPT com doença da membrana hialina, submetidos à reposição de surfactante exógeno. A FC reduziu após a fisioterapia8. Diante do exposto, fica evidente que os estudos envolvendo tanto técnicas convencionais quanto técnicas a fluxo, como o AFE, tem apresentado resultados controversos no manejo de prematuros, sendo necessárias novas investigações.

Já no presente estudo, com a aplicação do RTA, além da diminuição da FR e do BSA, as crianças submetidas à técnica apresentaram comportamento tranquilo, reportado pelo EPB, não caracterizando estresse nem agitação com a aplicação da mesma.Importante destacar que ambos os grupos apresentaram comportamento semelhante no início da coleta, sendo que G1 teve pontuação que variou de 1,55 para 1,4 e o G2 teve queda da pontuação de 1,54 para 1. Apesar destes dados não diferirem clinicamente no comportamento dos RNs, fica evidente a diminuição dos pontos da escala, refletindo que a intervenção com RTA não induziu os bebes a piora. O RTA, quando comparado a outras técnicas fisioterapêuticas, não tem demonstrado efeitos deletérios.18-20 pelo contrário. Estudos têm relacionado o RTA à melhora de parâmetros cardiorrespiratórios e da ventilação pulmonar, em comparação a outras técnicas.18-20

Outro ponto da corrente pesquisa relaciona-se ao fato do RTA não se apresentar como um procedimento doloroso, pois não houve alteração importante da NIPS após a intervenção. Esse achado corrobora com dados de 2005, no qual tanto a escala NIPS quanto o Perfil de Dor nos RN (PIPP), não sofreu alteração durante e após o método RTA.18 Em 2012, ao avaliar a intensidade da dor e de parâmetros cardiorrespiratórios de RN cardiopatas submetidos ao RTA, também não foi observado aumento da escala de dor.12

Estes resultados indicam que não parece haver relação entre o método RTA e dor em RN submetidos a técnica,12 indo de encontro à evidência aqui relatada. Já a técnica de aspiração, analisada em 2008, apresentou aumento na escala NIPS de dor dos neonatos durante sua execução, além de queda acentuada e consistente na SpO2.19

Como exposto, efeitos nocivos nos parâmetros cardiorrespiratórios também não foram identificados nos RN submetidos ao RTA do presente estudo. Houve melhora no desconforto respiratório e na FR do grupo que recebeu a técnica. O mesmo resultado positivo também foi observado em estudo de 2008, onde se constatou aumento significativo da SpO2 após a aplicação do RTA e do posicionamento em prono, em RN com complicações respiratórias internados em UTIN.20 Nesse sentido, importante destacar uma limitação do corrente trabalho, o qual não incorporou ao método uma comparação entre o grupo que recebeu o RTA e outro grupo submetido a uma intervenção placebo, envolvendo apenas o contato manual. Esse tipo de pesquisa merece ser conduzida para fundamentar melhor a repercussão desse método fisioterapêutico.

De qualquer forma, as evidencias aqui discutidas, além de retratarem alguns benefícios oriundos da técnica, também apontam para a segurança na sua aplicação. Não houve prejuízo aos parâmetros cardiorrespiratório, nem no comportamento e na dor dos RN tratados pelo método. Esse fato tem grande relevância nesse grupo de pacientes, uma vez que os mesmos são constantemente submetidos a diversos procedimentos estressantes e dolorosos nas UTIN.

O método RTA é uma técnica que se propõe realizar a readequação do sinergismo muscular respiratório, que se encontra prejudicado nos RN prematuros, devido as suas desvantagens mecânicas. Sua aplicação tem como objetivo diminuir o trabalho dos músculos respiratórios, reduzindo o esforço e o desconforto.2,11 Essa intenção foi representada de forma afirmativa nesse estudo, através da diminuição significativa da FR e do BSA. Além disso, a manutenção do comportamento e ausência de dor, verificadas através da EPB e da NIPS, parecem ser outros atributos do método.

Ainda é importante ressaltar que o RTA tem como característica manuseios com pouca demanda energética e metabólica e, em prematuros com baixo peso, essa economia de energia é essencial. Pois, assim como a amostra vigente, essa população necessita direcionar a energia para atividades vitais, como a oxigenação cerebral e corporal.


CONCLUSÃO

Os RN prematuros de baixo peso submetidos aos manuseios do método RTA apresentaram redução da frequência respiratória e do desconforto respiratório. Não houve prejuízo no comportamento dos neonatos com a aplicação da técnica. O aumento do tamanho amostral poderá sensibilizar os resultados quanto aos efeitos dessa técnica.


AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Mario Andrade pelas discussões na versão inicial do projeto.


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