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Número atual: Agosto 1995 - Volume 2  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Estudo da interferência dos déficits motor e sensitivo na função manual de pacientes hemiplégicos submetidos à estimulação elétrica funcional (FES)*


Margarida Harumi Miyazaki1; Maria Inês Lourenção2; José Brenha Ribeiro Sobrinho3; Claudete Lourenço4; Linamara Rizzo Battistella5

1. Médico Supervisor de Equipe - Divisão de Medicina de Reabilitação -HCFMUSR.
2.Terapeuta Ocupacional Chefe do Serviço de Terapia Ocupacional - Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP.
3. Médica Fisiatra - Diretora do Serviço Médico - Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP.
4. Médica Fisiatra, Diretora do Serviço Médico da Divisão de Medicina de Reabilitação - HUFMUSP, e Vice-Presidente da Soe. Bras. de Med. Física e Reabilitação.
5. Professora Doutora, Diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação -HCFMUSP.


Resumo

O presente estudo procura identificar os aspectos fisiopatológicos que condicionam um mau prognóstico na aplicação da Estimulação Elétrica Funcional1 (FES), sendo pareados os bons e maus resultados com os déficits motor e sensitivo. Foram avaliados 17 pacientes hemiplégicos, com praxia e gnosia preservados, submetidos às técnicas convencionais da Terapia Ocupacional e Estimulação Elétrica Funcional. Os eletrodos foram ajustados, de modo a obter dorsiflexão de punho e dedos e abdução de polegar, quando possível. Foram realizadas avaliações das sensibilidades superficial (táctil e dolorosa) e profunda (reconhecimento de diferentes posições do membro acometido), das preensões tipo cilindro, esfera, gancho e pinças lateral, polpa a polpa e 03 pontos, antes e logo após 06 meses de FES. Resultados mostraram que 13 pacientes obtiveram melhora da movimentação ativa manual. Os pacientes que melhoraram tinham sensibilidade superficial e profunda normal ou alterada, mas apresentavam algum tipo de movimentação manual espontânea. Os pacientes, que não melhoraram, tinham alterações das sensibilidades superficial e/ou profunda, mas não tinham qualquer movimentação manual ativa. Conclui-se que a associação da Estimulação Elétrica Funcional às técnicas convencionais de Terapia Ocupacional é um meio eficaz de melhorar a função manual de pacientes hemiplégicos com movimentação voluntária parcialmente preservada.

Palavras-chave: FES. Déficit motor. Déficit Sensitivo. Função Manual. Hemiplegia.




INTRODUÇÃO

No paciente hemiplégico, raramente o membro superior é preservado, o que contribui para a incapacidade funcional2, levando A dificuldades na realização das atividades de vida diária, prática e profissional. Assim, procuramos ampliar a utilização de recursos que possam melhorar o processo de reabilitação. Dentre eles, temos o FES, cuja aplicação procura melhorar a restauração da função perdida3. O nosso objetivo é estudar a influência das sensibilidades superficial e profunda e dos movimentos ativos na reabilitação da função manual do membro acometido do paciente hemiplégico quando as técnicas convencionais de terapia ocupacional são associadas à estimulação elétrica funcional.


MATERIAL E MÉTODO

O estudo incluiu 17 pacientes, sendo 12 de sexo masculino e 5 do feminino, com idade média de 48,7 anos (15-69 anos). O tempo de Acidente Vascular Cerebral (AVC) variou de 6 a 28,35 m (média = 28,35 meses). Oito tinham acometimento do dimidio direito e nove do esquerdo. Todos eram dextros e possuíam gnosia e praxia preservadas. Quanto à sensibilidade, 8 indivíduos tinham alteração da superficial e 10 da sensibilidade profunda. Apenas 13 pacientes apresentavam movimentação manual ativa presente (tabela 1).




Foram realizadas técnicas convencionais de Terapia Ocupacional e Estimulação Elétrica Funcional. O equipamento utilizado foi o eletroes-timulador Quadrikron KC-170 (Fig. 1). Utilizamos um canal de estimulação. Os eletrodos foram colocados na face dorsal e/ou lateral do antebraço acometido e os parâmetros foram regulados, de modo a obtermos o melhor padrao de dorsiflexão de punho e dedos e oponência ou abdução de polegar. A duração do estímulo foi de 30 minutos, concomitante ou não à realização das atividades de Terapia Ocupacional, numa frequência de 2-3 vezes por semana. Foram feitas avaliações das sensibilidades superficial (táctil e dolorosa) e profunda (reconhecimento de diferentes posições do membro acometido), das preensões grosseiras tipo cilindro, esfera, gancho, e pinças lateral, polpa a polpa, ponta a ponta e três pontos, antes e após seis meses de FES. Quanto à presença de preensões e pinças, ambas foram graduadas em ausente, esboço, parcial e normal.


FIGURA 1. Aplicação da FES em membro superior acometido



RESULTADO

Os resultados mostraram que 13 pacientes obtiveram melhora da movimentação ativa manual após FES, sendo que todos tinham alguma mobilidade, funcional ou não, prévia ao tratamento. Essa melhora foi independente a distúrbio de sensibilidade presente (Fig. 2).


FIGURA 2. Pacientes hemiplégicos com melhora ou não do padrao de movimentação ativa, segundo sensibilidades superficial e profunda e presença prévia ou não de movimentação ativa, após serem submetidos a FES.



DISCUSSÃO

O presente trabalho procurou identificar os aspectos fisiopatológicos que condicionam um bom diagnóstico na aplicação de Estimulação Elétrica Funcional, sendo pareados os bons e maus resultados com os déficits motores e sensitivos. Como pode ser visto, os pacientes beneficiados com o tratamento foram os que apresentaram movimentação ativa preservada, ainda que de maneira parcial. Os déficits sensoriais podem eventualmente serem compensados pela reorganização do "campo aferente", com aumento da participação de aferência visual na retroalimentação reguladora dos movimentos, não sendo, como foi observado, fator limitante de melhora.


CONCLUSÃO

A estimulação elétrica Funcional é um meio eficaz na melhora da função manual de pacientes hemiplégicos com movimentação voluntária parcialmente preservada.


REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

1. GRACANIN F. - Aplicação de Corrente de Baixa Freqüência em Medicina Física e Reabilitação com Enfase Especial em Estímulo Elétrico Funcional. Medicina de Reabilitação. 20/21:18-23,1988.

2. NAKAYAMA H., Jorgensen H. S., RAAS CHOU H.O., OLSEN, T.J. - Recovery of Upper Extremity Function in Stroke Patients: the Copenhagen Stroke Study. Arch Phys Med. Reabil. 75:394-98,1994.

3. KRALJA, ALIMOVIE R., STANIC, U. - Enhancement of Hemiplegie Patient Rehabilitation by Means of Functional Electrical Stimulation. Prosthetics and Orthotics International, 17:107-114,1993.










*Trabalho realizado na Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP

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