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Número atual: Agosto 1995 - Volume 2  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Avaliação da utilização da tipóia de bobath na subluxação de ombro do paciente hemiplégico*


Margarida Harumi Miyazaki1; Maria Inês Paes Lourenção2; José Brenha Ribeiro Sobrinho2; Gracindo Rodrigues Tsukimoto3; Linamara Rizzo Battistella4

1. Médico Supervisor de Equipe - Divisão de Medicina de Reabilitação -HCFMUSP.
2. Terapeuta Ocupacional Chefe do Serviço de Terapia Ocupacional - Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP.
3. Terapeuta Ocupacional - Diretora do Serviço de Terapia Ocupacional - Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP.
4. Professora Doutora, Diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação -HCFMUSP.


Resumo

Uma das complicações mais graves do paciente hemiplégico pós AVC é a subluxação do ombro decorrente do desequilíbrio muscular, e que está freqüentemente associado à dor. Apesar das várias modalidades de tipóias1 para contenção da subluxação, há poucos estudos referentes ao uso delas. Optamos pela avaliação da tipóia de Bobath, analisando-as nos aspectos referentes à melhora da dor, dificuldades de colocação, conforto durante o uso e aderência. Verificamos que dentre os pacientes analisados, apenas 25% obtiveram melhora significativa da dor, todos eram dependentes na sua colocação e a grande maioria teve queixas quanto ao desconforto durante o uso. Houve uma porcentagem significativa de abandono e erro de utilização. Concluímos que a tipóia de Bobath, apesar de permitir redução visual da subluxação de ombro do paciente hemiplégico, não é um recurso ortésico adequado para a reabilitação do mesmo.

Palavras-chave: Tipóias de Bobath. Subluxação de ombro. Hemiplegia.




INTRODUÇÃO

Verificamos que a incidência do Acidente Vascular Cerebral (AVC) é alta, entretanto, melhores recursos dentro da medicina têm permitido maior sobrevivência, o que consequentemente tem levado ao aumento do número de pacientes potencialmente incapacitados. Dentre as complicações de seqüela do AVC, temos como problema freqüente e complexo, a sublu-xação do ombro e a dor associada a ela.

Segundo Basmajian2 esta subluxação seria decorrente da queda da fossa glenóide, que estaria menos verticalizada. Assim, teríamos deslocamento lateral e inferior da cabeça umeral, resultando em alteração de toda estrutura e dinâmica gleno-umeral e escapular. As primeiras tipóias para subluxação de ombro foram utilizadas em 1952 por Breiman e Licht. Desde entao, elas têm sido amplamente utilizadas para suporte do membro plégico/parático, apesar de seu uso ser bastante controverso.

Nosso estudo é referente à avaliação da tipóia de Bobath, devido ao baixo custo, facilidade de aquisição do material a ser utilizado e simplicidade na sua execução.


MATERIAL E MÉTODO

A tipóia de Bobath foi confeccionada em nosso próprio serviço, sendo utilizada malha de la tubular (10 cm de diâmetro, lmm de espessura e comprimento variável de acordo com o paciente), dupla e algodao ortopédico (Fig. 1). O algodao ortopédico foi colocado dentro da malha de la tubular a nível da regiao subaxilar bilateral de maneira a formar coxim, sendo que no lado acometido o suporte era maior. A malha tubular formava alças a nível de ombros e era cruzada e contida na regiao dorsal, de forma que a tensão e o posicionamento da mesma permitisse a redução visual da subluxação (Fig. 2). Familiar e paciente eram amplamente orientados e treinados na sua colocação, não persistindo quaisquer dúvidas.


FIGURA 1. Materiais uti lizados na confecção da tipóia de Bobath


FIGURA 2. Tipóia de Bobath

FIGURA 3. Pacientes hemiplégicos, com subluxação de ombro associada à dor e utilizando tipóia de Bobath, apresentaram os seguintes percentuais quanto à melhora da dor, dependência, facilidade na colocação e conforto.



Quanto aos pacientes, foram avaliados 12 hemiplégicos, todos destros e com subluxação de ombro visualmente evidente associada à dor sendo: 6 do sexo masculino e 6 do sexo feminino, com idade entre 27 e 84 anos e tempo de AVC variando de 2 meses a 10 anos. Quatro pacientes tinham acometimento no hemicorpo direito e oito à esquerda.

O período proposto de uso da tipóia foi de 15 dias. O tempo mínimo de uso diário foi de 04 horas/dia e a permanência no leito menor que 16 horas/dia. Não houve variação na dinâmica diária dos indivíduos, como por exemplo alteração no programa de reabilitação.

Consideramos como critério de avaliação:

a) Melhora da dor: valorização quando esta era igual ou superior a 80%, segundo informação quantificada do paciente.

b) Dificuldades de colocação: dependência e uso incorreto, segundo dados da paciente/familiar e observação da terapeuta/fisiatra.

c) Conforto/desconforto durante o uso, segundo o paciente.

d) Aderência, segundo observação da terapeuta/ fisiatra


RESULTADOS

Os resultados obtidos segundo dados coletados mostraram que apenas 3 pacientes obtiveram melhora significativa da dor, todos eram dependentes na sua colocação e 3 usavam-na incorretamente. Quatro pacientes referiram que a mesma era confortável. Dos 3 pacientes que tiveram melhora da dor, um usou-a incorretamente e um apresentava movimentos ativos parciais isolados de escápula. Dos 4 pacientes que consideram-na confortável, três referiram melhora da dor. Três pacientes não completaram o uso por 15 dias.


DISCUSSÃO

A avaliação da redução da subluxação de ombro do paciente hemiplégico seria ideal se a mesma fosse feita através de estudos radiológicos, mas estes não foram possíveis.

Apesar da redução visual da subluxação, a tipóia de Bobath não nos dá uma melhora adequada do quadro álgico, provavelmente porque realiza apenas a elevação da cabeça umeral, não reduzindo a lateralização umeral e escapular, e a rotação caudal da cavidade glenóide, permitindo distensão capsular, liga-mentar e muscular. Além disso, outros fatores como contratura dolorosa do ombro podem estar contribuindo para o quadro álgico e não estar sendo percebido2.

Dos 3 pacientes que tiveram melhora da dor, um apresentava movimentação ativa escapular parcialmente presente e um usou-a erroneamente, tendo tido provável melhora espontânea. Observamos que apenas um paciente com quadro plégico e que usava corretamente teve melhora da dor.

Apesar da facilidade de confecção e aquisição desse tipo de tipóia, nenhum paciente conseguiu colocá-la, dependendo de terceiros, que apesar de amplamente orientados, tinham dificuldade em manuseá-la. A queixa de desconforto foi relevante, mas todos que melhoraram da dor consideraram-na confortável, o que denota a importância deste item na redução da dor. Em relação à aderência, sua queda deveu-se à não melhora da dor, dificuldade de colocação, desconforto, dor no dimidio oposto e sensação de inutilidade. Os dados obtidos sugerem-nos que quando propomos a ortetização de um paciente, o recurso deve melhorar os sintomas do paciente; ser facilmente colocado e retirado e não deve acrescentar novas queixas, não podendo ser esquecidos fatores influentes no dimidio preservado. Pacientes e familiares devem ser bem esclarecidos, senão acarretará no abandono do recurso instituído. Talvez a porcentagem de abandono não tivesse sido maior devido ao período de avaliação não ser prolongado.


CONCLUSÃO

A tipóia de Bobath que não requer habilidade na sua execução, cujo material é de fácil aquisição, barato e pode ser descartável, mas que nos dá apenas apoio a nível de ombro; apesar da redução visível da subluxação da cintura escapular acometida, não é eficaz quanto à melhora da dor; é desconfortável, difícil de utilizar e tem baixa aderência.


REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

1. RAJARAM, V.; HOLTS, M. - Shoulder Forearm Support for the Subluxed Shoulder. Arch Phys. Med. Rehabil. Vol. 66, march: 191-192,1985.

2. ANDERSON, T. P. - Reabilitação de Pacientes com Derrame Completado. Krusen Tratado de Medicina Física e Reabilitação. 3ª ed. Ed. Manóle Ltda: 604-625,1984.










* Trabalho realizado na Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP

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