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Número atual: Agosto 1997 - Volume 4  - Número 2


ARTIGO ORIGINAL

Alterações eletrocardiográficas e cardiovasculares em pacientes com infarto do miocárdio pregresso submetidos a programa de reabilitação cardíaca supervisionado


Cilene Abreu Cardoso-Costa1; Paulo Yazbek Júnior1; Livia Maria dos Santos Sabbag1; Maristela Palácios Dourados2; Gilson Tanaka Shinzato3; Claudio Costa3; Linamara Rizzo Battistella3

1. Cardiologista.
2. Técnico desportivo.
3. Fisiatra.

Resumo

A reabilitação cardíaca é o processo de desenvolvimento e manutenção de nível desejável de atividade física, social e psicológica após o início da doença coronária sintomática, sendo uma terapêutica multiprofissional para a patologia, que é multifatorial. Assim, nas últimas décadas, a prática de exercícios físicos tem sido estimulada entre indivíduos sadios e cardiopatas. Os principais objetivos são: evitar os efeitos negativos do repouso prolongado no leito em pacientes convalescentes de infarto agudo do miocárdio pós-cirurgia cardiovascular, com o retorno mais breve às atividades cotidianas, evitar complicações pulmonares, melhora da capacidade funcional e da qualidade de vida, mudanças de hábitos com modificação de fatores de risco e redução dos índices de morbi-mortalidade.


INTRODUÇÃO

A Reabilitação Cardíaca foi definida pela Organização Mundial de Saúde, em 1964, como o "conjunto de atividades necessárias para assegurar, da melhor maneira possível, as condições físicas, mentais e sociais do cardiopata, possibilitando seu retorno à comunidade e proporcionando vida ativa e produtiva da melhor forma possível"1,3. Atualmente, a reabilitação cardíaca é um processo de desenvolvimento e manutenção do nível desejável de atividade física, social e psicológica após o início da doença coronariana, ressaltandose que é uma terapêutica multidisciplinar, abordando dessa forma uma patologia multifatorial que é a doença coronariana1,2,3.

A doença arterial coronariana (DAC) atualmente ainda é uma das maiores causas de mortalidade mundial, sendo uma patologia passível de prevenção, quando se atua intensa e permanentemente sobre os fatores de risco.4,5. Inúmeras pesquisas em portadores de DAC demonstram que ao se intervir sobre os distúrbios lipídicos, tabagismo, sedentarismo, hipertensão arterial, stress, obesidade, entre outros, possibilitam prevenir a ocorrência de novos eventos clínicos (reinfarto, angina instável, morte súbita)4,6. Assim mudanças do estilo de vida em coronariopatas têm efeitos benéficos sobre lesões ateroscleróticas, com repercussões positivas sobre a morbi-mortalidade por DAC 3,4,6,12.

O tratamento cirúrgico e/ou farmacológico são dispendiosos, portanto, a principal motivação para que o combate à doença arterial coronariana venha incidir é a sua prevenção primária, área esta em que a atividade física desempenha um papel significativo com a realização de programas em centros de reabilitação4,5,6,7.

No presente trabalho, pretendemos avaliar os efeitos produzidos pelo condicionamento físico desenvolvido durante o programa de reabilitação cardíaca em pacientes portadores de doença arterial coronariana com infarto do miocárdio pregresso.


PROGRAMA DE REABILITAÇÃO CARDÍACA

O programa de reabilitação cardíaca é uma terapêutica multidisciplinar, por tratar-se a doença coronariana de uma patologia multifatorial.

Assim, a equipe do programa envolve uma interação dos seguintes profissionais: médicos cardiologistas, enfermagem especializada, psicólogas, nutricionistas, assistente social, professor de educação física e em alguns centros de excelência incluem-se também na equipe médicos fisiatras e fisioterapeutas acompanhando assim a tendência atual da reabilitação plena. Dessa forma a terapêutica objetivada para o paciente envolve medidas preventivas, acompanhamento de sintomatologia, condições emocionais e sociais, além de orientação educacional quanto à modificações de hábitos de vida 3,5,6,8,10,14,15,16,17.

Os principais objetivos do programa são: melhora da capacidade funcional, melhora da qualidade de vida, mudança de hábitos após o evento coronariano, redução dos índices de mortalidade e modificação dos fatores de risco 2,3,5,6,14,15.

O acompanhamento do paciente em programa de reabilitação possibilita a detecção precoce de instabilizações clínicas. Logo, a prevenção secundária é parte fundamental do programa, incluindo a correção dos fatores de risco como dislidemias, tabagismo, hipertensão, obesidade e sedentarismo. Estudos recentes apontam a possibilidade de regressão da placa aterosclerótica com a ação exaustiva sobre os fatores de risco, melhorando o prognóstico ante a doença arterial coronariana 1,2,6,10,13,16.

No aspecto que envolve a família e principalmente o(a) cônjuge, representa papel importante na reintegração social e psicológica após o evento coronariano, e o fundamental nesse caso visa evitar o isolamento social e o sentimento de incapacidade do paciente perante as atividades da vida diária. Os esforços para proporcionar uma boa qualidade de vida deve ser um dos objetivos da reabilitação e envolve atividade sexual, retorno ao trabalho, atividades recreativas, ausência de sintomas anginosos, evitando a dependência excessiva. Isso é viabilizado através da integração da equipe multiprofissional com o paciente e sua família 1,3,6,14,15.


EFEITOS DO CONDICIONAMENTO FÍSICO

O condicionamento físico é alcançado em média após seis meses do início do programa de reabilitação, obtendo-se os principais efeitos:

1. Efeitos fisiológicos: aumento do consumo máximo de oxigênio (VO2 máx), definido como o produto do débito cardíaco (DC) pela diferença arteriovenosa de oxigênio (VO2 máx = DC versus diferença AV de O2). Essas modificações ocorrem devido ao reajuste de seus componentes com o treinamento refletindo adaptações sistêmicas e periféricas 3,6,9,10.

2. Efeitos hemodinâmicos: diminuição da freqüência cardíaca, concomitante ao aumento do volume sistólico; o débito cardíaco permanece inalterado 3,9,10.

3. Efeitos sobre o sistema nervoso autônomo: há diminuição das catecolaminas sangüíneas e urinárias em repouso e durante o treinamento submáximo, por provável diminuição do tônus simpático. Por outro lado, a elevação do tônus parassimpático leva a diminuição da freqüência cardíaca e da pressão arterial sistólica que ocorre tanto em repouso quanto em exercício 3,6,9,10.

4. Efeitos periféricos: são as alterações ocorridas nos músculos esqueléticos, destacando o aumento das enzimas oxidativas e de capilares e de fibras de encurtamento lento (vermelhas) e elevação do gligogênio muscular. Tudo isso contribui para a maior extração de O2 pelo músculo em exercício. Consequentemente, há melhora da tolerância ao esforço devido a diminuição dos níveis de lactato, aumento da capacidade aeróbia e melhora do transporte de O2 devido à maior densidade de capilares 3,6,9,10.

5. Efeitos sobre os fatores de risco: diminuição da pressão arterial sistólica; aumento da fração HDL que não se acompanha com variações significativas dos níveis de colesterol total; diminuição dos triglicérides 9,10,12; aumento a tolerância a glicose; aumento da motivação para a perda de peso; diminuição da ansiedade e da depressão; permanece, contudo, dúvida sobre o papel do condicionamento físico sobre a agregação plaquetária, provavelmente ocorrendo diminuição dos seus níveis 3.


Dessa maneira, várias pesquisas vêm destacando a importância dos programas de reabilitação na diminuição da mortalidade em cerca de 25% após o evento coronariano 3,4,6,8,12,17.


EFEITOS DO CONDICIONAMENTO FÍSICO SOBRE O CARDIOPATA

a) Aumento do VO2 máximo ou oferta máxima de VO2 ao miocárdio e da diferença arteriovenosa de O2. com maior extração de O2 pelos músculos em exercício, levam a maior capacida funcional. Esses benefícios evitam os efeitos deletérios do repouso prolongado; possibilitam aumento da capacidade de funcional; aumento do fluxo coronário e aumento da tolerância ao esforço 3,6,7,10,11,16.

b) Consumo de Oxigênio do miocárdio (MVO2 = pressão arterial sistólica versus freqüência cardíaca) ocorre diminuição da freqüência cardíaca e da pressão arterial sistólica de repouso. Isso possibilita a realização de maior quantidade de trabalho (maior carga) antes de alcançar o limiar de angina e/ou alterações de segmento ST, que em última análise reflete um aumento da tolerância ao esforço 3,6,7,10,14,16,17.

c) Melhora do fluxo coronariano pela diminuição da freqüência cardíaca fazendo aumentar o tempo de diástole, permitindo um aumento do fluxo coronário, o que acarreta menor MVO2 3,6,10,16,17.

d) Circulação colateral: atualmente, sabe-se que, na maioria dos casos, não aumenta, e que a melhora da isquemia ocorre por menor consumo de oxigênio 3,10.

e) Função ventricular: em animais, houve evidência de aumento da contratilidade miocárdica e resistência à hipóxia. Em humanos, não há comprovação da melhora da função ventricular 3,10.



TIPOS DE EXERCÍCIOS

No programa de reabilitação cardíaca nem todos os exercícios são apropriados para melhorar a capacidade funcional de coronariopatas. Assim, exercícios isométricos cuja contração muscular seja contra uma resistência fixa, podem ser perigosos se o mesmo envolver mais de 20% de contração máxima voluntária do músculo, há súbita elevação da pressão sistólica e de pós-carga, podendo precipitar angina, arritmias ou disfunção ventricular 3,6,10,11. Dessa forma, a base do condicionamento físico constitui-se do exercício dinâmico, conhecido como isotônico ou aeróbico. Este tipo de exercício caracteriza-se por envolver grandes grupos musculares e a resposta fisiológica é o aumento do volume sistólico, elevação progressiva da pressão arterial sistólica e discreta diminuição da pressão diastólica 3,6,11.


ESTRATIFICAÇÃO QUANTO AO RISCO

Baseado nos equivalentes metabólicos (múltiplos da unidade metabólica basal, ou MET = 3,5 ml O2Kg-1.min-1), classifica-se o paciente em baixo, médio e alto risco para o exercício após o even-coronariano 2,3,14. A avaliação de risco baseiase em três fatores importantes: porcentagem de miocárdio isquêmico residual, extensão da disfunção ventricular esquerda e potencial arrítmico. 2,3,14. A quantificação de risco é necessária para a abordagem terapêutica a ser instituída no programa de reabilitação cardíaca.

Ao realizar o teste de esforço, as alterações isquêmicas oriundas das modificações de segmento ST, bem como a sintomatologia anginosa ou não e a capacidade funcional orientam a manipulação do paciente. A função ventricular é avaliada pela capacidade de manter a progressão da elevação da pressão sistólica com o esforço 2,3,14.

Pacientes de baixo risco

Nesta classificação, os pacientes não necessitam de monitorização durante a sessão e compreendem pós-revascularizados sem complicações, capacidade funcional frente ao teste ergométrico > 7,5 MET três semanas após evento coronariano, com ausência de isquemia ou arritmias severas, disfunção ventricular esquerda com fração de ejeção > 50%. 2,3,16,17.

Pacientes de médio risco

Estes pacientes requerem monitorização ocasional, e apresentam: capacidade funcional ao teste de esforço < 7,5 MET's, três semanas após o evento coronário, angina ou infradesnivelamento de segmento ST ao exercício > -1 mm e < -2 mm, anormalidades de perfusão (isquêmia transitória ou de movimentação de parede com estresse, insuficiência cardíaca pregressa, disfunção ventricular esquerda de leve a moderada (fração de ejeção de 35% a 49%) e taquicardia ventricular não sustentada 2,3,16,17.

Pacientes com alto risco

Neste grupo deve-se ter monitoração e avaliação mais rigorosa e freqüente, apresentam disfunção ventricular esquerda grave (fração de ejeção < 35%). Este déficit inotrópico traduz maior risco de novo evento cardíaco, advindo da disfunção ventricular esquerda ou isquêmia. A capacidade funcional ao teste ergométrico < 4,5 METs, três semanas após evento cardíaco, infradesnivelamento ST > -2 mm no exercício, hipotensão induzida pelo exercício (> 15 mmhg), isquemia induzida com baixos níveis de esforço, persistência de isquemia após o exercício, arritmias ventriculares sustentadas, induzidas ou espontâneas 2,3,11,13,17.

Quanto aos vários indicadores de morte súbita pode-se citar: capacidade funcional < 4 METs, comportamento deprimido da pressão arterial sistólica durante o teste ergométrico (elevação < 30 mmHg), pressão sistólica < 10 mmHg 3,10,13.

De maneira geral, a classificação quanto ao risco proporciona bom senso ao se acompanhar os pacientes individualmente, monitorização quando necessário e permitindo detecção precoce de alterações do quadro clínico.


INDICAÇÕES PARA O PROGRAMA DE REABILITAÇÃO CARDÍACA

Com o intuito de restabelecer a capacidade funcional e a qualidade de vida após infarto agudo de miocárdio ou após procedimentos (revascularização do miocárdio, angioplastia) a reabilitação cardíaca procura evitar suas recorrências pelos benefícios da atividade física e correção dos fatores de risco. Contudo, atualmente, as indicações são mais amplas;

  • coronariopatas recuperando-se após infarto agudo de miocárdio
  • pacientes submetidos a revascularização do miocárdio
  • pacientes submetidos a angioplastia coronariana
  • paciente com angina estável
  • disfunção ventricular esquerda e insuficiência cardíaca compensada
  • pacientes após transplante
  • portadores de marca-passo 3,5,6,7,14,15.



  • CONTRA-INDICAÇÕES DO PROGRAMA DE REABILITAÇÃO CARDÍACA

    Pode-se citar: infecções sistêmicas, doenças tromboembólicas, endocardite, doenças neuromusculares, aneurisma dissecante da aorta, isquemia aguda podendo levar ao choque, estenose aórtica severa, BAV de segundo e terceiro graus, disjunção esternal após revascularização e déficit inotrópico (insuficiência cardíaca congestiva) que conforme o grau é considerada contraindicação de relativa a absoluta 3,6,10,11,17.

    Citam-se ainda condições que necessitam de precauções e/ou atenção especial como: bloqueio de ramo esquerdo, síndrome de Wolff-Parkinson- White e variantes de pré-excitação, bloqueios bifasciculares, arritmias controladas, marca-passos de freqüência cardíaca baixa, angina, obesidade acentuada, cardiopatias cianóticas, claudicação intermitente, doença pulmonar grave, insuficiência renal, insuficiência hepática 3,6,7,11,17.


    FASES DA REABILITAÇÃO CARDÍACA

    A reabilitação cardíaca é definida por Zolman como a "arte e ciência de restituir a um indivíduo nível de atividade física e mental compatível com a capacidade funcional de seu coração". Em 1969, na Conferência de Mirtle Beach, Estados Unidos, foi definida como "processo que se inicia com o evento cardíaco e continua até que o paciente retorne a sua ótima condição clínica, psicológica, social e profissional, estando implícita a prevenção secundária e a manutenção da condição funcional adquirida". As duas definições se completam e dão a conotação de equipe multidisciplinar que permite a ampla dimensão do processo de reabilitação 3,6,11,15,16.

    De acordo com Pollock (1986), Wenger (1985), Froelicher (1980) e outros, os programas de reabilitação são divididos em fases conforme o período após o evento cardiológico, que são:

  • fase I ou fase de reabilitação hospitalar;
  • fase II ou fase intermediária (geralmente as primeiras 8 a 12 semanas após a alta hospitalar);
  • fase III que consiste do programa a longo prazo (6,11,14,15,16).


  • Na reabilitação cardíaca, o tipo de atividade mais indicado é aquele que utiliza grandes grupos musculares, que possa ser mantido por um longo período de tempo e que seja de natureza rítmica e aeróbica como: corrida, marcha ou caminhada rápida, ciclismo, natação, remo, etc. Mesmo que já abordado anteriormente tal assunto ressaltamos a seguinte estrutura do programa:

    Freqüência do treinamento - dependendo do período de convalescença, a freqüência do treinamento é de duas vezes por dia (fase I) ou 3 a 5 vezes por semana (fase II e III) 6,14,15.

    Duração de treinamento - uma atividade de menor intensidade deve ser mantida por um tempo prolongado. A duração deve ser de 15 a 60 minutos de atividade aeróbia contínua e intervalada 6,14,15.

    Intensidade do esforço - num programa de reabilitação cardíaca, a prescrição da intensidade e a monitorização devem ser rigorosamente adequadas para minimizar os riscos de intercorrências. A intensidade é expressa como percentual da capacidade funcional, onde a mais usual é de 50 a 60% da capacidade funcional para pacientes de baixa capacidade física e de 60 a 70% para assintomáticos em geral. Treinamentos abaixo de 50% não produzem efeitos significativos e acima de 85% não são recomendados 6.

    Ao avaliar a capacidade funcional, procurase observar a capacidade do transporte de oxigênio. Este conceito tem grande importância em presença de sintomas como dispnéia e dor torácica. A exata localização e detecção do momento em que ocorrem sintomas e/ou modificações ao ECG de esforço, bem como alterações no comportamento da resposta cronotrópica e de pressão, permitem identificar as chamadas capacidade funcional útil (CFU), limite (CFL) e máxima (CFM) 6.

    A capacidade funcional útil é o nível de esforço que produz o limite da atividade compatível com a ausência de sintomas e/ou sinais eletrocardiográficos de isquemia do miocárdio. Como o teste ergométrico é realizado com incremento progressivo de cargas, pode-se iniciar com precisão a CFU em MET (unidade metabólica de repouso = 3,5 ml/kg/min), cal/min, consumo de oxigênio (VO2) e, da maneira mais prática possível, relacionando com a resposta da freqüência cardíaca. A CFU sempre ocorre entre os limiares anaeróbios I e II6.

    A capacidade funcional limite representa o nível de prova em que são detectadas anormalidades por isquemia, arritmia ou sintomas significativos. O intervalo entre a CFU e a CFL traduz a faixa de segurança para o paciente realizar atividades físicas. Freqüentemente a CFL situa-se próximo do limiar anaeróbio II 6.

    A capacidade funcional máxima é o máximo nível de esforço que um determinado paciente pode alcançar durante a prova ergométrica.

    Quando avalia-se em MET pode-se determinar a classe funcional de um indivíduo em relação à sua capacidade cardiorespiratória e mesmo correlacioná-la com a NYHA: 6

  • Classe I - Subclasses: I A.....11-12 MET, IB.....9-10 MET e IC .....7-8 MET.
  • Classe II - Subclasses: II A.....6 MET, IIB.....5 MET e IIC ..... 4 MET.
  • Classe III - Subclasses: III A.....3 MET e IIIB.....2 MET.
  • Classe IV - Subclasses: IV A.....1,6 MET e IVB.....1 MET.


  • Weber e cols., Yazbek e cols. 1985 utilizaram o VO2 máximo, obtido pela ergoespirometria, classificaram a insuficiência cardíaca em quatro níveis: 6,18

    a) Abaixo de 10 ml/kg/min corresponde à classe IV;
    b) entre 10 e 14,9 ml/kg/min corresponde à classe III;
    c) de 15 a 19,9 ml/kg/min corresponde à classe II;
    d) acima de 20 ml/kg/min corresponde à classe I.


    As medidas objetivas da aptidão física são a melhor forma para se determinar a intensidade de esforço ideal para o treinamento, onde, além do VO2, observa-se a freqüência cardíaca (FC), pressão arterial (PA), o ritmo cardíaco e alterações do segmento ST; contudo a informação subjetiva do paciente deve ser sempre levada em consideração. Finalmente a intensidade de treinamento pode ser determinada por: porcentagem do consumo de oxigênio (VO2máx.); porcentagem da unidade metabólica máxima (METmáx.); porcentagem da FC máxima; pelos níveis de cansaço (IPE-Borg) e pela obtenção do limiar anaeróbio. Caso ocorram alterações como depressão do segmento ST, angina de peito ou níveis pressóricos acima de 250 mmHg, devendose alterar o nível de treinamento no VO2, MET ou FC em que apareceu a alteração 6 .

    O tempo médio de reabilitação para a maioria dos pacientes varia de 6 a 12 meses, sendo que a divisão em fases difere em intensidade, duração, freqüência, local a ser desenvolvido o programa, manifestações dos pacientes e tipo de atividade. Considerando os inúmeros problemas originados pelo repouso no leito e a cirurgia, há a necessidade de que o ritmo de progressão da atividade seja lento e individual 6,14,15.

    O programa para infartados apresenta algumas diferenças em relação aos pacientes revascularizados. Como por exemplo, o programa para infartados inicia-se mais precocemente; o ritmo de progressão também é mais rápido, e as atividades que incluem mobilidade articular dos membros superiores têm mais ênfase em pacientes cirúrgicos, prevenindo posições viciosas e antálgicas referentes a esternotomia6,14,15.

    Fase I: A parte inicial do programa é realizada em unidade de terapia intensiva logo que o paciente se encontre estável, isto é, sem arritmias ou angina por um período de 24 horas. Os pacientes são monitorizados por eletrocardiografia direta ou telemetria 6,14,15.

    O ideal é que neste período a freqüência das sessões seja de 2 a 3 vezes ao dia com atividades de baixa intensidade, alcançando de 2 a 3 MET, e duração de 5 a 20 minutos cada sessão, com exercícios de mobilização passiva, deambulação e exercícios de calistenia leves. Ao final desta fase, as sessões podem ser feitas em salas especiais com pacientes monitorizados, onde a proporção profissional-paciente é de 1:1, com tomadas de freqüência cardíaca, pressão arterial, escala de Borg de percepção do nível de esforço e o treinamento desenvolvido quando possível em esteira e bicicleta ergométrica sem carga 6,14.

    A progressão ocorre com o aumento da duração e da freqüência das sessões e intensidade podendo chegar até 5 MET 6,14,15.

    A alta da fase I é dada ao certificar-se sobre a segurança nas atividades diárias do paciente, e na maioria das vezes é submetidos a um teste de esforço com intensidade de até 5 MET da capacidade funcional. Esta fase geralmente dura cerca de 8 a 10 dias 6,14,15.

    Fase II: é realizada a nível ambulatorial ou domiciliar, com continuação das atividades hospitalares e sem intervalo da fase anterior. Esta fase intermediária objetiva a independência dos pacientes nas atividades cotidianas, bem como o reinício das atividades ocupacionais com a introdução de esclarecimentos acerca da fisiopatologia da doença cardiovascular, o fundamento do tratamento, dietas e modificações dos fatores de risco 6,14,15.

    Os pacientes com capacidade igual ou superior a 5 MET farão o programa de 3 a 4 sessões por semana, com intensidade média de 5 MET ou 50 a 70% da capacidade funcional, duração inicial de 10 a 15 minutos com progressão para 30 a 60 minutos. Já pacientes com capacidade funcional inferior seguem o mesmo esquema da fase I até adquirirem maior resistência. A proporção paciente/profissional é de 4:1 6,14,15.

    O programa inclui mobilização articular, caminhadas, marcha e ciclismo, sendo realizado em hospitais, serviços especiais ou no próprio lar, este último para pacientes estáveis. Esta fase dura desde a alta hospitalar até cerca de 3 meses do evento coronariano ou cirurgia (Revascularização ou Angioplastia) 6,14,15.

    Fase III: ocorre em hospitais e serviços com equipamentos imprescindíveis como o desfibrilador portátil, eletrocardiógrafo e monitor, esfigmomanômetro, drogas, equipamentos e suprimentos de emergência.

    Nesta fase os pacientes estão mais estáveis e fortes fisicamente, e atividades prescritas são semelhantes para infartados, revascularizados e adultos sedentários saudáveis 6,14,15.

    A intensidade deve ser personalizada e evoluir gradativamente, com aumento da duração da sessão, ficando em torno de 70% da freqüência cardíaca máxima e sendo reajustada em até 85%, com uma capacidade funcional de 8 a 10 MET em atividades como o jogging, com duração de 30 a 60 minutos e freqüência de três a cinco sessões por semana. A intensidade de 8 MET ou mais é uma capacidade funcional aceitável e, a partir deste estágio, o indivíduo entra em fase de manutenção 6,14,15.




    As sessões são verificadas a FC, a PA, o ritmo cardíaco e a escala de Borg. A evolução é feita por teste ergométrico e avaliações periódicas (ex.: 3,6 e 12 meses após início desta fase ) 6,14,15.


    MATERIAL E MÉTODOS

    Foram estudados 10 homens, idade média de 58,3 anos, com antecedentes pregressos de infarto do miocárdio, com os seguintes pré-requisitos: ausência de bloqueio de ramo, freqüência às aulas de 3 vezes por semana, sendo superior a 75% de freqüência ao mês, e com o período de treinamento superior a 12 meses, manutenção de mesma medicação nesse período e realização de teste ergométrico nas seguintes ocasiões: início do programa de reabilitação na fase III (t 1), após 6 meses (t 2) e 12 meses do início da admissão (t 3).

    No teste de esforço utilizou-se o protocolo de Ellestad e como ergômetro a esteira rolante, onde obtivemos as seguintes variáveis: duplo-produto (DP), consumo de oxigênio (VO2) indireto, pressão sistólica e ponto situado a 0,08 segundos do ponto J (ponto Y) na carga máxima comum que corresponde no momento máximo e carga comum atingida em trabalhos de intensidades crescentes e contínuos, intermediários ou não em relação aos testes realizados em datas diferentes, em estudo longitudinal.6.

    Os dados foram coletados dos prontuários de pacientes em programa regular de condicionamento físico do setor de Reabilitação Cardíaca e Condicionamento Físico da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas - FMUSP.

    O teste estatístico para comparação das médias, foi o T-student, sendo considerado nível de significância estatística os valores de p < 0,05


    RESULTADOS

    Os resultados das variáveis obtidas e comparadas em relação à carga máxima comum foram os seguintes (tabela 1):




    O duplo produto no esforço (carga máxima comum), que é o produto da pressão arterial sistólica pela freqüência cardíaca apresentou redução de seus valores em relação ao primeiro teste e voltou a apresentar incremento no terceiro teste.

    Quanto ao consumo de oxigênio houve melhora comparando-se os três testes, porém não estatisticamente significante.

    A pressão sistólica apresentou redução no segundo teste quando comparado ao primeiro e ao terceiro, sendo que neste último apresentou incremento importante porém estatisticamente não significativo.

    Com relação ao ponto Y houve redução importante em todos estes quando analisada a carga máxima comum, sendo em todas as ocasiões estatisticamente significativa.


    DISCUSSÃO

    A redução do duplo-produto e a discreta alteração do segmento ST entre o primeiro e o segundo teste em mesmo nível de trabalho sugerem em um primeiro momento que não houve alteração da função miocárdica. Contudo, a redução de freqüência cardíaca e pressão arterial sistólica reflete a diminuição do consumo de oxigênio pelo miocárdio e aumento na eficiência metabólica muscular periférica na extração de oxigênio proporcionadas pelas alterações músculo-esqueléticas como: aumento das enzimas oxidativas, aumento dos capilares, aumento das fibras vermelhas e glicogênio muscular 3,6,9,10,11,13,16,17.

    Por outro lado, comparando-se o segundo com o terceiro teste nos valores que definem a participação central temos: o aumento do consumo de oxigênio crescente devido ao ajuste do produto do débito cardíaco pela diferença arteriovenosa de oxigênio e do duplo produto ratificando a melhora e o aumento da capacidade funcional, enquanto a redução do marcador de isquemia (segmento ST) ocorrida se deu por provável melhora do fluxo coronariano face a diminuição da freqüência cardíaca, fazendo aumentar o tempo de diástole, permitindo assim aumento do fluxo coronário o que leva à redução do consumo de oxigênio pelo miocárdio, possibilitando realizar maior quantidade de trabalho em uma mesma carga antes de alcançar o limiar de angina e/ou alterações do segmento ST, o que em última análise reflete aumento da tolerância ao esforço pela readaptação da função cardíaca ao longo do treinamento 3,6,7,10,11,14,16,17.


    CONCLUSÕES

    De acordo com o nosso estudo, permitimonos concluir que:

    1) A reabilitação cardíaca no grupo estudado pôde aumentar a capacidade cardiovascular e com isso reduzir a demanda de oxigênio pelo miocárdio para um dado nível de exercício (carga máxima comum) verificado pelo incremento do consumo de oxigênio ao longo do tempo.

    2) As modificações de ECG com ponto Y apresentando valores menores ao longo do estudo demonstram que os resultados iniciais deste trabalho são promissores com relação a avaliação de isquemia pelo teste de esforço.

    3) As variações referentes ao duplo-produto na carga máxima comum sugerem inicialmente que nenhuma alteração significativa repercutiu junto à função miocárdica (perfusão central), contudo a redução de freqüência cardíaca e pressão sistólica refletem aumento e melhora na eficiência metabólica muscular periférica na extração de oxigênio e que com a progressão do programa de reabilitação, o incremento do duplo-produto representa o aumento da capacidade funcional do grupo face ao treinamento físico instituído.

    4) Finalmente, um dos principais benefícios da reabilitação cardíaca é a melhora da qualidade de vida, advinda muitas vezes bruscamente por um evento coronário. Assim como a própria definição enfatiza, a reabilitação deve proporcionar ao paciente níveis desejáveis de atividade física, social e psicológica, bem como retorno às suas atividades cotidianas o mais breve e da melhor forma possível.



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