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Número atual: Dezembro 2000 - Volume 7  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Estudo da marcha em Idosos - resultados preliminares


Carmen Lúcia Natividade de Castro1; Jucyleide Antonia de Castro Borba Santos2; Paula S. Leifeld3; Luciana V. Bizzo3; Leonardo da Costa Silva2; Tatiana F. Almeida3; Anna Paula Chagas Bueno3; Renata Duarte Teixeira3

1. Professora-adjunta da disciplina de Medicina Física e Reabilitação - Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina - UFRJ.
2. Residente do Serviço de Medicina Física e Reabilitação - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - UFRJ.
3. Alunos de Graduação do Curso de Fisioterapia - UFRJ.


Endereço para correspondência:
Carmen L.N. de Castro
Rua Almirante Cochrane, 255 - 1003
CEP 20550-040 - Rio de Janeiro, RJ

Data de recebimento: 1/6/00
Data de aprovação: 30/8/00


RESUMO

Os objetivos deste estudo piloto foram avaliar parâmetros tempo-espaciais da marcha de idosos brasileiros e comparar o valor médio da velocidade confortável da marcha com um banco de dados estrangeiro (de Oberg) de parâmetros básicos da marcha.
METODOLOGIA: Foram estudados 15 voluntários saudáveis (8 homens, 7 mulheres) dos 60 aos 79 anos de idade. As medidas foram realizadas no playgroung dos prédios onde residiam. A velocidade da marcha foi medida para uma distância de 6 m; o comprimento do passo, a largura da passada e o ângulo dos pés foram medidos a partir de impressões plantares. A cadência foi calculada a partir da velocidade da marcha e do comprimento do passo.
RESULTADOS: O valor médio da velocidade confortável da marcha variou de 1,05 ± 0,14 m/s para mulheres da faixa etária de 60 anos a 1,10 ± 0,13 m/s para homens da faixa etária de 70 anos. Os valores médios do comprimento do passo, da largura da passada, do ângulo dos pés e da cadência foram respectivamente 52,1 ± 8,75 cm; 11,2 ± 3,49 cm; 119,4 ± 11,07 passos/min e 13,5 ± 8,53 graus para os homens e 46,6 ± 8,08 cm; 6,75 ± 7,07cm; 137,4 ± 22,64 passos/min e 7,5 ± 5,1 graus para as mulheres.
CONCLUSÃO: O menor valor da velocidade da marcha encontrado para os nossos idosos (apesar da casuística pequena), quando confrontado com os dados de Oberg, sugere a importância de estudos completos para suprir a falta de dados normativos de parâmetros da marcha para a população brasileira.

Palavras-chave: Marcha em idosos. Parâmetros básicos da marcha. Velocidade da marcha.




INTRODUÇÃO

O aumento da expectativa de vida é um fenômeno mundial e, no Brasil, projeta-se, segundo Berquó1, para o ano 2010, uma cifra de 4,5% de homens e de 6,76 % de mulheres acima de 65 anos, na população total.

A marcha em idosos tem sido investigada com crescente interesse dada a importância que a manutenção da mobilidade representa para este grupo de indivíduos, em termos de autonomia e qualidade de vida.

Segundo Craik e Dutterer2, foi Spielberg, em 1940, um dos pioneiros a estudar sistematicamente as alterações da marcha devidas ao envelhecimento. Desde então, diversas pesquisas em biomecânica identificaram diferenças nos parâmetros cinemáticos3,4,5 e dinâmicos6,7,8 da marcha de idosos.

O valor da velocidade da marcha é considerado como o parâmetro isolado que melhor representa a performance da marcha9. A partir da segunda metade da sexta década de vida, começa a ocorrer um declínio da velocidade da marcha, uma redução do comprimento do passo e da cadência, além de distúrbios da coordenação entre os membros superiores e inferiores3, 10 ,11.


JUSTIFICATIVA

Os dados normativos disponíveis na literatura sobre a velocidade da marcha em idosos referemse a estudos estrangeiros12,13, 14, e há necessidade de estudos na população brasileira para servir de referência ao comparar-se a performance da marcha normal e/ou patológica. A comparação da velocidade da marcha em um paciente idoso, submetido à artroplastia de quadril, por exemplo, se feita em relação a uma população de adultos jovens, pode levar a uma interpretação equivocada.

Craik e Dutterer2 chamam a atenção para o fato de que pesquisas sobre a marcha em idosos realizadas em ambiente especias, de laboratório de marcha, podem não ser representativas da população em geral. O Setor de Estudo da Marcha do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ desenvolveu um medidor de velocidade com células fotoelétricas para uso em ambiente laboratorial, em fase de validação. Para fins de criação de um banco de dados de idosos normais, iniciou um projeto piloto para a medida da velocidade da marcha em população de idosos, na sua própria comunidade, com metodologia simples.


METODOLOGIA

Sujeitos da pesquisa


Participaram deste estudo 15 indivíduos com idade mínima de 65 anos, moradores de dois prédios residenciais de um mesmo bairro da cidade do Rio de Janeiro, RJ. Todos atenderam voluntariamente a um anúncio que convocava "pessoas saudáveis, de ambos os sexos, com mais de 60 anos, que não tivessem nenhum problema para andar". A testagem foi realizada nas áreas do playground dos prédios, após explicação dos objetivos e da metodologia da pesquisa e do consentimento verbal de cada participante.

Para os registros de peso e altura utilizaramse, respectivamente, uma balança doméstica aferida e um metro afixado à parede. Foi elaborada uma ficha para registro dos dados antropométricos, anamnese orientada para doenças sistêmicas, déficit visual, uso de medicação, afecções do aparelho locomotor de origem neurológica, ortopédica e/ou reumatológica, histórico de quedas. Foi também realizada a aferição da pressão arterial, na posição assentada (os dados clínicos não são apresentados nesta pesquisa).

A medida da velocidade da marcha foi feita com um cronógrafo digital marca Mondaine cronógrafo nº 05, registrando-se em 3 trials o tempo gasto, por cada indivíduo, para percorrer, escolhendo a sua cadência mais confortável, uma distância de 6 m, demarcada no piso com fita crepe.

Para a medida dos parâmetros do passo, comprimento, largura e angulação, empregaramse formulários contínuos, de 38 cm de largura, em tiras de 3 m, estendidos no chão, formando uma passadeira. Após a marcação de toda a sola do calçado com graxa líquida, em bastão, cada indivíduo caminhava sobre a passadeira de papel, deixando sobre ela as marcas das pegadas.

As definições para os parâmetros estudados são: velocidade da marcha - tempo gasto para percorrer uma dada distância, medida em m/s; comprimento do passo - distância entre dois passos consecutivos, medidos a partir da impressão no papel, da borda posterior do salto do calçado; comprimento da passada - soma dos passos direito e esquerdo; largura do passo - distanciamento entre os pés, no plano de progressão, conforme descrito por Murray, o comprimento e a largura do passo e o comprimento da passada foram medidos em metros (m); ângulo dos pés ou ângulo da marcha - ângulo do eixo do pé, no plano de progressão, conforme descrito por Murray, medido em graus; cadência - número de passos por minuto, calculado pela relação velocidade/comprimento do passo esquerdo.

Participaram da testagem duas médicas que se revezaram na avaliação clínica sumária e seis alunos de graduação em Fisioterapia, treinados para realizar as medidas de peso e altura, registro das marcas dos pés.

A cronometragem do tempo e as medidas no papel foram realizadas sempre pela mesma médica.


RESULTADOS

A metodologia empregada mostrou-se de execução fácil, simples e rápida. O emprego de formulários contínuos com largura de 38 cm não afetou a medida da largura do passo, cujos valores médios (tabela 6) foram 11,2 ± 3,49 cm para os homens (70 a 79 anos) e de 6,75 ± 7,07 cm para as mulheres (60 a 79 anos).














O cálculo da cadência foi indireto, utilizandose os valores medidos do comprimento do passo e da velocidade. Este não é o melhor método, sendo preferível a contagem direta dos passos, durante a marcha. Ao comparar-se os valores obtidos para os parâmetros tempo-espaciais entre os grupos de homens e de mulheres (tabelas 2, 3 e 4), constata-se que os valores da velocidade da marcha são coincidentes para os dois sexos (1,10 ± 1,13 e 1,07 ± 0,16 m/s, homens e mulheres, respectivamente). Ao comparar-se os grupos separados por sexo e faixa etária (tabela 6) com os dados normativos de Oberg, para indivíduos suecos, encontra-se que os valores da velocidade da marcha, na nossa casuística são inferiores, provavelmente pela estatura mais baixa da população brasileira, que determina um menor comprimento do passo e a marcha mais lenta. Na pesquisa de Oberg, não consta a altura dos indivíduos, mas o valor do comprimento do passo superior ao dos indivíduos brasileiros (apesar do pequeno número deste estudo piloto) presumidamente é resultante da marcha de indivíduos de maior mais elevada.

As mulheres apresentaram um comprimento do passo (46,6 ± 8,08 cm) menor que o dos homens (52,1 ±8,75), compensado por uma cadência mais elevada (137,4 ± 22,64 versus 119,4 ± 11,07 passos/ min. Estes dados são coincidentes com os trabalhos de Oberg et al.14 , Winter et al.4.Os casos femininos apresentaram valores inferiores de largura do passo e do ângulo da marcha (6,75 ± 7,07 cm e 7,5 ± 5,1 graus, respectivamente) aos dos casos masculinos (11,2 ± 3,49 cm e 13,5 ± 8,53 graus, respectivamente). Murray3 estudou o ângulo da marcha em homens de 60 a 65 anos e encontrou valores inferiores (9,6 ± 6,6 graus), o que pode ser justificado pelas diferenças metodológicas entre as pesquisas. Ao dividir-se o grupo de mulheres nas faixas etárias 60 a 69 e 70 a 79 anos (tabelas 3 e 4), a estatística descritiva baseou-se em poucos casos e indica valores ligeiramente superiores no grupo mais idoso para a velocidade da marcha, comprimento do passo e cadência, o que pode vir a modificar-se com a ampliação do número de casos por faixa etária.


CONCLUSÃO

Os resultados preliminares obtidos de velocidade da marcha mais baixa na população estudada em relação aos dados normativos de Oberg14 indicam a relevância da continuidade da pesquisa, com estudo da influência da estatura sobre o comprimento do passo e a velocidade. Sugere-se estudar indivíduos até a oitava década de vida, com cerca de 15 sujeitos por sexo e faixa etária. Considera-se válido manter a mesma metodologia, exceto para a estimativa da cadência que deve ser direta. Propõe-se constituir um grupocontrole de indivíduos de 20 a 30 anos para permitir a comparação da largura do passo e do ângulo da marcha.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2. CRAIK, R.; DUTTERER, L. - Spatial and temporal characteristics of foot fall patterns. In: Craik RL, Oatis CA (ed) Gait Analysis Theory and Application. 1 ed St Louis: Mosby-Year Book, 143-58,1995.

3. MURRAY, M.P.; KORY, R.C.; CLARKSON, B.H. - Walking patterns in healthy old men. J Gerontol 24:169-78,1969.

4. WINTER, D.A.; PATLA, A.E.; FRANK, J.S.; WAL T, S.E. - Biomechanical walking pattern changes in the fit and healthy elderly. Phys Ther 70:340-7,1990.

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11. ELBLE, R.J.; THOMAS, S.S.; HIGGINS, C.; COLLIVER, J. - Stride-dependent changes in gait of older people. J Neurol 238:1-5 1991.

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13. BLANKE, D.J.; HAGEMAN, P.A. - Comparison of gait of young men and elderly men. Phys Ther 69:144-8,1989.

14. OBERG, T.; KARSZNIA, A.; OBERG, K. - Basic gait parameters: reference data for normal subjects. 10-79 years of age. J Rehabil Res Dev 30(2):210-31,1993.










Pesquisa realizada com o apoio da FUJB (Fundação Universitária José Bonifácio).

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