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Número atual: Dezembro 1997 - Volume 4  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Estudo ergométrico comparativo entre indivíduos portadores de fibromialgia primária e indivíduos normais sedentários


Lívia Maria dos Santos Sabbag1; Maristela Palácios Dourado2; Paulo Yazbek Jr.1; Cilene Abreu Cardoso Costa1; Gilson Tanaka Shinzato3; Margarida Harurni Miyazaki3; Helena Kaziyama4; Linamara Rizzo Battistella5

1. Médico cardiologista - Divisão de Medicina de Reabilitação-HCFMUSP.
2. Professora de Educação Física - Divisão de Medicina de Reabilitação-HCFMUSP.
3. Médico fisiatra - Divisão de Medicina de Reabilitação - HCFMUSP.
4. Médico fisiatra - Instituto de Ortopedia e Traumat%gia - HCFMUSP.
5. Professora Doutora, Diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação -HCFMUSP.


RESUMO

A fibromialgia (FM) é uma síndrome dolorosa crônica caracterizada por dor músculo-esquelética generalizada1,2,3,4,5 podendo resultar em imobilidade e inatividade física 6.
O presente estudo tem por objetivo comparar a resposta de pacientes sedentárias com fibromialgia primária e indivíduos sem patologias frente aos parâmetros do teste ergométrico (TE).
Submeteram-se a TE em esteira rolante, protocolo de Ellestad, dois grupos de pacientes sedentárias do sexo feminino: Grupo A (n = 12, média de idade 53,2 anos, portadoras de fibromialgia primária), Grupo B (n = 20, média de idade 51,6 anos, sem patologias). Os critérios de interrupção de TE foram: freqüência cardíaca máxima atingida, cansaço físico, dor e tontura. Não houve referência de precordialgia; não foram observadas alterações isquêmicas ou arritrnias durante o exame. O tratamento estatístico foi teste t de Student. Os resultados comparativos entre os grupos A e B mostraram que quanto à carga máxima comum e freqüência cardíaca final do teste não houve diferença significante entre ambos os grupos. O grupo A realizou menor tempo de exercício (2,1 %) e portanto, menor trabalho total (21,2%), reserva cronotrópica (11,2%), capacidade funcional (15,6%) e DPAS (15,8%).
Concluímos que ambos os grupos avaliados sob o aspecto de resposta cardiovascular e eletrocardiográfica ao esforço não mostraram evidências de isquemia ou deficiência da função ventricular esquerda. As pacientes do grupo A apresentaram capacidade funcional significantemente inferior as do grupo B. Os resultados sugerem que as limitações observadas são decorrentes do sistema músculo-esquelético.

Palavras-chave: Fibromialgia, Teste ergométrico.




INTRODUÇÃO

A fibromialgia é uma síndrome dolorosa crônica caracterizada por dor disseminada e presença de pelo menos 11 de 18 pontos de dolorimento específicos à palpação (Tender Points)1,2,3.4.5. Os sintomas mais característicos são fadiga, distúrbio do sono e rigidez matinal1.7.8.9.

Acomete com maior freqüência o sexo feminino1,9,10,11 e o início dos sintomas ocorre entre 30 e 40 anos1.

É classificada em fibromialgia primária (ausência de patologia subjacente ou concomitante), fibromialgia secundária (ocorre na presença de condição subjacente) e fibromialgia concomitante (apresenta concomitância com outra condiçaO)1.

De etiologia e fisiopatologia desconhecidas8.12, a doença pode ocasionar redução do tempo de vida produtiva e limitação das atividades ocupacionais por imobilidade e inatividade física6.

O presente estudo tem por objetivo comparar a resposta de pacientes sedentários com fibromialgia primária (grupo A) e indivíduos normais sedentários (grupo B) frente aos parâmetros do teste ergométrico.


MATERIAL E MÉTODO

Submeteram-se ao teste ergométrico (TE) em esteira rolante, protocolo de Ellestad, os dois grupos de pacientes. Os critérios de interrupção do exame foram: freqüência cardíaca máxima atingida, cansaço físico (avaliado pelo Indice de percepção ao esforço - Escala de Borg) Tabela 1, dor e tontura. Os parâmetros analisados do teste ergométrico foram:




  • Carga máxima comum - É a máxima carga atingida comum a todos os TE do grupo.
  • Tempo de exercício (min)
  • FC (bpm) = Reserva cronotrópica (bpm) - É a diferença entre freqüência cardíaca final e freqüência cardíaca inicial do TE13, 14, 15, 16, 17.
  • VO2 máximo (ml/kg/min) = Capacidade Funcional - E a capacidade de o indivíduo sintetizar aerobicamente ATP, sendo índice indireto de débito cardíaco máximo durante o exame (VO2 máx.=D.C. x diferença artério-venosa)13, 14, 15, 16, 17, 18, 19,20, 21.
  • PAS (mm Hg) - É a diferença entre pressão arterial sistólica final e pressão arterial sistólica inicial do TE17.
  • Trabalho Total (kgm) - É diretamente relacionado à carga de esforço22.
  • % FC máxima (atingida no TE) - Valor percentual da FC máxima preconizada para idade.


  • O tratamento estatístico foi o teste t de Student.


    CASUISTICA

    Foram avaliados dois grupos de pacientes do sexo feminino.

    Grupo A: n = 12, média de idade 53,2 anos, sedentárias, portadoras de fibromialgia primária.

    Grupo B: n = 20, média de idade 51,6 anos, sedentárias, sem patologias.


    RESULTADOS

    Não houve referência de dor precordial e não foram observadas alterações isquêmicas ou arritmias durante o exame, bem como manifestação clínica de insuficiência cardíaca. As respostas de FC, PAS e PAD ao esforço obedeceram as curvas normais. Do grupo A, 41,7% dos indivíduos cessaram TE por atingir a FC máxima preconizada para idade, 33,3% por exaustao e 16,7% por dor em membros membros inferiores (MMII) (Tabela 2).




    Os resultados comparativos entre os grupos A e B mostraram que, quanto à carga máxima comum, não houve diferença significante entre ambos os grupos (t > 0,05). O grupo A realizou menor tempo de exercício (2,1%) atingindo mais precocemente a exaustao e, portanto, realizando menores trabalho total (21,2%), reserva cronotrópica (11,2%), capacidade funcional (15,6%) e DPAS (15,8%). Embora o grupo A tenha atingido freqüência cardíaca final do teste maior que o grupo B, a diferença entre ambos não foi significante (Tabela 3).




    DISCUSSÃO

    Observamos que o grupo de pacientes sedentárias portadoras de fibromíalgia primária interrompeu mais precocemente o TE com cargas mais baixas e, portanto, menor Trabalho Total (21,2%).

    As pacientes do grupo A atingiram menor PC final no TE, porém sem valor estatístico. Observamos que não houve déficit cronotrópico, visto que a FC obedeceu a curva normal durante o exercício, descartando disfunção do nó sinusal e disfunção miocárdica 15,16.

    A reserva cronotrópica (PC) foi 11,2% menor no grupo A devido à PC inicial aumentada nessas pacientes devido a descarga adrenérgica ou maior limitação física (normalmente não conseguem realizar as AVDs devido à dor muscular) pois não houve significância estatística na diferença da PC final do teste entre ambos os grupos.

    Observamos que a capacidade funcional encontra-se diminuída de 15,6% no grupo A, mas ainda com valores normais pois não se observou VO2 máx. menor que 20 ml/kg/min. encontrado na insuficiência cardíaca.17.18.19.20.21.

    Houve menor DPAS no grupo A (15,8%), porém a resposta pressórica obedeceu a curva normal durante o esforço denotando uma boa função ventricular esquerda.


    CONCLUSÃO

    1) Ambos os grupos avaliados sob o aspecto de resposta cardiovascular e eletrocardiográfica ao esforço não mostraram evidências de isquemia ou deficiência de função ventricular esquerda.

    2) Pela comparação dos grupos, as pacientes portadoras de fibromialgia primária apresentaram capacidade funcional significantemente inferior às normais sedentárias.

    3) Os resultados sugerem que as limitações observadas no grupo A são decorrentes do aparelho músculo-esquelético.


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    Trabalho realizado na Divisão de Medicina de Reabilitação-HCFMUSP.

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