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Número atual: Abril 2000 - Volume 7  - Número 1


ARTIGO ORIGINAL

Encontro marcado: o adolescente deficiente físico e as relações humanas*


Maria Cristina Vitti Vieira1; Vera Lúcia Rodrigues Alves2

1. Psicóloga com formação em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae, Psicóloga da Divisão de Medicina de Reabilitação do HCFMUSP - São Paulo.
2. Mestre em Psicologia Social pela PUC - São Paulo, Diretora do Serviço de Psicologia da Divisão de Medicina de Reabilitação do HCFMUSP - São Paulo.


Resumo

Trata-se de uma exposição acerca da intervenção psicoterápica realizada com um grupo de dez adolescentes portadores de deficiência física de uma instituição de reabilitação. Foram enfocadas questões referentes à sexualidade e à deficiência. Nesse processo, foi demonstrado que, por trás das dúvidas, das dificuldades e dos conflitos, existia uma inquietação permanente por parte dos adolescentes e dos pais. Com respeito ao medo de não serem "encontrados" e amados pelo outro, percebeu-se que, subjacente a esse receio, havia também preconceitos, valores morais e padrões de beleza física advindos dos filhos e dos pais que poderiam dificultar as relações mais próximas. No decorrer dos atendimentos, foi se desenhando uma silhueta baseada no respeito e na ética que permitiu algumas reflexões sobre as relações humanas e o desenvolvimento pessoal de cada membro do grupo.



Esta é a história de um encontro. Encontro Marcado que consistiu no processo psicoterápico de um grupo com dez adolescentes portadores de paralisia cerebral, o qual se deu em um centro de reabilitação. Qualificou-se "marcado", não apenas pelo dia e hora definidos, mas, principalmente, porque deixou muitas marcas e será relembrado aqui o significado de algumas.

O objetivo é descrever uma das facetas que compôs esse trabalho, essas relações, em que o desabrochar do respeito, da solidariedade e da compreensão possibilitaram olhar e ser olhado. Dentre as conseqüências disso, será discutida a maneira como ocorreu a inserção desses adolescentes no meio social.
Três aspectos relevantes propiciaram a formação do grupo: o primeiro diz respeito à demanda dos profissionais da instituição, que observavam os adolescentes quase sempre aglutinados em pequenos grupos, expressando seus desejos sexuais por meio de risos, cochichos, contato físico ou conversas em alto som. Isso ensejou reuniões entre os profissionais na tentativa de discutir a inadequação desses comportamentos. Como segundo aspecto, observava-se que, sendo alunos de uma classe especial localizada dentro do centro de reabilitação, permaneciam longos anos na mesma série. Alguns não demonstravam motivação para o estudo e apresentavam, como conseqüência, baixo rendimento escolar. Mostravam- se apáticos, embora durante anos viessem assiduamente à instituição. Pairavam, portanto, dúvidas em relação à função que a escola e a instituição vinham exercendo na vida desses indivíduos. O terceiro aspecto diz respeito aos pais. Ao serem orientados, vários traziam queixas freqüentes relacionadas à sexualidade dos filhos. Algumas serão reproduzidas:

"Meu filho pede para ficar sozinho no quarto quando passo por perto; finjo não ver, mas vejo se pegando (masturbando). Fico sem jeito, sem saber o que fazer";

"Será que meu filho vai conseguir uma mulher que goste dele?";

"O pai tem vergonha de falar nesses assuntos; eu falo por cima, só um pouco";

"Minha filha briga, depois sai de manhã e volta à noite, não quer falar onde fica";

"Se ele é deficiente, por que vou levantar essa lebre, falar sobre sexo se não tem como fazer?".


Diante dessas controvérsias e receios, foi esclarecido aos pais sobre a importância de se tocar no assunto, criar condições para conhecerem as dúvidas dos filhos, mesmo que não soubessem respondê-las, e também sobre a idéia de iniciar um trabalho que possibilitasse falar sobre sexualidade e deficiência. Optou-se por grupo porque os adolescentes demonstram tendência a se agregarem nessa fase. O trabalho desenvolveuse durante, aproximadamente, 12 meses, com um encontro semanal com os jovens, e reuniu-se as vezes que foram necessárias com os pais, assinalando- lhes aspectos dos seus comportamentos que pareciam realimentadores do problema e, em alguns momentos, levando-os a refletir sobre certos pontos de suas relações com o filho, que exigiam redimensionamento.

Nos encontros iniciais, foram explicitadas perguntas e dúvidas. Detectou-se, também, os conflitos referentes ao assunto proposto. Surgiram várias idéias a respeito da palavra "sexo", que foram listadas.

Sexo é:

Coisa engraçada
Prazer
Arriscado
Prevenção
Amor
Gostoso
Coisa de homem e mulher
Coisa boa
Coisa ruim


Percebeu-se que não se tratava apenas de darlhes informações (muitas eles já demonstravam saber), mas que,por essas idéias iniciais sobre sexo, eles desejavam um outro caminho. Tratou-se, então, de proporcionar-lhes uma relação em que houvesse um espaço potencialmente favorável que permitisse e esclarecesse os conflitos. Tentou-se criar um espaço baseado no respeito mútuo e com limites estabelecidos, pois, para refletir sobre sexualidade, é necessária a aproximação, já que o tema implica intimidade e isso pode ser possível pela confiança. Esse caminho diz respeito a não dissociar sexualidade de sentimentos, dos conflitos, das relações e do contexto social. À medida que essa ponte foi sendo construída, apareceram questionamentos, idéias e posturas que denunciavam a maneira como esses jovens se viam e percebiam, na sociedade, as pessoas normais e deficientes.

Três tópicos serão destacados a seguir, os quais foram tomados como referência para associações posteriores.


SEXUALIDADE E CORPO

O adolescente, de forma geral, vê-se diante de uma série de transformações que se processam em seu corpo. Cria-se um sentimento de impotência diante dessa realidade e, no corpo, muitas vezes são depositadas ansiedades intensas. No caso de adolescentes com deficiência física, esse aspecto se acirra e, quando não têm a oportunidade de falar de suas angústias com respeito a isso, observam-se tendência ao retraimento, revolta persistente e duradoura. Essa questão pode desencadear na falta de perspectivas futuras, na passividade ou ainda, posteriormente, na utilização do corpo como forma de se colocarem na sociedade.


SEXUALIDADE E INDEPENDÊNCIA

Uma das metas principais da adolescência é a independência. Trata-se de transformar os vínculos infantis de relacionamento em outros mais maduros. Esse processo é muito doloroso, tanto para adolescentes quanto para os pais. Pensando nos adolescentes com deficiência, a dependência física da mãe ou do responsável dificulta a independência emocional. Muitas vezes, a mãe é quem os ajuda nas necessidades básicas. Dessa forma, discordar dos pais torna-se ainda mais contraditório, doloroso e dificulta essa passagem de existir separado e de se transformar em pessoa única.


SEXUALIDADE E O OUTRO

Imaginem o tamanho da ferida narcísica que representa reconhecer que somos incompletos e que necessitamos do outro para uma vida sexual adulta. O outro pode ou não nos querer; progressivamente a realidade vai-nos impondo suas condições. Freqüentemente, a mãe ou o pai é quem troca o adolescente com deficiência. Isso possivelmente aguça a culpa, já que seu mundo mental, nessa fase, encontra-se permeado de fantasias incestuosas. Por outro lado, esse aspecto também pode dificultar a ruptura com o vínculo parental e, conseqüentemente, impedir sua escolha por um(a) parceiro(a) amoroso(a). Por trás de tantas perguntas, dúvidas e conflitos, encontrava-se uma vertente primordial dos pais e dos filhos que, em vários momentos, foi explicitada pela questão: "Alguém vai gostar de mim (do meu filho) assim?". Essa indagação aparecia em conseqüência de um acontecimento real, como, por exemplo, diante de obstáculos com os quais se deparavam no dia-a-dia (olhares surpreendentes no Metrô, etc.). Dentre as intervenções realizadas, algumas ocorreram com a inversão da mesma pergunta, retratada pelo diálogo:

Psicóloga - Vocês são capazes de gostar de alguém assim?

Adolescente - Assim como? (de imediato) Sem andar, dependente?

Psicóloga - Sem andar é uma verdade, mas é sem conversar? É sem sentir? É sem gostar? Vocês são dependentes em quê? Têm idéias? Têm vontades?

Após várias discussões, às vezes havendo divergências entre eles, pôde-se encontrar respostas que significaram indícios de elaboração e de uma nova conscientização. Seguem algumas frases.

"Tem gente que trata a gente diferente";

"É chato não poder andar (Adolescente 1)... mas, o pensamento anda"(Adolescente 2);

"A gente sente vontade, desejo" (risos);

"Eu sei como faz para ter uma namorada".


Acredita-se que o saldo final do grupo esteve representado, no início de dois namoros, na procura de cursos, de esportes adaptados e na busca de uma nova escola na comunidade.

A seguir, serão feitas algumas articulações, as quais surgiram a partir de certas indagações relacionadas a esse processo, que foi denominado de Encontro Marcado.

Por que muitas pessoas se incomodavam com os comportamentos ditos "inadequados" desses adolescentes e qual o sentido de os púberes chamarem a atenção dessa forma? Sabe-se que existe uma coerção do ambiente para que o portador de deficiência esteja adequado ao máximo às condições sociais. No entanto, muitas vezes, o meio não aceita a maneira como se expressa e não lhe dá alternativas para que possa exercitar-se como pessoa única e diferente das demais. O que possivelmente esses adolescentes mostravam era que, no auge da descoberta dos impulsos sexuais, não havia espaço e atenção devidos dos pais, da instituição e da comunidade para essa vivência singular nesse momento da vida. Desse modo, com a criação do grupo, tornouse oficializada a atenção de que necessitavam para a problemática em questão.

Que direito têm os pais de privarem o adolescente de exercitar seus desejos quando se trata do filho portador de deficiência? Afinal, quando a mãe diz: "Se ele é deficiente, por que vou levantar essa lebre, falar sobre sexo se não tem como fazer?". É disso que ela nos fala.

Mesmo reconhecendo que houve evolução do respeito, dos direitos e deveres do portador de deficiência, verifica-se que os preconceitos e a intolerância permanecem ainda presentes na sociedade. Pode-se observar, inclusive, que o preconceito é extensivo à visão que o próprio deficiente tem de si e do outro semelhante a ele. Os deficientes considerados minorias sociais enfrentam dificuldades em serem percebidos como aptos para o exercício pleno da cidadania. Seguindo esse raciocínio, a cidadania pode ser entendida como o direito de viver a própria vida e viver em liberdade, na própria condição de ser diferente, para o alcance máximo das potencialidades. Desse modo, esse trabalho possibilitou movimento de consciência da percepção de que existem relações opressoras. Mas, à medida que esses jovens puderam olhar para si mesmos e foram sensibilizados a se apropriarem dos próprios desejos e do prazer, demonstraram-se mais livres e capazes de irem em busca de seus direitos. É necessário mencionar, também, que alguns mobilizaram as mães a irem em busca de outras atividades, impulsionando-as a saírem da imobilidade em que se encontravam há anos.

O que se espera de um trabalho clínico? Muitas vezes, quando esse trabalho é desenvolvido como parte integrante do processo de reabilitação, vários profissionais objetivam principalmente a adaptação dos portadores de deficiência na sociedade. Porém, é importante refletir sobre as restrições que isso pode acarretar. Por esse motivo, são necessárias as posturas na clínica que almejem alcances mais amplos.

Ter proporcionado a esses jovens espaço onde pudessem refletir sobre a visão preconceituosa e estereotipada acerca de si mesmos e do outro significou avançar na compreensão de qual é a posição de cada um nas relações sociais. E posicionar-se sem ter como parâmetro normalizar é um exercício de direito, cidadania e ética. No início, percebiam-se excluídos e achavam justo serem aceitos incondicionalmente por portarem deficiência. Era uma consciência restrita e compartimentalizada. A apatia, os longos vínculos institucionais e a justificativa de que era melhor ir à escola que fazer nada denunciavam uma postura alienante que restringia a própria condição de existir. Ao se depararem com o próprio preconceito, suplantaram a alienação, assumiram o poder sobre os desejos, sobre as sensações corporais e saíram em busca de outros caminhos indicando que mudanças poderiam acontecer.

Pode-se concluir que essa transformação deuse possivelmente baseada no surgimento de um outro ponto de vista ético que pôde ser experimentado no processo psicoterápico. Ou seja: perceber e respeitar o outro em uma relação em que a moral e a hierarquia de valores internalizados não dizem respeito apenas a um segmento isolado. Mas, necessita-se que juízos de valor e moral transitem em todos os encontros humanos que vislumbrem melhores perspectivas pessoais e sociais. Afinal, como disse Hélio Pellegrino, "...nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade".


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ABERASTURY, A. et al. - Adolescência, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1980.

2. ARAÚJO, A.V.S. - Percepção de portadores de desvantagem física, visual ou auditiva sobre pessoas portadoras de mesma e de diferente desvantagem. Dissertação de mestrado. PUC - São Paulo,1997.

3. OUTEIRAL, J.O. et al. - Donald Winnicott: estudos, Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

4. OUTEIRAL, J.O. - Adolescer: estudos sobre adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

5. SABINO, F.T. - O encontro marcado. Rio de Janeiro: Record, 1983.










* Trabalho apresentado no 1o Congresso Brasileiro da Federação Latino-Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência, realizado em 1, 2 e 3 de maio de 1988 - São Paulo.

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