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Número atual: Dezembro 2002 - Volume 9  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Densidade mineral óssea após lesão medular

Bone mineral status after spinal cord injury


Christina May Moran de Brito1; Linamara Rizzo Battistella2; Hatsue Sakamoto1; Elizabete Tsubomi Saito1

1.Médica Fisiatra da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
2. Médica Fisiatra, Diretora da Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Livre-Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


Endereço para correspondência:
Christina May Moran de Brito
R. Diderot, 43
CEP 04116-030 - São Paulo - SP
Tel.: (0xx11) 5549-0111 Fax: (0xx11) 5549-7501
E-mail: cmoranbrito@aol.com

Data de recebimento do artigo: 5/7/2002
Data de aprovaçao: 7/10/2002


RESUMO

A osteoporose é uma das reconhecidas complicações da lesão medular, mas na prática clínica muitas vezes tem sido deixada para segundo plano quando comparada às outras complicações decorrentes da lesão. Grande parte da perda óssea ocorre nos primeiros quatro a seis meses após a lesão e se estabiliza doze a dezesseis meses após. Ocorre em todos os segmentos, mas é mais acentuada nos segmentos paralisados, situando-se em torno de 4% ao mês em áreas ricas em osso trabecular e 2% ao mês em áreas com predomínio de osso cortical no primeiro ano após a lesão. A incidência de fraturas se situa entre 1% a 7% e estas são muitas vezes decorrentes de traumas mínimos. Os mecanismos envolvidos na perda óssea não estao totalmente esclarecidos. Trabalhos com ortostatismo e cinesioterapia não demonstraram benefício significativo no que diz respeito à redução da perda de massa óssea e trabalhos com estimulação elétrica funcional apresentam resultados divergentes, parecendo resultar em algum benefício local. O uso de medicação anti-reabsortiva parece constituir opção promissora, juntamente com a ingesta diária adequada de cálcio, mas estudos são ainda necessários para este fim. Este estudo teve como objetivo avaliar o impacto da lesão medular na densidade mineral óssea de 20 pacientes lesados medulares crônicos em acompanhamento ambulatorial na Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e possíveis fatores de influência sobre o padrao de perda óssea. Os métodos utilizados incluíram exames clínico e laboratorial e densitometria óssea de corpo inteiro. Foram incluídos nesse estudo 15 homens e 5 mulheres, entre 17 e 50 anos (mulheres até 35 anos), sendo 8 com tetraplegia e 12 com paraplegia, e o tempo de lesão variou de 10 meses a 10 anos. A avaliação densitométrica não evidenciou diferença significativa entre pacientes com e sem espasticidade. Também não houve correlação entre a porcentagem de massa magra e a densidade mineral óssea. A dissociação da densidade mineral óssea entre a coluna lombar e a pelve, com maior perda óssea em nível da pelve, foi um achado comum. A maior perda foi evidenciada em membros inferiores com média de -3,3 desvios-padrao em comparação ao pico de massa óssea do adulto jovem. Conclui-se entao que tanto pacientes tetraplégicos quanto paraplégicos apresentam perda óssea significativa, particularmente em pelve e membros inferiores, sem influência do grau de espasticidade.

Palavras-chave: Lesão medular. Osteoporose. Densidade óssea. Paraplegia. Tetraplegia.




INTRODUÇÃO

A osteoporose é uma das reconhecidas complicações crônicas da lesão medular1-13, mas na prática clínica muitas vezes é relegada ao segundo plano quando comparada às outras complicações decorrentes da lesão. A Organização Mundial de Saúde a define como uma condição clínica na qual existe uma perda óssea significativa, com uma redução de sua massa além de 2,5 desvios-padrao quando comparada através de densitometria óssea com o adulto jovem. Quando a perda óssea se situa entre 1 e 2,5 desvios-padrao é definida como osteopenia.

Grande parte da perda ocorre ao longo dos primeiros 4 a 6 meses após a lesão e se estabiliza entre o décimo segundo e o décimo sexto mês, quando a densidade de massa óssea chega a dois terços da inicial, e um terço da massa óssea é perdida ao longo dos primeiros 3 a 4 meses1-2,5-6. Essa perda ocorre inicialmente em todo esqueleto, restringindo-se mais tardiamente aos segmentos paralisados7-10. A perda nos segmentos paralisados é de cerca de 4% ao mês em áreas ricas em osso trabecular e 2% ao mês naquelas ricas em osso cortical, ao longo do primeiro ano. Na metáfise superior da tíbia, área particularmente rica em osso trabecular, a perda chega a 50% após 18 meses, enquanto na porção proximal do fêmur chega a 20% no mesmo período12.

Mecanismos que envolvem a perda óssea não estao totalmente esclarecidos1,3-4. A perda da tensão mecânica sobre o osso é certamente uma das causas. No entanto, não explica por si só a intensidade de perda óssea que se segue à lesão, estando implicadas: alterações neurovasculares secundárias a afecções do sistema nervoso autônomo, resistência ao fator de crescimento do tipo 1 e seu decréscimo13. Foi também sugerido que a lesão possa levar a alterações estruturais do colágeno, induzindo ao aumento de sua reabsorção6,13, ainda que a seqüência exata dos fatos não seja conhecida. A complexidade desses mecanismos explica o fato de que a perda óssea nesses pacientes é mais complexa do que naqueles que se apresentam restritos ao leito ao longo de um período prolongado5. O termo osteoporose neurogênica foi utilizado primeiramente por Albright et al.14 para descrever a atrofia óssea aguda simulando o hiperparatireoidismo.

A avaliação histomorfométrica pela técnica invasiva de biópsia óssea da crista ilíaca desses pacientes evidencia: o aumento da reabsorção óssea, a redução da formação óssea e o aumento do conteúdo de tecido gorduroso do osso5.

A perda de massa óssea leva à desestruturação óssea e ao aumento da fragilidade óssea, com aumento do risco de fraturas. Lazo et al.15 evidenciaram que o risco de fratura é no mínimo duplicado para cada um desvio-padrao de perda óssea em relação ao adulto jovem em nível do colo do fêmur, e que a medida da densidade mineral óssea neste local pode ser utilizada para quantificação do risco de fraturas em pacientes com lesão medular.

Nestes pacientes a incidência de fraturas situa-se entre 1% a 7%15-25, podendo ser decorrente de trauma mínimo durante atividades da vida diária16, exercícios de alongamento17, transferências18, ou durante estimulação elétrica funcional do músculo quadríceps19, e na maioria dos casos o paciente não se recorda do mecanismo de trauma20.

A perda é acompanhada por um amplo espectro de distúrbios metabólicos que podem ser avaliados por uma variedade de marcadores biológicos26-35, como o cálcio urinário, a hidroxiprolina e a piridolina urinárias (aminoácidos constituintes do colágeno), sobretudo na fase aguda. Mas no que diz respeito ao diagnóstico de osteoporose, a densitometria óssea constitui método preferencial. Finsen et al.36 demonstraram que o déficit de massa óssea nos membros paralisados aumenta progressivamente ao longo do tempo e a intensidade de perda óssea está relacionada à severidade da lesão e à capacidade para deambulação.

Biering-Sorensen et al.37 observaram, por meio de um estudo prospectivo de 3 anos, que há uma perda de 50% do conteúdo mineral do osso nos membros paralisados, particularmente no colo femural e na metáfise proximal da tíbia.

Um estudo avaliou o uso da tomografia computadorizada quantitativa na avaliação da osteoporose da coluna de 64 pacientes com lesões medulares e concluiu que este método seria superior à densitometria óssea para a avaliação da coluna de pacientes com lesão medular38.

No que diz respeito às intervenções terapêuticas, os estudos que procuraram avaliar o papel do ortostatismo e da cinesioterapia como medida de tratamento e prevenção tiveram resultados variáveis39-43. Estudos com uso de estimulação elétrica funcional demonstraram resultados variáveis44-50, parecendo haver algum benefício localizado, como demonstraram Bélanger et al.50. Quanto ao tratamento medicamentoso, os bisfosfonatos constituem um grupo terapêutico eficiente e seguro para o tratamento da osteoporose50,51, porém poucos são os estudos que avaliaram seus efeitos em pacientes com lesão medular52-57. Szollar21 sugere que a intervenção preventiva deveria ser iniciada um ano após a lesão e caso a avaliação densitométrica evidencie perda óssea significativa antes deste período, o tratamento deve ser iniciado ainda mais precocemente e sugere avaliação densitométrica semestral.

A existência da osteoporose como complicação é sabida; no entanto, na prática clínica, tem sido deixada para segundo plano quando comparada à atenção dedicada a outras complicações decorrentes da lesão, como: complicações cardiovasculares, respiratórias, gastrointestinais, urinárias, outras metabólicas, cutâneas, neurológicas, psicológicas, entre outras. Este estudo deve avaliar o impacto da lesão medular na densidade mineral óssea de pacientes lesados medulares crônicos em acompanhamento ambulatorial na Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (DMR - HC-FMUSP) e avaliar possíveis fatores de influência sobre o padrao de perda óssea.


MATERIAL E MÉTODOS

Entre maio e setembro de 2000 foram selecionados 20 pacientes do ambulatório de lesão medular da DMR - HC-FMUSP. Constituíram critérios de inclusão: lesão medular crônica Frankel A, B ou C, mulheres até 35 anos e homens até 50 anos, ou seja, pacientes sem motricidade funcional abaixo do nível de lesão e fora da faixa etária em que se inicia a perda óssea fisiológica. E constituíram critérios de exclusão: evidência de ossificação heterotópica em atividade, nefropatia, endocrinopatia, neoplasia, alcoolismo, gravidez, amamentação, uso crônico de corticóides, heparina e anticonvulsivantes, exame recente com radioisótopos e impossibilidade de posicionamento correto para realização de densitometria óssea.

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa - CAPPesq da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Todos os pacientes foram informados do conteúdo e da natureza do estudo e assinaram um termo de consen - timento de participação, quando optaram pela participação no estudo, e foram submetidos à história e aos exames clínicos laboratoriais para exclusão de possíveis causas secundárias de osteoporose. Os exames laboratoriais incluíram dosagem sérica em jejum de: glicose, uréia, creatinina, fosfatase alcalina, enzimas hepáticas, eletroforese de proteína, cálcio, fósforo, hemograma, velocidade de hemossedimentação e hormônios tireoidianos.

Foi realizada a avaliação densitométrica por meio de densitometria óssea de corpo inteiro, tendo em vista sua alta sensibilidade, acurácia e reprodutibilidade58-63, utilizando os seguintes critérios de avaliação: a densidade de massa óssea expressa em g/cm2 e os índices T (variação em relação ao pico de massa óssea) e Z (variação em relação a indivíduos do mesmo sexo, raça e faixa etária), expressos em DPs, seguindo critérios diagnósticos padronizados pela OMS. Os exames foram realizados no Setor de Densitometria Ossea do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP, com aparelho Lunar DPX (Figura 1).


Figura 1 - Paciente do protocolo sendo submetida à densitometria óssea de corpo inteiro no Setor de Densitometria Ossea do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP



RESULTADOS

Foram estudados 20 pacientes, 5 mulheres e 15 homens, 12 portadores de paraplegia e 8 de tetraplegia, com idade de 17 a 50 anos (média: 34,6 anos) e tempo de lesão de 10 meses a 130 meses (média: 36,4 meses). A etiologia mais freqüente de lesão foi ferimento por arma de fogo, 8 pacientes, seguida de acidente automobilístico, 7 pacientes, queda, 4 pacientes, e infecção, 1 paciente.

Nenhum dos pacientes referiu apresentar antecedente familiar sabido de osteoporose. A grande maioria era sedentária antes da lesão, tendo antecedente de atividade física regular apenas 2 pacientes do grupo-controle e 2 pacientes do grupo-tratamento. Dos 20 pacientes, 6 realizam condicionamento físico na Divisão de Medicina de Reabilitação do HC-FMUSP há no mínimo 6 meses. Para avaliação da espasticidade foi utilizada a escala de Ashworth modificada, tendo sido considerada espasticidade leve (graus 1 e 1+), moderada (grau 2) e acentuada (graus 3 e 4). Na avaliação, 12 pacientes apresentaram espasticidade leve, 5 pacientes apresentaram espasticidade moderada e 3 pacientes não apresentaram espasticidade.

A média da densidade mineral óssea (DMO) total foi de -1,2 desvios-padrao (DP) em relação ao índice T (pico de massa óssea), a DMO média em membros superiores foi de +0,3 DP e inferiores -3,3 DP em relação ao índice T. Estes últimos dois índices foram analisados em 17 dos 20 pacientes, pois o método de avaliação utilizado pelo aparelho só disponibiliza estes dados para pacientes com mais de 20 anos de idade. Os resultados encontram-se resumidos na tabela 1.




Não houve diferença significativa entre pacientes quanto ao grau de espasticidade ou quanto às diferentes etiologias das lesões, no que diz respeito ao padrao e à intensidade de perda óssea. Não houve diferença em relação à DMO em membros inferiores entre pacientes tetraplégicos e paraplégicos, confirmando os resultados obtidos por outros autores. Também foi confirmada a típica dissociação da desmineralização óssea entre a coluna e o quadril, sendo mais acentuada neste último. Outro fato a ser ressaltado é o de que a técnica empregada para avaliação da DMO total não possibilitou a discriminação regional em pacientes com menos de 20 anos, informando apenas a DMO corporal total, como já mencionado anteriormente.

O paciente 10 apresenta antecedente de ossificação heterotópica de quadril direito, fato que leva a superestimação da DMO local e conseqüentemente interferência na DMO total, no entanto não influi na avaliação de outras regioes64. Nenhum dos pacientes referiu antecedente de fratura.


DISCUSSÃO

Os resultados obtidos neste estudo corroboram outros achados de literatura, como aqueles encontrados por Szollar et al.22, que, ao avaliar a densidade mineral óssea de 176 lesados medulares, evidenciaram um decréscimo significativo de massa óssea, atingindo limiares de fratura em pelve e membros inferiores após 1 a 5 anos, o que não foi evidenciado em nível de coluna lombar, seja no grupo de pacientes tetraplégicos ou paraplégicos. Outro trabalho, publicado em 1998, com avaliação prospectiva de 55 lesados medulares ao longo do primeiro ano depois da lesão, com realização de densitometrias ósseas seriadas (oitava e vigésima quarta semanas) de coluna lombar, quadril, rádio distal e membros inferiores, evidenciou perda óssea significativa apenas em membros inferiores6.

A dissociação da desmineralização óssea entre a coluna e o quadril é tida como um achado típico dos pacientes com lesão medular3-4,8. Em contraste, as doenças endócrinas levam a perdas mais acentuadas em coluna lombar8. A literatura sugere que a preservação relativa da densidade mineral óssea em nível da coluna lombar seja decorrente da manutenção da carga proveniente da sedestação8.

A acelerada perda óssea implica na necessidade de avaliação densitométrica semestral no primeiro ano, e entao anual ou bianual na dependência da velocidade de perda óssea e da terapêutica empregada, para acompanhamento desses pacientes, de forma a evidenciar aqueles com maior risco de fratura21.

Neste estudo foram selecionados pacientes com mais de 6 meses de lesão medular, mas, idealmente, para obtenção de um grupo mais homogêneo a ser avaliado, devem ser selecionados pacientes em fase semelhante de perda óssea. Ao estudar pacientes crônicos, devem ser avaliados pacientes que já se encontrem na fase de estabilização de perda óssea, que se situa entre 12 e 16 meses após a lesão5. Sendo assim, devem ser selecionados pacientes com mais de 16 meses de lesão. Poderiam ainda ser utilizados marcadores bioquímicos de perda óssea para complementação do estudo, mas estes são mais relevantes sobretudo na fase aguda26-33.

Quanto à terapêutica a ser utilizada, ainda não existe um consenso. Trabalhos com o uso de cinesioterapia são ainda escassos e os poucos trabalhos disponíveis na literatura envolvem pequeno número de pacientes e curto acompanhamento, o que dificulta avaliação de possíveis benefícios, e até o momento não há comprovação de resultados significativos. Estudos envolvendo terapêutica medicamentosa também são poucos, mas parecem constituir intervenção promissora, particularmente os bisfosfonatos, devendo também ser empregadas doses diárias adequadas de cálcio. A intervenção deve ser, idealmente, iniciada precocemente, uma vez que grande parte da perda óssea ocorre nos primeiros 16 meses. A calcitonina pode constituir uma alternativa, mas ainda necessita de maior número de estudos para avaliar seu papel e benefício.


CONCLUSÕES

O paciente lesado medular apresenta perda óssea acentuada, sobretudo em membros inferiores, fazendo com que o limiar de fratura seja atingido já nos primeiros anos após a lesão. A perda ocorre em todos os segmentos, mas é mais acentuada em membros inferiores, seja em pacientes paraplégicos ou tetraplégicos. Não houve diferença significativa quanto ao grau de espasticidade ou quanto às diferentes etiologias das lesões, no que diz respeito ao padrao ou à intensidade de perda óssea neste estudo. Não houve diferença em relação à DMO em membros inferiores entre pacientes tetraplégicos e paraplégicos, confirmando os resultados obtidos por outros autores. Neste estudo foi confirmada a típica dissociação da desmineralização óssea entre a coluna e o quadril, sendo mais acentuada neste último.


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