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Número atual: Agosto 2001 - Volume 8  - Número 2


TENDÊNCIAS E REFLEXÕES

O fisiatra trata do quê?


Marcelo Saad

Médico Fisiatra, Mestre em Reabilitação pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM), Secretário-Geral da Sociedade Brasileira de Medicina Física e de Reabilitação, gestão 99-01, Médico Assistente da Divisão de Medicina de Reabilitação do HC-FMUSP e da Disciplina de Fisiatria da UNIFESP-EPM


Endereço para correspondência:
Prof. Dr. Marcelo Saad
Rua Diderot, 43
São Paulo - SP-CEP 04116-010
E-mail: msaad@uol.com.br


Data de recebimento do artigo: 28/11/00
Data de aprovação: 20/2/01


Resumo

A Fisiatria é talvez a especialidade médica que mais traga para o centro da atenção a integração biopsicossocial do ser humano. Além de se preocupar com a doença, preocupa-se também com o modo como esta doença impede o indivíduo de ser uma pessoa completa. Talvez a Fisiatria tenha sido uma revolução entre as especialidades médicas. Ela trouxe um conceito tão inovador que, mesmo passadas tantas décadas, ainda tentam delimitar exatamente qual o campo de atuação da Fisiatria. Ela talvez dê oportunidade de se exercer a medicina de uma forma mais espiritualizada. O problema do esclarecimento da população e da classe médica sobre a Fisiatria exige nosso empenho paciente e desprovido de irritação diante da desinformação.

Palavras-chave: Fisiatria. Reabilitação. Especialidades médicas.




O fisiatra trata do quê? Esta pergunta é sempre problemática, pois não tem uma resposta pronta e única. Todas as tentativas de simplificação deixam de fora elementos importantes. A resposta só pode ser quilométrica ou incompleta. Isto é um dos fatores que tem dificultado a divulgação da especialidade entre leigos e mesmo entre médicos.

Em outras especialidades médicas, o campo de atuação parece mais claro. A maioria das especialidades aborda especificamente órgãos ou sistemas (como a cardiologia, a pneumologia, a gastroenterologia, etc.). Algumas abordam grupos de patologias (como a reumatologia e a oncologia) e outras abordam procedimentos médicos diagnósticos ou terapêuticos específicos.

A Fisiatria aborda a funcionalidade. Mas, afinal de contas, o que é isto? No meu entender, é a abordagem do ser biopsicossocial. Vou me permitir usar um discurso já tão batido e desgastado, mas que talvez seja o mais coerente. O ser humano depende de um sistema integrado de elementos físicos, mentais-emocionais e ambientais para seu equilíbrio. Isto é levado em consideração nesta definição da Organização Mundial de Saúde: "Saúde é um estado de bemestar biopsicossocial, e não apenas a ausência de doença". O conceito da integração biopsicossocial é freqüentemente negligenciado na prática, mas deveria ser o ponto focal de qualquer prática de saúde. As faculdades de medicina primam pelo estudo da doença, e o conceito de saúde tem ficado em segundo plano, como o resultado da cura da doença. Isto também está arraigado no pensamento popular, pois ninguém vai ao médico se não estiver doente. Tudo vem reforçar o modelo mecanicista do corpo como máquina que precisa apenas ser consertada.

A Fisiatria é talvez a especialidade que mais traga para o centro da atenção a integração biopsicossocial do ser humano. Algumas especialidades médicas podem abordar dor ou paralisia, mas a Fisiatria vai mais adiante. Além de se preocupar com a dor, também leva em conta como esta dor impede o indivíduo de trabalhar. Além de se preocupar com a paralisia, também leva em conta como esta paralisia impede o indivíduo de barbear-se. Além de se preocupar com a doença, também leva em conta como esta doença impede o indivíduo de ser uma pessoa completa.

Não há especialidades melhores que outras, mas talvez a Fisiatria tenha sido uma revolução entre as especialidades médicas. Ela trouxe um conceito tão inovador que, mesmo passadas tantas décadas, ainda se tenta delimitar exatamente qual o campo de atuação da Fisiatria. Talvez ainda demore mais algum tempo para definir uma especialidade que atenda bebês com meses de vida a pessoas com idade avançada; que faça da prevenção da lombalgia à reabilitação da tetraplegia; que tenha interface virtual com todas as outras especialidades médicas.

A definição da Fisiatria só será perfeita quando a medicina amadurecer o conceito do ser biopsicossocial e o empregue além do modelo puramente teórico. Quando isto acontecer, ficará claro que a Fisiatria seja talvez a oportunidade de se exercer a medicina de uma forma mais espiritualizada. Ela resgata a pessoa que estava soterrada sob a deficiência, e por isto demanda uma capacidade de interesse pelo ser humano à frente do profissional.

Porém, resta o problema do esclarecimento da população e da classe médica sobre a Fisiatria. Não adianta repetir as definições encontradas nos tratados de medicina física e reabilitação; é necessário verificar quais os conceitos estão sendo divulgados em larga escala. Nos descritores de assuntos da base de dados Medline, não há Physiatry, mas há Physical Medicine, que é conceituada como uma especialidade médica comprometida com o uso de agentes físicos, aparatos mecânicos e manipulação na reabilitação de pacientes fisicamente doentes ou lesados. Na mesma fonte, Rehabilitation é interpretada como restauração ao máximo grau possível de uma pessoa sofrendo de uma doença ou lesão [minha tradução livre do inglês, nos dois casos].

Quanto aos médicos, é preciso lembrar que a esmagadora maioria dos colegas em atividade não teve esta disciplina na faculdade. Isto deve ser levado em consideração antes de se criticar o colega desinformado. A irritação com o desconhecimento apenas serve para aumentar o distanciamento. São necessários tolerância e um trabalho pedagógico solidário para reverter este quadro, ao mesmo tempo que a Fisiatria vai entrando aos poucos nos currículos das faculdades.

Já o leigo desavisado tem a imagem do fisiatra como o "médico fisioterapeuta". Antes da explosão de cólera diante da ignorância, os fisiatras devem se lembrar que o termo "Fisioterapia" fez parte da Sociedade Brasileira de Medicina Física e de Reabilitação em seus primórdios, na década de 1950. Assim, ninguém está autorizado a atirar a primeira pedra. Mais uma vez, o esclarecimento paciente por parte do fisiatra é a solução temporária. A solução a longo prazo pode surgir dos atuais programas de divulgação à população pelos espaços sociais que os portadores de deficiência vêm conquistando. A SBMFR tem sido atuante em todas as frentes possíveis.

Embora seja difícil colocar em palavras, um paciente tratado por um fisiatra sabe o que ele faz. Residentes de outras especialidades que estagiam na Fisiatria testemunham seu valor insubstituível, embora possam ter dificuldade em expressar isto em palavras. Se uma imagem vale mil palavras, experimentar a Fisiatria é mais eficiente que definila. Peço desculpas se frustrei o leitor deste artigo que veio atrás da tão esperada resposta pronta à pergunta "O fisiatra trata do quê?". O objetivo do artigo era justamente confundi-lo mais ainda com idéias sobre as quais, às vezes, nem os próprios fisiatras se detêm para refletir.

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