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Número atual: Dezembro 2004 - Volume 11  - Número 3


ARTIGO ORIGINAL

Análise do ritmo lombar e pélvico durante a flexoextensão da coluna vertebral em duas condições de simulação de levantamento de carga em policiais militares saudáveis

Analysis of the lumbar and pelvic rhythm during trunk flexion-extension in two load lifting conditions simulated in healthy policemen


Claudia de Oliveira e Silva1; Linamara Rizzo Battistella2; Christiane Akie Kavamoto3; José Augusto Fernandes Lopes4; Jeane Cintra Peixoto de Vasconcelos5

1. Médica fisiatra do Hospital da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
2. Médica fisiatra, Diretora da DMR HC FMUSP.
3. Médica fisiatra assistente da DMR HC FMUSP.
4. Mestre e engenheiro da DMR HC FMUSP.
5. Fisioterapeuta da DMR HC FMUSP.


Endereço para correspondência:
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Recebido em 11de Novembro de 2004, aceito em 05 de Dezembro de 2004


Resumo

O objetivo deste estudo foi correlacionar a atividade muscular e cinemática do movimento lombar e pélvico durante a flexo-extensão da coluna lombar em duas condições diferentes: com joelhos estendidos e flexionados (durante o agachamento).
CASUÍSTICA E MÉTODOS: trinta e seis policiais militares jovens do sexo masculino do Regimento de Cavalaria da Policia Militar de São Paulo foram recrutados, porém apenas dezenove voluntários (22,9 ± 2,3 anos) preenchiam os critérios de inclusão de ausência de história de dor lombar e ou deformidades na coluna vertebral. Foram realizadas análises tridimensionais com marcadores retro-refletivos nas apófises espinhosas de L1, L3 e S1, espinhas ilíacas ântero-superiores, trocânteres maiores, fulcros laterais dos joelhos e maléolos laterais, de ambos os movimentos acima combinados, além da eletromiografia dinâmica de superfície dos músculos extensores lombares, isquiotibiais, retos abdominais e retos anteriores da coxa.
RESULTADOS: durante os movimentos com os joelhos estendidos, a atividade dos músculos extensores lombares foi sincronizada com os isquiotibiais e alternou com os retos abdominais. Ocorreu contração dos músculos reto abdominal em 15 indivíduos durante o final da flexão do tronco, enquanto que em quatro não houve atividade destes músculos. A atividade dos extensores lombares decresceu até cessar antes do término da flexão total. O agachamento revelou a substituição do padrão de ativação de dupla onda pela atividade contínua dos músculos extensores lombares.
DISCUSSÃO: variações intra e interindivíduos foram observadas e podem influenciar nos exames. Nossos resultados refletiram as diferenças no padrão de ativação muscular no ritmo lombar pélvico nas 2 diferentes condições estudadas.
CONCLUSÃO: o ritmo lombar-pélvico esteve presente nos dois movimentos estudados com participação ativa dos músculos isquiotibiais e paraespinhais

Palavras-chave: biomecânica; cinemática; coluna vertebral; eletromiografia; região lombossacra.




INTRODUÇÃO

As alterações mecânico-posturais são apontadas como uma das causas de dor lombar baixa1,2,3,4, sendo a sobrecarga uma das fontes conhecidas de lesão lombar imediata, juntamente com a fadiga mecânica secundaria a movimentos repetitivos ou manutenção de uma postura estática incorreta, somados a alguns fatores psicossociais já descritos: stress, monotonia e insatisfação com o ambiente de trabalho5,6,7.

Não há dados estatísticos nacionais sobre a incidência e prevalência da lombalgia na população militar. Brown et al7 comparou a prevalência de lombalgia em 1002 membros da policia montada canadense com policiais motoristas de viatura, com outros que usavam o cinto com coldre e munição e com a população geral. Este concluiu que a prevalência de lombalgia dos membros da policia montada é semelhante à população geral e aos outros policiais.

Os músculos isquiotibiais foram pouco estudados e há alguma divergência quanto à metodologia usada na sua avaliação, mas acredita-se que suas funções principais, além da flexão do joelho, sejam a desaceleração da flexão do quadril na fase de balanço da marcha e na flexão do tronco8,9,10,11.

Os extensores espinhais não atuam isoladamente durante a extensão lombar, mas, juntamente com a musculatura isquiotibial. Esta última, atua na inclinação posterior da pelve e na restrição da anteriorização da mesma, durante movimentos de flexo-extensão da coluna, contribuindo para este movimento lombar e pélvico, ou ritmo lombar-pélvico4,9,10.

Os estudos da biomecânica lombar têm desenvolvido modelos que procuram simular movimentos corporais da rotina diária, mas, ainda são limitados na representação da atividade muscular, principalmente na quantificação dos movimentos com contração não isométrica dos diversos segmentos corporais segundo Granata et al12. As quantificações do traçado eletromiográfico têm sido realizadas com mais sucesso com as contrações isométricas, no entanto, os muitos movimentos do cotidiano, os quais requerem contrações repetitivas com baixa intensidade, sendo a minoria de isométricos, um dos grandes responsáveis por lesões variadas na coluna vertebral, segundo Mueller et al13. A quantificação das contrações isotônicas, presentes em muitos movimentos do cotidiano tem sido alvo de muitas pesquisas ainda em processo de validação.

As avaliações da biomecânica lombar têm sido limitadas por itens de difícil mensuração como força muscular, tensão ligamentar e pressão intra-abdominal e carga à qual a coluna é submetida. Também são importantes os fatores antropométricos14,15 como peso, altura, bem como características como idade e sexo. Todos esses fatores são ainda fortemente influenciados por outros subjetivos como a presença de dor lombar4,16,17 , principalmente quando associados a características psicossociais de cada individuo avaliado2,4,5,7,8,14, mesmo que por métodos validados na literatura cientifica.

Tais estudos analisam a cinemática e o comportamento muscular durante a mobilidade corporal segmentar ou global através de um sistema óptico-elétrico associados ou não a eletromiografia dinâmica de superfície (por exemplo, laboratórios de análise de movimento, também conhecidos como laboratório de marcha), os quais mostraram-se de grande valia para a compreensão do comportamento muscular que contribui para o ritmo de movimentação lombar e pélvico.

Os estudos com eletromiografia de superfície (EMG) têm sido realizados desde a década de 195018 e demonstraram que durante a flexo-extensão da coluna lombar o movimento de flexo-extensão lombar é combinado com a inclinação da pelve, ou ritmo lombarpélvico, o qual é controlado pelos músculos espinhal lombar e pelos músculos isquiotibiais, mas em diferentes tempos de atividade2,3,9,10,19.

Sihvonen et al19 verificaram que nos últimos graus de flexão do tronco a atividade dos isquiotibiais é maior que os espinhais, ambos cessando sua atividade quando a flexão é totalmente alcançada durante a flexo-extensão com os joelhos estendidos. A atividade dos IQT durante a extensão do tronco inicia-se 40 milissegundos após a ativação dos espinhais.

Estudos sugeriram que esta alteração no ritmo lombar-pélvico dos indivíduos com antecedentes de lombalgia seja devida a uma alteração na atividade dos músculos isquiotibiais, com maior tensão9,10,20, prejudicando a rotação da pelve nos estágios iniciais da extensão, produzindo uma maior extensão da pelve, porém sem relação com o comprimento destes músculos2.

Essa mesma tecnologia foi usada em outros estudos18,21,22 que discutiram a postura lombar (com ou sem hiperlordose) e o stress através de medidas da pressão interna sobre a coluna vertebral durante a extensão do tronco, com flexão dos joelhos, na presença de carga progressiva, associado a quantificação da atividade eletromiográfica da musculatura paraespinhal, conforme descritos na revisão de Cheren5. Tais estudos mostraram que tanto a quantificação da atividade isométrica pelo EMG, como da pressão intra-abdominal dão fortes indícios que os grupos musculares da parede abdominal (reto-abdominais, oblíquos externo e interno) e os dorsolombares são elementos responsáveis pela configuração da lordose lombar bem como da estabilidade da coluna vertebral, principalmente nas situações de elevação progressiva de carga. No entanto, Cheren5 encontrou divergências entre dois estudos22,23 referente a se a hiperlordose lombar contribuiria com maior estabilidade da coluna lombar, com aumento progressivo de carga, ressaltando as variações tecnológicas e metodológicas presentes na maioria dos trabalhos de análise de movimento.

Estudos comparativos sobre a melhor postura para o levantamento de carga são poucos e também com metodologia variada. Mueller et al13 estudaram a pressão intrabdominal e intramuscular do músculo paraespinhal e concluiu através da EMG com isométrico desses músculos, que a pressão intrabdominal e intramuscular aumenta com o aumento da carga. Houve também aumento de ambas pressões na postura de flexo-extensão com joelhos entendidos, o qual foi maior que na postura de agachamento, durante a elevação isométrica com carga progressiva. Dolan et al24 concluíram que a velocidade do movimento do tronco, além da carga, eram fatores importante que podem também contribuir na etiopatogenia das lesões discais lombares.

Considerando os fatores descritos acima, o objetivo deste estudo é avaliação comparativa do ritmo lombar-pélvico em duas condições de simulação de levantamento de carga: durante a flexoextensão do tronco com joelhos entendidos e no agachamento com os joelhos flexionados, em policiais militares do sexo masculino sem história de lombalgia.


CASUÍSTICA E MÉTODOS

Casuítica


Trinta e seis alunos soldados admitidos no Regimento de Cavalaria da Policia Militar do Estado de São Paulo em fevereiro de 2002 foram convidados a participar deste estudo. Todos os voluntários eram jovens do sexo masculino e foram submetidos a um mesmo treinamento físico (aulas de condicionamento, fortalecimento e alongamentos) e militar durante dez meses antes da avaliação inicial. Foram incluídos aqueles indivíduos que, na anamnese, negaram qualquer antecedente de dor lombar, não apresentavam desvios posturais (cifose, escoliose e gibosidades) e apresentaram ausência de anormalidades à radiografia de coluna lombar (espondilolisteses, espinha bífida, hemivértebras ou dismetrias de membros inferiores no escanograma, por exemplo).

A amostra inicial de 36 voluntários foi reduzida para apenas 19, pois houve a exclusão de indivíduos em virtude de antecedente de dor na região dorsolombar (9), pequenos desvios posturais (4), alterações radiológicas (4). Entre os voluntários que permaneceram no estudo, média de idade foi de 22,9 ± 2,2 anos, enquanto a média de altura foi de 176,5 ± 6,6 cm e de peso foi 73,4 ± 10,0 kg. A média de teste de Schober modificado foi de: 4,9 ± 0,5 cm e a média da prova índex-chão foi de 2,1 ± 2,8 cm. Todos os voluntários assinaram um "Termo de consentimento livre e esclarecido" indicando que concordavam com a participação no estudo.

Métodos

A avaliação clínica e radiológica, realizada em dezembro de 2002, incluiu: a observação da postura em ortostatismo de frente e perfil e a observação de postura em flexão máxima do tronco com joelhos estendidos, para verificação de gibosidade, bem como aplicação de testes clínicos como teste de Schober modificado e prova índex-chão.

Para o estudo da cinemática, foram usados marcadores retrorefletivos posicionados sobre a pele, nas apófises espinhosas das vértebras L1, L3 e S1, e bilateralmente nas espinhas ilíacas ânterosuperiores, nos trocânteres maiores, nos fulcros laterais dos joelhos e nos maléolos laterais.

Os eletrodos para a captação do sinal de EMGs da marca Noraxon, Myosystem 2000 foram posicionados sobre o ventre muscular dos seguintes músculos na localização dos pontos motores: paravertebrais (há 2,0cm coluna vertebral), retos abdominais (supra e infraumbilicais), isquiotibiais (lateral e medial), reto anterior da coxa e eletrodo de referência localizado na região pré-tibial.

Foi realizada avaliação com equipamento de análise de movimento tridimensional, Motion Analysis (MTA), conhecido como Laboratório de Marcha, para análise dos movimentos, ambos partindo da posição ortostática: de flexo-extensão do tronco com joelhos estendidos, no qual as pontas dos terceiros quirodáctilos alcançaram, os tornozelos e também flexo-extensão do tronco com agachamento (com flexão dos joelhos) simulando o pegar uma caixa sem a elevação da mesma.

Após treinamento, cada voluntário executou, por três vezes, cada movimento descrito acima. Para o processamento e gravação no Software MTA, cada vokunrtário teve seis segundos para executar cada movimento.

A análise estatística realizada comparando as médias e desviospadrão foram feitas através do Teste t de Student, nas variações de velocidade angular (graus/seg), tempo (segundos) e Teste de Schober modificado (cm) e variante de Wilcoxon na variação do teste de Índex-chão (cm).


RESULTADOS

Análise cinemática


Conforme demonstra tabela 1, a comparação entre os tempos necessários para flexo-extensão nas duas posições não apresentou diferença estatisticamente significativa (p > 0,005), tanto na flexão quanto na extensão. Já a velocidade angular comparativa mostrou que o movimento de agachamento foi significativamente maior que na flexo-extensão com joelhos estendidos (p < 0,005), tanto na flexão como na extensão (tabela 2).






Análise do EMG

Como pode ser observado no Figura 1, sobre os dados de EMG de superfície, os músculos paraespinhais cessaram sua atividade antes da flexão total e iniciam sua atividade na extensão segundos após o inicio do movimento de extensão, conforme linha de silêncio elétrico no centro de ambos os traçados dos músculos paraespinhais direito e esquerdo. A atividade do EMG na extensão foi maior. No mesmo gráfico, observou-se que os traçados dos músculos isquiotibiais comportaram-se de forma semelhante aos traçados dos músculos paraespinhais, também com atividade maior à extensão, porém discretamente anterior à ativação desses últimos. Durante a extensão do tronco, tal atividade do EMG pareceu iniciar junto com o movimento de extensão do tronco.


Figura 1. Joelhos estendidos.



Com os joelhos estendidos não houve atividade do músculo reto abdominal em quatro voluntários. Nos outros, esta ocorreu apenas no final de flexão, quando não foram observadas atividades dos músculos paraespinhais. Conforme tabela 3, a diferença observada nos testes de flexibilidade não foi estatisticamente significativa ao comparar o teste de Schober modificado e a prova index-chão, bem como o IMC (Índice de Massa Corpórea) desses quatro voluntários com os outros quinze que apresentaram atividade do músculo reto abdominal (p > 0.05).




Não houve atividade eletromiográfica dos músculos retos anteriores das coxas durante todo o movimento de flexo-extensão com joelhos extendidos.

Conforme Figura 2, durante o agachamento a atividade EMG dos músculos paraespinhais foi contínua e discretamente maior durante a extensão do tronco. Comportamento semelhante observou-se com os músculos isquiotibiais, também com atividade contínua durante todo o movimento.


Figura 2. Joelhos fletidos (agachamento).



Já os músculos quadríceps apresentaram atividade no final da flexão do tronco e no inicio da extensão do mesmo.

Os músculos abdominais não apresentaram atividade durante qualquer fase do movimento em nenhum voluntário.


DISCUSSÃO

A grande maioria dos estudos que avaliaram os movimentos da coluna vertebral, com ou sem modelos e tecnologias validadas na literatura internacional, referiram a presença dos fatores individuais influenciando nos resultados (cinemática e atividade do EMG).

Nosso estudo acabou avaliando uma amostra reduzida, o qual incorre em erro do tipo 2, que ocorre quando se trabalha com amostras muito pequenas. Nessas situações, diferenças reais, porém de pequena monta podem passar despercebidas, sendo consideradas estatisticamente não significativas, o que ocorreu em todas as análises comparativas realizadas. Nessa situação, rejeita-se uma hipótese verdadeira em decorrência de um artefato estatístico.

Quase todos os trabalhos encontrados utilizaram amostras pequenas, cerca de quinze a trinta voluntários. À exceção de Arena et al14, Rissanen et al4,25 e Sihvonen et al19, os quais avaliaram mais de cem pacientes de ambos os sexos e idades diversas, com e sem lombalgia de diversas etiologias. Ambos os estudos foram obrigados a estratificar as amostras, formando pequenas amostras mais homogêneas, semelhantemente ao nosso estudo.

Por este motivo este estudo procurou estudar uma amostra o mais homogênea possível, mesmo que isto fosse impossível: indivíduos do sexo masculino, sem antecedentes de dor lombar, sem deformidades a radiografia simples de coluna e ao escanograma de membros inferiores. Os dezenove voluntários avaliados pertenciam a uma mesma amostra populacional, ou seja, de profissionais militares que ingressaram num mesmo setor, Regimento de Cavalaria, numa mesma época, os quais foram submetidos a um mesmo treinamento físico e preparação militar durante dez meses antes de serem recrutados para a avaliação clinica inicial deste estudo.

Nowen et al8 citou em seu estudo os fatores emocionais e diferenças físicas, de sexo e antropométricas, avaliados respectivamente, através de questionários sobre dor e qualidade de vida e avaliações físicas, influenciando nos traçados eletromiográficos, principalmente, na vigência de processos patológicos de coluna vertebral.

Nelson et al16, descreveu a presença de artefatos influenciando na aquisição dos movimentos, como o movimento da pele e do peso corporal. Tais artefatos no nosso estudo foram visualizados através da mobilidade dos marcadores e sensores de EMG durante a execução dos movimentos, tanto na flexo-extensão como no agachamento.No agachamento as presenças dos fatores individuais foram mais marcantes. Embora cada indivíduo tenha sido previamente treinado e orientado antes da gravação dos resultados, foi impossível eliminar a forma com que cada indivíduo executa o agachamento.

Por exemplo, alguns indivíduos apresentaram rotação externa do fêmur no pico do agachamento por vezes, com a coluna lombar mais retificada, enquanto outros apresentaram maior flexão do tronco, devido às variações individuais, que no nosso estudo foram impossíveis de eliminar. Uma tentativa de padronização acarretou movimentos não naturais para alguns e até desequilíbrios para outros.

Cinemática

Tanto na flexo-extensão com os joelhos estendidos como no agachamento, ocorreu a presença do movimento lombar e pélvico. Embora vários estudos tenham avaliado comparativamente a flexoextensão com joelhos estendidos, de indivíduos com e sem lombalgia, de ambos os sexos e de idades variando de jovens a idosos, e tenham relatado alterações na mobilidade lombar e pélvica causada, principalmente, por uma maior restrição na mobilidade da pelve e, consequentemente, uma maior velocidade no movimento da coluna lombar no inicio do movimento de extensão, conforme estudos de McClure et al, em 19973 e Esola et al em 19952. Na extensão, alguns trabalhos mostraram que, a partir da flexão total, ocorre inicialmente a rotação posterior da pelve seguido da extensão do tronco, segundos após.

Nosso estudo sugere que para se pegar um objeto no chão o agachamento apresenta maior velocidade, conforme achado estatisticamente significativo. Dolan et al24, em seu estudo sugere que a velocidade do movimento também pode contribuir para lesão dos complexo discais intervertebrais, durante o movimento de agachamento com diferentes cargas e velocidade de execução mas, não fez comparação com outros movimentos e sim , com posturas estáticas para analisar as contrações isométricas deste. No entanto, sabe-se que os músculos isquiotibiais são biarticulares e sua ação além da flexão do joelho, atua na extensão da pelve. Segundo Kapandji26, a tensão deste músculo ocorre progressivamente, à medida que a pelve flexiona mais que 90º, ocorrendo um aumento da eficácia dos isquiotibiais em flexionar o joelho, o que pode contribuir para este aumento na velocidade angular.

Mueller et al13 descreveram que o movimento com agachamento apresenta menor pressão intramuscular e intrabdominal que na flexo-extensão com joelhos estendidos. Porem, este realizou seu estudo com movimentos isométricos, que ocorre com menor freqüência no dia a dia.

EMG

A queda súbita da atividade do EMG paraespinhal observada na extensão do tronco, durante o movimento de flexo-extensão com os joelhos estendidos, é conhecido com o fenômeno de "Flexão-Relaxamento". Este fenômeno parece também ser responsável pela estabilidade lombar.

Duas razões podem explicar tal fenômeno: a limitação na mobilidade da vértebra lombar durante o movimento e as repetições e a distensão dos ligamentos intervertebrais, articulações facetárias e da musculatura local, os quais foram também descritos nos estudos de Gracovetsky et al21,22.

Ao analisar o traçado EMG dos paraespinhais de cada voluntário observou-se que o movimento de extensão iniciou-se pouco antes da atividade destes músculos extensores. A EMG durante a extensão, no nosso estudo, mostrou a atividade dos músculos extensores lombares foi maior que durante a extensão, provavelmente, devido a resistência imposta pela gravidade.

Sihvonen et al19 em seu estudo observou a participação de outros músculos, principalmente, dos músculos isquiotibiais na rotação da pelve. No seu estudo comparativo com indivíduos com antecedentes de dor lombar, este sugeriu a presença de uma menor mobilidade da pelve devido a uma maior tensão nos músculos isquiotibiais, nestes últimos pacientes.

No presente estudo, os músculos isquiotibiais durante a flexoextensão foi semelhante ao comportamento muscular dos músculos paraespinhais, com maior atividade também na extensão. No entanto, sua atividade pareceu concentrar-se mais no final da flexão e no inicio da extensão.

Sua atividade, porém, iniciou-se pouco antes do movimento de extensão, influenciando na rotação da pelve. Tal fenômeno também foi observado por Portnoy, em 195519 e Sihvonen et al19 e, indiretamente por McClure et al3 e Esola et al2. Estes últimos realizaram estudos apenas com analise cinemática.

Estudos avaliando exclusivamente o movimento de agachamento, não foram localizados, mas sim o avaliaram com a presença de cargas e avaliação isocinética, com ou sem EMG. Nosso estudo procurou realizar uma simulação para se pegar peso de uma forma considerada correta, porém sem a presença de carga.

No agachamento, os músculos paraespinhais apresentaram uma atividade continua, discretamente maior à extensão, mas sem o aparente silêncio elétrico observado na flexo-extensão com joelhos estendidos.

Toussaint et al20 realizaram estudo utilizando um aparelho de exercício cinético, com carga progressiva, para simular o levantamento de peso, analisando também a EMG no movimento isométrico. Assim, como no nosso estudo do movimento com os joelhos estendidos, Toussaint et al21 observaram, a presença de movimentos iniciais do quadril no inicio da extensão. A atividade do EMG dos músculos isquiotibiais foi menor, porém também tendendo a uma atividade continua e maior na extensão do tronco, demonstrando mais uma vez a influência destes músculos na rotação da pelve e, portanto no ritmo lombar e pélvico.

Quinze voluntários apresentaram atividade da musculatura reto abdominal que apareceu no final da flexão com joelhos estendidos, quando já não havia atividade dos músculos paraespinhais.

Uma explicação, é que esses voluntários poderiam compensar a baixa flexibilidade da coluna lombar com a contração abdominal no final da flexão. Entretanto, os voluntários sem atividade eletromiográfica do reto abdominal não apresentaram significância estatística nos testes de flexibilidade (Schober modificado e prova índex-chão). A outra, a semelhança dos estudos de Granata et al, 200112 e Lavender et al27 seria a atividade de co-contração antagonista do músculo reto abdominal em relação aos paraespinhais na flexo-extensão contribuindo não só na estabilização da coluna vertebral, mas também no equilíbrio da pressão intraabdominal, diminuindo o stress sobre a coluna.

Estudos avaliando a atividade eletromiográfica dos músculos retos abdominais são pouco e associados, juntamente com os músculos oblíquos nos estudos sobre estabilidade da coluna vertebral principalmente na presença de carga. Nosso estudo mostrou que no agachamento a atividade EMG do músculo reto abdominal foi inexistente. McGill et al23 sugerem que no agachamento com carga, o componente flexor do tronco, necessário para a estabilidade da coluna, esteja associado mais aos músculos psoas seguido dos músculos oblíquos.

Os músculos retos anteriores da coxa não tiveram atividade durante todo o movimento na flexo-extensão com os joelhos estendidos. Porém no agachamento houve uma atividade dos músculos retos anteriores das coxas, também mais intensa à extensão, mas não foram localizados estudos avaliando tal músculo neste movimento de agachamento. Acredita-se, que o músculo reto-anterior da coxa seja responsável pela piora da lordose quando encurtado, segundo Simm6, por isto nossa escolha em estudá-lo, mas sua contribuição no ritmo lombar e pélvico foi pobre.

No nosso estudo, não utilizamos um modelo postural, mas as variações observadas durante os exames de agachamento, o que sugere a necessidade de se propor um outro estudo, ao nível de reabilitação, se a flexão dos joelhos não são suficientes para proteção das estruturas da coluna lombar baixa, além de uma orientação correta de como se abaixar para carregar um peso visto a curva da cinemática e atividade do EMG, sugerir a presença de stress sobre tais estruturas.


CONCLUSÃO

Este estudo permitiu a verificação da participação dos músculos isquiotibiais e extensores da coluna como principais responsáveis pelo ritmo lombar e pélvico nos movimentos de flexo-extensão do tronco, seja com os joelhos estendidos ou no agachamento. Os retos abdominais não tiveram participação importante provavelmente devido ao tipo de movimento realizado, onde a gravidade auxiliou a flexão do tronco, mas foi possível verificar que algumas vezes sua contração é presente. Por fim, os retos femorais não apresentaram qualquer tipo de participação no ritmo lombar e pélvico. Este estudo lançou mão apenas de voluntários saudáveis, treinados, jovens e do sexo masculino, assim a correlação destes resultados com situações de doença exigem a sua expansão para outros grupos a fim de se identificar quais fatores podem estar associados com a dor e disfunção lombar.


AGRADECIMENTOS

A todos os voluntários que participaram e ajudaram neste estudo: aos seus comandantes oficiais e praças e ao oficial chefe e praças da unidade de saúde, todos pertencentes ao Regimento de Cavalaria Nove de Julho da Policia Militar do Estado de São Paulo.

Aos oficiais de saúde comandantes da: Diretoria de Saúde, Centro Médico e Hospital da Policia Militar do Estado de São Paulo pela viabilização deste trabalho.


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