ISSN 0104-7795 Versão Impressa
ISSN 2317-0190 Versão Online

Logo do Instituto de Medicina Física e Reabilitação HC FMUSP

Número atual: Dezembro 2006 - Volume 13  - Número 3


RELATO DE CASO

O processo de metamorfose na identidade da pessoa com amputação

The metamorphosis process in the identity of an amputee


Kátia Monteiro De Benedetto Pacheco1; Antonio da Costa Ciampa2

1. Psicóloga da DMR HC FMUSP, Especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar em Reabilitação pelo HC FMUSP, Mestre em Psicologia pela Universidade São Marcos.
2. Professor do Programa de Estudos de Pós Graduados em Psicologia Social da PUC/SP e do Programa de Estudos de Pós Graduação em Psicologia da UNIMARCO, Doutor em Psicologia Social pela PUC/SP.


Endereço para correspondência:
Kátia Monteiro De Benedetto Pacheco
Rua Diderot, 43 Vila Mariana
São Paulo/SP Cep 04116-030
E-mail: kkmbpacheco@itelefonica.com.br

Recebido em 21 de Julho de 2006, aceito em 21 de Agosto de 2006.


Resumo

O presente artigo refere-se a uma pesquisa cujo objetivo foi compreender o processo de metamorfose da identidade da pessoa com amputação. Utilizou-se a metodologia qualitativa do estudo de caso, mediante a análise da narrativa da história de vida do sujeito considerado emblemático, que foi selecionado na Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da FMUSP. Verificou-se que, quando o sujeito consegue atribuir um sentido emancipatório ao conflito gerado pela sua amputação, ele pode rever seus valores preconceituosos e estigmatizantes acerca do significado social de ser uma pessoa com deficiência e com isso re-significar tais valores, o que propicia uma postura mais reflexiva e autodeterminada, bem como a reconstrução de seu projeto de vida com um novo sentido emancipatório.

Palavras-chave: Amputação, reabilitação, crise de identidade.




INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa foi compreender o processo de metamorfose da identidade do indivíduo amputado que consegue atribuir um sentido emancipatório à sua amputação, ou seja, um sentido que o liberte de preconceitos para agir de forma mais autônoma e criativa em sua vida 1,2. A metodologia utilizada nesta pesquisa foi a qualitativa do estudo de caso, mediante a análise da narrativa da história de vida do sujeito considerado emblemático, ou seja, aqueles que conseguem exprimir a consciência coletiva de uma forma melhor e de uma maneira mais precisa do que a grande maioria do grupo3. A população desta pesquisa foi de cinco sujeitos com amputação inseridos na Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da FMUSP; dentre estes, foi selecionado o sujeito considerado mais emblemático para o estudo de caso aqui apresentado por ficar mais evidente sua luta pela auto-emancipação.

A conceituação de identidade aqui adotada, Ciampa2 vem sendo desenvolvida a partir dos pressupostos que servem de base para o referencial teórico da Psicologia Social crítica, a qual segundo Lane4 estuda a relação essencial entre o indivíduo e a sociedade, esta entendida historicamente. É uma abordagem teórica que se preocupa em conhecer como cada um de nós - que nasce como ser apenas natural capaz de se metamorfosear, em ser também histórico ao sofrer as determinações das constantes transformações sociais - se constrói como indivíduo humano que, assim, ao mesmo tempo em que age como ator social, vai se tornando autor de ações que podem determinar transformações da sociedade as quais, ao se concretizarem, concretizam o processo histórico como síntese de natureza e cultura.

É assim que a identidade, considerada como um processo de constante metamorfose, pode ser compreendida à luz da Psicologia Social, pois esta apresenta a visão de ser humano como um ser ativo e em constante processo de transformação. Transformação esta em que indivíduo e sociedade se constituem reciprocamente, através de um processo dialético, um processo não linear em que os fenômenos são considerados e analisados em seus movimentos recíprocos e contínuos de interação.

Referencial teórico

Segundo Ciampa2, a identidade é compreendida como um processo de metamorfose permanente, cuja dimensão temporal envolve diferentes momentos. Assim, o presente é o momento em que, por exemplo, alguém se reconhece como um adulto que pode falar da criança que foi no passado - sua história de vida - e também do velho que gostaria de ser no futuro - seu projeto de vida - como forma de falar de si mesmo.

Se esse alguém for uma pessoa que em determinado momento de sua vida sofreu uma amputação, a pressuposição generalizada, inclusive do próprio amputado, é que certamente sua metamorfose será significativamente afetada - o que é razoável admitir - transformando o sentido, seja de sua história de vida, seja de seu projeto de vida. O que não é razoável admitir é que sempre esse novo sentido será necessariamente negativo, estereotipado e estigmatizante.

Pressuposições sobre identidades sempre afetam a todos. Mesmo antes do nascimento de um filho, é possível que os futuros pais já tenham expectativas que irão interferir significativamente no desenvolvimento e formação da criança que ainda não nasceu. Ou seja, já nascemos com uma identidade pressuposta, nem que seja a de que "meu filho vai ser o que ele quiser, não o que eu quero". Contudo, é importante lembrar que há outras pressuposições, além das expectativas dos outros significativos (como é o caso dos pais), que constituem uma complexa rede de relações intersubjetivas que organiza a sociedade como um todo, envolvendo relações de classe social, trabalho, gênero, religião, etnia, faixa etária etc.

Quanto maior o conformismo com as convenções sociais, mais as identidades pressupostas são repostas, ou seja, são reproduzidas de forma a consolidar uma tradição que vê como natural o que é social e conseqüentemente histórico. Com os avanços da medicina, em particular, e da ciência e da técnica, em geral, uma pessoa amputada pode perfeitamente continuar sua existência com qualidade de vida. Contudo se sua identidade pressuposta for de uma pessoa fracassada, incapaz, infeliz etc, por causa da amputação, tal pressuposição pode se tornar uma "profecia que se auto-realiza", a despeito do sucesso do atendimento recebido em termos de cirurgia, prótese, reabilitação etc.

Determinadas condições objetivas são necessárias, é óbvio, mas não necessariamente suficientes, pois existem também as condições subjetivas que interferem. Estas dependem do significado social e do sentido pessoal que uma determinada identidade adquire. Se o estereótipo e o estigma do amputado for o significado compartilhado intersubjetivamente na sociedade, fica muito difícil a pessoa dar um sentido diferente à sua vida, ter um projeto de vida que lhe permita superar suas eventuais dificuldades. É como se, a partir de um determinado momento, a metamorfose deixasse de ocorrer e o indivíduo ficasse estagnado na "mesmice" de uma vida prejudicada, prisioneiro da personagem que lhe é atribuída - e com a qual ele se identifica - de amputado fracassado, incapaz e infeliz.

Assim, mesmo quando a identidade é percebida como estática, parecendo não sofrer modificação, ela está sendo transformada à medida que, através de minhas ações, eu "reponho" aquilo que a sociedade "põe" como certo, ou seja, aquilo que as normas sociais e a ideologia dominante estabelecem ser o mais adequado. Tal processo pode dar a impressão que a identidade do sujeito permanece igual, sem transformação alguma, mas é o trabalho da reposição que sustenta a mesmice2. Esta reposição ocorre quando há a reatualização da identidade pressuposta, por meio de rituais sociais; no entanto, quando há esta reposição, retira-se o caráter de historicidade da identidade. É o que Ciampa2 denomina de identidade "mito", em que apenas se reproduz o social sem questionamento e/ou responsabilidade por parte do próprio indivíduo com relação a sua identidade. A idéia de "mesmice" corresponde a esta aparente não transformação da identidade. Ciampa5 diz que a metamorfose que, nestes termos, se dá por reposição pode ser julgada como 'negativa', pois o que de fato se impede é a emancipação.

O desenvolvimento da identidade resulta da interação das personagens encarnadas pelo indivíduo. Muitas são as personagens que aparecem na vida das pessoas, sendo que a transformação do sujeito advinda deste movimento de morte e vida, em que uma personagem é abandonada e outra surge, é que permite a superação da identidade pressuposta e a concretização da identidade como metamorfose em busca a emancipação2.

Dessa maneira, enquanto processo constante da identidade das pessoas, a metamorfose pode assumir diferentes sentidos. Quando se dá como simples reposição, sem questionamento e/ou responsabilidade por parte do próprio indivíduo, ou seja, sem autonomia, o sujeito ao repor a identidade pressuposta fica prisioneiro de uma personagem que lhe foi atribuída de modo heterônomo, permanecendo numa "mesmice" que, se não chega propriamente a degradar, faz a pessoa a-criticamente ficar "estagnada", impedida de novas experiências e relações que lhe garantam melhor qualidade de vida. Porém, pode ocorrer a degradação quando um estigma, atribuído pelos outros e incorporado pelo sujeito, é eficiente deteriorando sua identidade com ações preconceituosas e discriminatórias que o prejudicam de forma significativa. E, finalmente, a metamorfose pode ocorrer como superação, quando o sujeito emancipa-se de valores estigmatizantes e preconceituosos impostos pela sociedade e/ou apropriados pelo indivíduo, possibilitando assim um agir mais livre e criativo para realização de suas metas e desejos, o que é a expressão da "mesmidade". A expressão da mesmidade pode ser entendida também como autenticidade, que envolve auto-reflexão e autodeterminação.

Segundo Ciampa2, "ser-para-si é buscar a autodeterminação. Procurar a unidade da subjetividade e da objetividade, que faz do agir uma atividade finalizada, relacionando desejo e finalidade, pela prática transformadora de si e do mundo".

Nesse sentido, ser-para-si é sair da mesmice, é a expressão da autonomia em direção a mesmidade e à emancipação. Esta autodeterminação nos possibilita sair do movimento de reposição e buscar o outro "outro" que também somos, ou seja, o "outro" que queremos ser pela superação da identidade pressuposta.

Desta forma, para que a identidade seja autodeterminada como "ser-para-si, e não o ser-feito-pelo-outro" é necessário também que essa nova identidade do outro "outro" que queremos ser tenha reconhecimento social, de tal forma que a idéia de ser o autor da própria vida - e não apenas um ator que simplesmente repõe os padrões coercitivamente impostos - precisa ser entendida como possibilidade que sempre se dá, em última análise, como co-autoria coletiva 6,7.

Por isso, só temos condições de avaliar se houve, ou não, a emancipação a posteriori, pois não há a garantia de que um novo conteúdo identitário (ainda que necessário) por si só irá dar condições emancipatórias ao sujeito. É através do processo pelo qual esse novo conteúdo identitário do Ego é reconhecido pelo Alter que esse sentido pessoal se estabiliza como significado socialmente compartilhado, permitindo que se desenvolva uma nova rede intersubjetiva, em que as relações entre Ego e Alter são transformadas pelo reconhecimento recíproco de ambos como sujeitos autônomos.

Prado em 2001 refere-se a esta questão ao relatar que: "... não há nas ações coletivas nenhum caráter emancipador que possa ser predeterminado antes do processo que se instaura na constituição da identidade coletiva"8. Isso porque, na medida em que o significado de ser amputado, em termos coletivos, reflete estereótipos, preconceitos, valores estigmatizantes etc, (constituindo desse modo uma identidade pressuposta "negativa"), é provável que, em termos pessoais, o sentido que o sujeito atribui à experiência da amputação seja o mesmo, como reposição (pelo Ego) da pressuposição (do Alter) dessa identidade "negativa". Contudo, essa probabilidade não é uma inevitabilidade; sempre novos sentidos e novos significados são possíveis.

Caso Ego consiga atribuir um sentido emancipador para sua experiência e este sentido passe a ser compartilhado com Alter, concretizando-se socialmente, há então um aumento de probabilidade de novas formas de reação frente à amputação. Pode surgir um novo projeto de vida, que não reproduza necessariamente os estigmas sociais sobre ser amputado, um projeto de vida capaz de ser mais construtivo na qualidade de vida da pessoa com amputação.


A HISTÓRIA DA VIDA DE SOFIA

O estudo de caso aqui analisado é de uma mulher, cujo nome fictício é Sofia, com quarenta e três anos de idade, viúva do primeiro casamento e separada do segundo, com seis filhos, ensino fundamental completo, comerciante, com amputações em ambas as pernas: transtibial (abaixo do joelho) na perna esquerda e transfemural (acima do joelho) na perna direita, devido a acidente ferroviário em novembro de 2001.

Sofia relata que sempre teve uma infância pobre e com muitas limitações devido à sua timidez. Conta que sua timidez a prejudicava não apenas em seus relacionamentos interpessoais, como também em seus estudos, pois tinha vergonha de esclarecer dúvidas com as professoras, mostrar seu não saber e solicitar a ajuda do outro. Esta caracterização de uma precoce, forte e constante timidez permite afirmar que atuava em seus relacionamentos encarnando a personagem 'garota tímida'.

Aos dezesseis anos, interrompe os estudos para se casar. Logo depois, aos dezessete anos, Sofia perde seu marido que falece em um acidente, o que a deixa três meses sem sair de casa, abatida e com medo de como seria sua vida a partir disso: viúva e com uma filha. Este episódio é novamente permeado pela personagem 'garota tímida' que diz ignorar que seu marido "estava na vida errada", fazendo com que a perda do marido fosse marcada por dois lutos: o do marido real e o do marido idealizado. Aos poucos, com seu trabalho, colegas e primas, vai se recuperando e, aos dezoito anos, conhece seu segundo marido, com quem permanece casada por vinte e cinco anos e tem mais cinco filhos. Sua vida conjugal é marcada por problemas decorrentes do uso pelo marido de drogas e do ciúme deste que a 'garota tímida' não consegue controlar, procurando sempre "relevar".

Sofia relata na seqüência momentos difíceis, em que sua metamorfose identitária vai acontecendo através de sua força interna e relações com o outro. Assim, ao contar como foi o acidente que causou a amputação, bem como o posterior período de hospitalização, quando vivenciava momentos de grande angústia e tristeza, medos e incertezas, destaca que os outros representaram um papel significativo para sua sobrevivência, tanto física quanto psíquica. É neste período, segundo Sofia, que os exemplos de vida de outras pessoas internadas no hospital a ajudaram a se erguer e perceber, através do olhar positivo e de admiração do outro em relação a ela, que havia outras formas de se ver e assim, possibilitar sua metamorfose no sentido da "mesmidade", superando a "mesmice" em que se encontrava como a 'garota tímida' até então.

Assim, quando sai do hospital, enfrenta o olhar dos outros e a vergonha que sente diante das pessoas vai desaparecendo, fazendo desaparecer também a 'garota tímida', ao surgir em seu lugar uma mulher transformada que começa a se autonomear como a 'cara de pau'.

A personagem 'cara de pau' utiliza a estratégia de, ao conversar com as pessoas, olhar nos olhos delas e mostrar todo seu potencial, pois percebia que o desconhecimento dos demais em relação à pessoa com deficiência física aumentava o preconceito e a discriminação. Sendo assim, ao surpreender o outro com uma atitude diferente da comumente esperada, Sofia negava o estereótipo de que a pessoa com deficiência é sempre incapaz, fracassada, infeliz etc e provocava uma mudança qualitativa em suas relações, superando a identidade pressuposta de 'garota tímida', provocando, assim, uma transformação não só em si própria, mas também no próximo.

Esta mudança de postura de Sofia é possibilitada pelas vivências de impacto que ela vinha experienciando nesta fase de sua vida diante da reação dos outros frente a suas amputações; em seu relato, Sofia conta que até mesmo seu marido a desprezara, expressando tudo aquilo que ela mais temia dos outros ao sair do hospital. Ele trazia o preconceito para dentro de sua casa, degradando sua identidade feminina e pessoal, através de seu olhar de vergonha por estar junto dela em público e de seu olhar de desprezo ao dizer que ela era "aleijada, (...) não era mais mulher". Assim, Sofia relata o momento difícil da separação conjugal, mas que, mesmo representando num primeiro momento mais uma perda significativa em sua vida, pôde num segundo momento libertá-la da mesmice em que se encontrava no plano afetivo. Afinal, apesar de que sua personagem 'cara de pau' já atuasse em muitas áreas de sua vida com atitudes emancipatórias, no relacionamento conjugal suas atitudes no desempenho do papel de esposa ainda repunham a personagem 'garota tímida'. Ao morrer a esposa-que-também-era-garota-tímida, começa a viver a mulher-transformada-que-se-auto-nomeava-cara-de-pau. Metamorfose é morte e vida!

A atitude reflexiva e a postura autodeterminada possibilitaram que, gradativamente, Sofia fosse discriminando as atividades que poderia retomar mesmo que o fizesse de um modo diferente do que estava acostumada. Ao realizar atividades domésticas, profissionais, sociais de forma independente, mostrava para o outro seu potencial próprio, provocando reações de admiração, o que a estimulava a continuar realizando novas tarefas e a estimulavam em sua reabilitação.

Assim, morrendo a 'garota tímida' que não gostava de perguntar, solicitar ajuda do outro e mostrar seu não saber, nasce a 'cara de pau' que pôde re-significar tais valores e começou a utilizar a ajuda do outro e seus recursos intelectuais no processo de reabilitação. A busca pelo esclarecimento de suas dúvidas e por maior conhecimento acerca de uma realidade que até então lhe era distante, possibilitou-lhe uma adequação de expectativas e boa evolução no treino com as próteses.

Ressalte-se como importante que a transformação da identidade precisa ser entendida como desenvolvimento integral do indivíduo em todas suas dimensões; a melhora na dimensão emocional de Sofia fez-se acompanhar de melhoras também na dimensão do intelecto, das habilidades motoras, da competência interativa etc. A felicidade de Sofia parecia crescer cada vez que obtinha sucesso - significando o reconhecimento de sua crescente autonomia - bem como cada vez que enfrentava um desafio - significando a oportunidade de demonstrar essa mesma autonomia -. Sua felicidade dependeu muito da 'cara de pau', quando começou a compreender que podia mostrar-se como ela-mesma; essa vontade a fez ter coragem de negar o que a negava: a vergonha de não ser quem os outros queriam (ou quem ela acreditava que queriam que fosse). Ela passa a se reconhecer - e a ser reconhecida - como ela mesma. A autonomia surge como negação da negação.

Neste contexto de auto-desenvolvimento, Sofia decide viajar para a cidade de origem de seus pais e percebe a reação de estranhamento de todos diante de sua deficiência. Sofia, que já havia aprendido como lidar com este tipo de situação, entra em cena com a personagem 'cara de pau' fazendo-se conhecida e admirada nesta cidade. O estranhamento das pessoas a fez questionar, num primeiro momento, se não havia pessoas com deficiência lá, mas com o tempo percebe que as pessoas nesta condição não tinham visibilidade, por falta de espaço, acessibilidade e conhecimento de seus direitos, o que as fazia ficar em casa.

Neste contexto, resolve mudar-se para lá com a missão de lutar pelos direitos das pessoas com deficiências desta cidade. Com esse projeto de vida, pode-se dizer que a personagem 'cara de pau' se transforma sutilmente, pois Sofia tem suas ações reconhecidas e o seu conhecimento acerca dos direitos das pessoas com deficiência começa a ser reconhecido pelos moradores da cidade, o que lhe trouxe o convite de prestar consultoria para a Prefeitura.

Ser reconhecida pelo seu saber sempre foi muito significativo para a identidade de Sofia que aprendeu desde a infância o valor do saber e apresentava, enquanto 'garota tímida', medo em expor seu não saber. Transforma-se nesse meio tempo quando deixa de sentir vergonha e passa a ter coragem de se mostrar como 'cara de pau', obtendo reconhecimento num contexto ainda limitado, numa rede de intersubjetividade ainda restrito a pessoas próximas, familiares, amigos etc.

Agora, surge a oportunidade de - não mais como 'cara de pau', mas como 'especialista em direitos das pessoas com deficiência', que foi convidada a ser 'consultora da Prefeitura', - a oportunidade de concretizar um projeto de vida em que sua pretensão de ser uma pessoa competente, bem sucedida e satisfeita consigo mesma, foi publicamente reconhecida. A percepção do outro que vê Sofia como alguém útil para os moradores desta cidade, contribuiu para que ela se sentisse mais segura e autônoma em mostrar-se e modificar-se de acordo com seus desejos e aspirações. Deste modo, Sofia também decide retomar seus estudos para colocar em prática seu trabalho voluntário na cidade. A prática deste trabalho lhe traz mais uma vez a confirmação de tudo o que ela pode construir, pois afinal, mesmo que a deficiência possa representar uma limitação objetiva, Sofia percebe que a maior e real limitação era a mesmice em que se encontrava.

Sofia resgatou sua independência, seu papel de mãe, seu trabalho e buscou novas formas de interação com as pessoas, lutou pelos seus direitos, relatando depois a retomada de sua vida no aspecto amoroso. A conquista do namorado também é significativa em sua história de vida, visto que seu ex-marido lhe dizia que não acreditava mais no seu papel de mulher, deteriorando sua identidade feminina e lhe trazendo dúvidas quanto à possibilidade de vir a ter algum outro companheiro. Deste modo, seu namoro apresenta-se como um fator importante para o aumento de sua auto-estima, através do reconhecimento de que ela pode ser amada e desejada mesmo após a amputação.

Dessa maneira, diante do sentido emancipatório que sua metamorfose identitária adquiriu, Sofia apresenta-se como uma pessoa com atitudes autodeterminadas, não mais reproduzindo valores preconceituosos e estigmatizantes com relação à sua amputação.

É praticamente impossível um indivíduo deixar de ser um ator social, até mesmo quando se é um eremita. Contudo, o pleno desenvolvimento individual só se dá quando, além de ator, a pessoa consegue se tornar, ainda que de forma parcial ou limitada, também autora de sua história de vida.

Assim, Sofia refere como se considera hoje como pessoa:

"Eu, uma pessoa solta assim, uma pessoa feliz, forte, batalhadora, né? Não tem nenhum empecilho para mim. Para mim tudo dá certo, eu falo assim que dá certo porque vou à luta e faço".


CONCLUSÃO

Na análise da história de vida aqui apresentada concluiu-se que, quando o sujeito consegue atribuir um sentido emancipatório a sua experiência de amputação, ele concretiza um novo projeto de vida, superando o conflito gerado pela mesma, através da revisão de valores preconceituosos e estigmatizantes acerca do significado social de ser uma pessoa com deficiência. Tal revisão de valores propicia a re-significação destes e o desenvolvimento de uma postura mais reflexiva, autodeterminada e emancipatória em sua vida, o que pode gerar, através do agir comunicativo nas trocas com o outro, um reconhecimento social que dá início à modificação de valores sociais, à melhora na qualidade de vida e ao incremento da inclusão social de pessoas com deficiência.

Deste modo, o exemplo de Sofia também é significativo no âmbito coletivo da sociedade, ao evidenciar que casos emblemáticos de metamorfose identitária individual podem ampliar e garantir a plausibilidade de que muitos outros desenvolvam sua capacidade auto-reflexiva, que pode contribuir para a diminuição dos preconceitos estigmatizantes, que deixa a todos numa mesmice que impede a emancipação.


REFERÊNCIAS

1. Pacheco KMB. O Processo de metamorfose da identidade do paciente amputado [dissertação]. São Paulo: Universidade São Marcos;2005.

2. Ciampa AC. A estória do Severino e a história da Severina: um ensaio da psicologia social. São Paulo: Brasiliense; 1987.

3. Kolyniak HMR. Metamorfose e utopia: A identidade do professor de educação física que busca a emancipação humana [dissertação]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo;1996.

4. Lane STM. O que é psicologia social. São Paulo: Brasiliense; 1981. v.39. [Coleção Primeiros Passos].

5. Ciampa AC. Identidade humana como metamorfose: a questão da família e do trabalho e a crise de sentido no mundo moderno. Rev Interações. 1998;6(3):87-101.

6. Ciampa AC, Kolyniak HMR. Corporeidade e dramaturgia do cotidiano. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No prelo 2004.

7. Godoy MP. A busca pela emancipação: identidade do homem idoso [dissertação]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2004.

8. Ciampa AC. Políticas de identidade e identidades políticas. In: Dunker CIL, Passos MC, organizadores. Uma psicologia que se interroga: ensaios. São Paulo: Edicon; 2002. p. 133-44.

Apoio

Logo Medicina USP Logo Instituto Oscar Freire Logo HC FMUSP

Patrocinadores

Logo Fundação Medicina USP Logo Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação Logo Inovation for pacient care Logo Allergan

Revista Credenciada

Revista Associada

Logo Sistema Integrado de Biblioteca s Universidade de São Paulo Logo Associação Brasileira de Editores Científicos

©2019 Acta Fisiátrica - Todos os Direitos Reservados

Logo Acta Fisiátrica

Logo GN1